terça-feira, novembro 01, 2005

Neon

Certos artistas dos anos 80 têm um jeito eufórico de falar sobre coisas tristes. Nada mais anos 80 do que isso, aliás: até onde eu consegui acompanhar, década de merda. Brasil de ilusões perdidas (com direito a Sarney e, oh, Fernando Collor), o país indo mal e o mundo… não muito melhor do que isso (quem viveu naquela época vai saber falar disso melhor do que eu, que me lembro vagamente de Reagan, Thatcher e Irã x Iraque).

Ainda assim, todos vestiram suas roupas fluorescentes, enormes óculos escuros, camisetas com manga de morcego, polainas e lencinhos (atenção: se você viveu nos anos 80, não adianta dizer que não era assim. Você provavelmente tem registros disso, eu tenho certeza). E ainda assim foram às boates e festinhas chacoalhar ao som de hits como Blue Monday, do New Order

How does it feel
to treat me like you do?
When you've laid your hands upon me
And told me who you are
I thought I was mistaken
I thought I heard your words
Tell me how do I feel
Tell me now, how do I feel

Those who came before me
Lived through their vocations
From the past until completion
They'll turn away no more

And I still find it so hard
To say what I need to say
But I'm quite sure that you'll tell me
Just how I should feel today

I see a ship in the harbor
I can and shall obey
But if it wasn't for your misfortune
I'd be a heavenly person today

… que é um mega-hino da melancolia, mas tem uma batida eletrônica tão poderosa que faz a gente se esquecer dos corações partidos e outras dores explícitas na letra. Fiquei um bom tempo tentando lembrar que outras músicas têm essa mistura agridoce de agonia e êxtase, de amor da grande mãe universal e de fundo do poço. Fico com Legião Urbana porque todo mundo conhece e porque quase todo mundo sai pulando quando toca nas festinhas, cantando quase como se fosse um mantra

Tire suas mãos de mim
Eu não pertenço a você
Não é me dominando assim
Que você vai me entender
Eu posso estar sozinho
Mas eu sei muito bem aonde estou
Você pode até duvidar
Acho que isso não é amor
Será que é imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?
Nos perderemos entre monstros
Da nossa própria criação?
Serão noites inteiras
Talvez por medo da escuridão
Ficaremos acordados
Imaginando alguma solução
Pra que esse nosso egoísmo
Não destrua nosso coração

E só quando a gente pára para escutar a letra (já distante da bagunça, da escuridão e das trocentas pessoas que pulam ao lado) ou mesmo para ler (como eu fiz agora, ao dar um singelo CTRL+C, CTRL+V) é que as palavras dão sua devida cotovelada no peito.

Toda essa curiosidade
Que você tem pelo que eu faço
E não gosto de me explicar
Se eu paro e me pergunto
Será que existe alguma razão
Pra viver assim
Se não estamos de verdade juntos?
Procuramos independência
Acreditamos na distância entre nós

Algumas músicas dos anos 80 marcam não só na sua angústia disfarçada, mas também numa inocência que de vez em quando volta nas letras de hoje - mas de uma maneira completamente diferente daquela época.

Eu queria te ver
Sentir esse lance
tirando os pés do chão
típico romance
Mas tudo é tão difícil
Eu quero o mais fácil
tentarmos esquecer
E fica só uma ilusão nesta madrugada
Eu te amo você, não precisa dizer o mesmo não

Sempre quando escuto essa musica, acho que consigo imaginar a Marina Lima, gata nos seus 20 anos, de lencinho na cabeça (amarrado como o Cazuza costumava usar), camiseta de silk screen e calca fuseau. E madrugada em Copacabana (pode ser ali perto do Cervantes) e ela pede para se encontrar com o cara porque quer saber qual é o do lance - que sentimento é esse, afinal - na época em que era moda falar assim. E, enquanto isso, os carros passam a mil por hora, em plena madrugada naquele túnel da Princesa Isabel.

É só longe da pista de dança das festas de revival dos anos 80 que e possível pensar em significados assim. Mas são imagens que se dissolvem quando a nuvem de fumaça branca vem ressecar meus olhos e todos a minha volta começam a pular. Frenéticos.

3 comentários:

Felipe Campbell disse...

Nossa, o que aconteceu? Você tá tão pensativa e séria... Tá tudo bem?

Ah, você não tem gabarito para falar de anos 80, porque você acha até hoje que "Teorema" é uma música do Ira! porque a primeira vez em que a ouviu foi quando, na metade final da década de 90, o simpático grupo paulistano lançou um disco de cover... tsc tsc para você, mocinha da geração TV Colosso!!!

Beijinhos

Ale Carvalho (Lain) disse...

uhm, baixou uma Ale em ti, né? rs... brincadeira.. esse fim de ano tá acabando com nosso humor! De todas, eu gosto desta do Capital... "é a minha cara"..rs. bj

homi disse...

Seeensacional!!!
Boa retrospectiva... Essa música da Marina (aliás do Sr. Kiko Zambianchi) é mesmo a cara dos anos 80.