Existe uma fase na vida em que meninos e meninas se odeiam. Depois, outra em que um corre atrás do outro -- e aí eles passam o resto da existência brincando de "menina pega menino" (e vice-versa).
Entre essas duas, existe uma outra em que ambos os lados ensaiam uma tolerância, mas ainda não sabem como lidar com as coisas do amor (isso foi brega). Quando eu era mais nova, essa era a fase em que as festinhas americanas incorporavam música lenta ao repertório.
Tinha, por exemplo, Oceano, do Djavan, da trilha sonora de Top Model. Não, não se tocava a música do Placa Luminosa que fez parte da seleção musical da mesma novela.
O momento em que o DJ botava Oceano na vitrola era crucial. Os primeiros acordes criavam no mesmo minuto uma atmosfera meio tensa no salão.
Quem, afinal, teria cara de pau suficiente para chamar as meninas para dançar? E quem teria coragem de aceitar o convite dos meninos?
Então, meninos e meninas -- que até então dançavam juntos numa boa os passinhos dos sucessos do pop, numa prova total de boa convivência -- se dividiam. Cada grupo escolhia uma parede do salão e ficava ali, encarando o outro lado, como se um pelotão de fuzilamento estivesse à frente.
Isso quando um grupinho de meninas não ia se esconder dos meninos.
A dança lenta das festinhas tinha um código de regras informal, mas amplamente aceito pelo grupo de baladeiros mirins (hehe).
Primeiro de tudo: garotos tiravam garotas para dançar, salvo decisão em contrário por parte das chicas.
Segundo: moleque que era moleque chamava menina por menina, ainda que por dentro torcesse para ela não aceitar o convite. Pular alguém do paredão de fuzilamento grupo da parede em frente era de uma tosquice só comparável a bater na mãe em noite de Natal.
Alguns meninos paravam de chamar as colegas depois que elas recusavam da primeira vez -- mas nem todos faziam isso.
Terceiro: se você dançasse a noite inteira com determinado colega, isso não queria dizer nada. Não significava beijo nem namoro (uma leve quedinha, talvez). Afinal, eram todos pós-crianças e pré-adolescentes desengonçados, cuja balada ia das 20h às 23h.
A questão da distância entre o par dançante também é digna de observação. No início, o tamanho da separação entre os corpos era mais ou menos o de um braço. Basta dizer que ela ia diminuindo à medida que os pré-adolescentes tronchos davam lugar a teenagers loucos e hormonais.
Até que chegasse o ponto, é claro, de não ser mais necessária essa desculpa besta de música lenta para quem quer que fosse se aproximar de quem estivesse a fim.