Em mil ocasiões, eu li teorias (todas opinativas e nada científicas, é bom avisar) sobre a incapacidade dos brasileiros de dizer não. Segundo os tais textos, nossa reação varia entre enrolar (falar que sim, mas depois apresentar uma desculpa qualquer para desistir), dar um perdido (por exemplo, prometer que vai ligar e, depois, nunca mais fazê-lo) ou deixar a coisa no ar (“vamos ver” é uma frase ótima para isso). Até para isso nossa famosa criatividade nos ajuda: supostamente, sabemos vetar, por limites ou manifestar nosso desinteresse sem causar mágoas imediatas ou passar por malvados.
O curioso é que, recentemente, me dei conta de que tem muita gente, cada vez mais gente, aliás, dizendo “não”. Mais estranho ainda: a palavra nunca é usada no sentido para o qual ela existe. Essa é a definição do Houaiss: “Advérbio. Expressa negação como recusa absoluta a uma pergunta ou resposta; como recusa qualificada às situações anteriores; como contestação seguida de nova versão à pergunta ou resposta”. Não para por aí. Recomendo que deem uma olhada no dicionário para ver o texto completo, com exemplos e tal.
O “não” tal qual eu tenho ouvido por aí virou uma bizarra muleta de linguagem. Uma introdução a qualquer frase. Para usar uma definição nerd, se incorporou à função fática da comunicação (vejam aqui um texto simplinho sobre o assunto). Passou a ser usado mais ou menos da forma como os americanos usam o “It’s like”, e os franceses, o “Pffffffff” (pense num francês mal-humorado bufando). Não sei se é um comportamento brasileiro ou puramente brasiliense. Quem é de outras cidades pode dar uma opinião lá nos comentários. Observem e me digam.
No último sábado, quando já estava com vontade de escrever sobre isso, achei o exemplo ideal – até para mostrar que esse uso torto do “não” pode causar sobrancelhas levantadas, mal-entendidos, etc. Estava numa sorveteria perto de casa com uma galera. Como ainda ia chegar mais uma pessoa e ela não teria onde se sentar, minha amiga pediu uma à moça da mesa ao lado. A resposta:
- Não... Pode sim, claro!
Em um milésimo de segundo, minha companheira de mesa abriu um olhão como quem estivesse tentando entender se ia ou não conseguir a tal cadeira.
Senão vejamos: a jovem do nosso lado era uma louca, esquizofrênica e contraditória? Quereria ela sacanear gratuitamente a minha amiga? A entonação da primeira palavra era completamente diferente do resto da frase para tentar comprovar alguma das questões anteriores? Negativo para as três perguntas. O “não” estava mesmo deslocado do resto da fala. A maior prova disso é que a moça nos cedeu rapidinho a cadeira.
Tenho vários outros exemplos que vou ouvindo no trabalho e em conversas outras, mas vou usar só esse mesmo para o texto não ficar muito grande (são quase 2 da madrugada e amanhã preciso acordar cedo). Acho que me fiz entender.
Seria esse um vício de linguagem dos novos tempos? Um substituto light à feiura do gerundismo (“Não vai estar dando para estar rolando”, etc.) que se infiltrou na língua nacional por meio dos manuais de telemarketing? Um novo motivo para os nossos estudiosos escreverem textos e mais textos? Por enquanto, fico com uma resposta supostamente à brasileira: veremos. Agora, preciso dormir.
quinta-feira, janeiro 15, 2009
quarta-feira, janeiro 14, 2009
Em instantes...
...Mais um texto novo aqui. Demorei para escrever porque o trabalho hoje foi longo e puxado. Enquanto isso, divirtam-se com Feist (a música é My Moon My Man).
terça-feira, janeiro 13, 2009
Arnica
Depois da faculdade, Érika tinha exatamente uma hora para almoçar em casa. Hoje, pelo menos, não ia comer sozinha: tinha a companhia do irmão. Depois, hora de pegar o busão na parada em frente ao McDonalds e correr para o estágio na Esplanada dos Ministérios.
— Por que o seu prato tem vagem, cenoura, abóbora e frango? — perguntou ela, num muxoxo.
— Porque sou mais velho e melhor — retrucou o jovem.
— Você acha bonito ser assim, mala sem alça desse jeito? — respondeu ela, quase rindo.
— Tô de sacanagem, pô. Tá tudo na assadeira, dentro do forno — disse ele, de boca cheia.
— Ah, bom. Só tinha visto arroz, feijão e couve no fogão.
O quase riso diante da falsa canalhice do irmão mais velho não é qualquer bobagem. É o primeiro esboço de algum senso de humor depois de 11 semanas e dois dias perfeitamente riscáveis do calendário. Esse foi o intervalo de tempo entre o dia em que o (agora ex) namorado de Érika foi embora da cidade e o dia do almoço composto por arroz, feijão, couve refogada, frango e legumes assados.
Onze semanas e 48 horas antes, o moço havia ido para Salvador depois de aceitar uma proposta de trabalho. Desde então, nunca mandou uma carta, cartão-postal, e-mail, mensagem de MSN, scrap de Orkut, nada. Tampouco respondeu aos muitos apelos da garota. Atendeu a um telefonema uma vez, para dizer: “Daqui a pouco, te ligo de volta”. Nunca mais. Depois de oito meses de namoro, sem motivo aparente, transformou um coração de 21 anos em purê. Palhaço.
O desdobramento da história foi mais ou menos assim: desde então, a moça chora, chora, chora, come chocolate, chora, pergunta o que fez de errado, chora, busca respostas no I ching online, chora, demora para completar as listas de exercícios da faculdade, chora mais, tem dificuldade para dormir e para acordar (um dia sim, o outro também), chora, pede colo de mãe e chora. Desistiu de procurar o boçal, mas ainda não deixou de parar de pensar na história. Pelo menos, já conseguiu esboçar um risinho.
Uma hora depois, pegou a linha que leva da W3 Norte à Esplanada. Achou um lugar perto da janela. Encostou a cabeça no vidro e não agüentou. Capotou por sabe lá quantos minutos. Acordou num pulo, com algo vagamente parecido com um bicho caindo no seu colo. Abriu os olhos e viu que, na verdade, o tal bicho era um vegetal.
— É a arniiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiica. Cura dor de cabeça, dor na mão, dor no pé, dor nas costas, febre alta, ferida aberta. É arniiiiiiica, minha gente — gritava o homem de voz bêbada, enquanto jogava raízes da planta para os passageiros pegarem — Vocês podem levar, mas agradeço qualquer contribuição que puderem dar — continuou.
— Puta que o pariu. Enfia essa arnica no cu, meu filho— murmurou a moça (boca suja, ela, não?).
Ela olhou em volta e viu que já havia passado a hora de sair do ônibus. Devia ter descido duas paradas antes. Vejam bem: devia. Porque querer, ela não queria era nada. Nada de andar de ônibus, nada de estágio em help desk de ministério, nada de nada. Queria era sumir.
Catou a bolsa, o galho de arnica e desceu. O tempo tinha virado em questão de minutos e uma chuva grossa caía no centro da cidade. Érika pisou na calçada. Molhou os sapatos, as meias e a barra das calças. Pensou no tanto que teria que andar até o trabalho (ainda bem que não estava atrasada) e deu um suspiro. Respirou fundo de novo. O olho se encheu de lágrimas.
— Bosta de vida — pensou, enquanto abria a sombrinha guardada na bolsa.
Assim que achou a primeira lata de lixo, foi lá e jogou fora o pedaço de arnica. Pensou que, para aplacar o que sentia, não bastava só uma raiz. Nem uma planta completa. Nem um jardim inteiro.
— Por que o seu prato tem vagem, cenoura, abóbora e frango? — perguntou ela, num muxoxo.
— Porque sou mais velho e melhor — retrucou o jovem.
— Você acha bonito ser assim, mala sem alça desse jeito? — respondeu ela, quase rindo.
— Tô de sacanagem, pô. Tá tudo na assadeira, dentro do forno — disse ele, de boca cheia.
— Ah, bom. Só tinha visto arroz, feijão e couve no fogão.
O quase riso diante da falsa canalhice do irmão mais velho não é qualquer bobagem. É o primeiro esboço de algum senso de humor depois de 11 semanas e dois dias perfeitamente riscáveis do calendário. Esse foi o intervalo de tempo entre o dia em que o (agora ex) namorado de Érika foi embora da cidade e o dia do almoço composto por arroz, feijão, couve refogada, frango e legumes assados.
Onze semanas e 48 horas antes, o moço havia ido para Salvador depois de aceitar uma proposta de trabalho. Desde então, nunca mandou uma carta, cartão-postal, e-mail, mensagem de MSN, scrap de Orkut, nada. Tampouco respondeu aos muitos apelos da garota. Atendeu a um telefonema uma vez, para dizer: “Daqui a pouco, te ligo de volta”. Nunca mais. Depois de oito meses de namoro, sem motivo aparente, transformou um coração de 21 anos em purê. Palhaço.
O desdobramento da história foi mais ou menos assim: desde então, a moça chora, chora, chora, come chocolate, chora, pergunta o que fez de errado, chora, busca respostas no I ching online, chora, demora para completar as listas de exercícios da faculdade, chora mais, tem dificuldade para dormir e para acordar (um dia sim, o outro também), chora, pede colo de mãe e chora. Desistiu de procurar o boçal, mas ainda não deixou de parar de pensar na história. Pelo menos, já conseguiu esboçar um risinho.
Uma hora depois, pegou a linha que leva da W3 Norte à Esplanada. Achou um lugar perto da janela. Encostou a cabeça no vidro e não agüentou. Capotou por sabe lá quantos minutos. Acordou num pulo, com algo vagamente parecido com um bicho caindo no seu colo. Abriu os olhos e viu que, na verdade, o tal bicho era um vegetal.
— É a arniiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiica. Cura dor de cabeça, dor na mão, dor no pé, dor nas costas, febre alta, ferida aberta. É arniiiiiiica, minha gente — gritava o homem de voz bêbada, enquanto jogava raízes da planta para os passageiros pegarem — Vocês podem levar, mas agradeço qualquer contribuição que puderem dar — continuou.
— Puta que o pariu. Enfia essa arnica no cu, meu filho— murmurou a moça (boca suja, ela, não?).
Ela olhou em volta e viu que já havia passado a hora de sair do ônibus. Devia ter descido duas paradas antes. Vejam bem: devia. Porque querer, ela não queria era nada. Nada de andar de ônibus, nada de estágio em help desk de ministério, nada de nada. Queria era sumir.
Catou a bolsa, o galho de arnica e desceu. O tempo tinha virado em questão de minutos e uma chuva grossa caía no centro da cidade. Érika pisou na calçada. Molhou os sapatos, as meias e a barra das calças. Pensou no tanto que teria que andar até o trabalho (ainda bem que não estava atrasada) e deu um suspiro. Respirou fundo de novo. O olho se encheu de lágrimas.
— Bosta de vida — pensou, enquanto abria a sombrinha guardada na bolsa.
Assim que achou a primeira lata de lixo, foi lá e jogou fora o pedaço de arnica. Pensou que, para aplacar o que sentia, não bastava só uma raiz. Nem uma planta completa. Nem um jardim inteiro.
segunda-feira, janeiro 12, 2009
Lorena
Na minha lista de desejos para 2009, eu coloquei um DVD do Pedro Paulo & Matheus, uma passagem de avião para a Disney, um cabelo igual ao da Anahí, do RBD, um tocador de MP3, um gato amarelo de verdade e um caderninho que possa servir de diário, entre outras coisas que toda garota de 13 anos merece ter. Comprar um DVD do Pedro Paulo & Matheus não é difícil. Eu até poderia comprar um pirata, é a coisa mais fácil do mundo, mas não tenho o aparelho. Minha mãe já prometeu que, quando terminar de pagar a tevê nova, o tocador de DVD vai ser a próxima compra lá de casa. Já o MP3 eu posso ganhar de aniversário, acho que não é muito caro. Mas vou ter que esperar até meu aniversário, em outubro.
Conseguir a passagem para a Disney e o cabelão da Anahí é um pouco mais difícil. Minha mãe já pediu desculpas por não poder me mandar para lá neste ano, nem no ano que vem e, talvez, nem no ano que vem que vem. Mas eu sei que vou ter a vida inteira para ir. Minha vontade é de abraçar o Mickey até um enjoar da cara do outro. Até lá, sei que também vou ter quem faça meu cabelo todos os dias. A amiga da minha mãe lá do salão de beleza explicou que ninguém acorda como a Anahí, assim, perfeita. Haja baby liss. Não sei se contei que minha mãe é manicure aqui na Asa Norte. Minhas unhas estão garantidas pelo resto da vida. Ontem ela fez essas florzinhas aqui para mim, olha.
O desejo mais fácil de realizar foi o do diário. Ontem eu comprei esse daqui. Acordei cedo, peguei ônibus e fui com uma galera até a Água Mineral para nadar, pegar um sol — aliás, torrar no sol. Nossa, quente demais. Quando todo mundo começou a fritar, a gente veio a pé mesmo no Extra, que é pertinho, porque tem ar-condicionado. Vi uns DVDs que estavam passando nas tevês — um deles, com uma mulher horrorosa, um palito, com um coque ridículo, só a maquiagem salvava. Comprei meu caderno. E o povo fez uma vaquinha para comprar um potão de sorvete napolitano maravilhoso e umas colheres dessas de plástico. A gente saiu, fez uma roda e tomou o sorvete, que derreteu naquele sol. Ficou todo mundo meio lambuzado, com sorvete escorrendo até nos braços, mas eu adorei. Principalmente porque fiquei ao lado do Deco. Ai, maravilhoso.
Escolhi um caderno da Pucca porque ela tem uma coisa que parece comigo: quando está perto do menino que ela gosta, faz uma bobagem atrás da outra, tipo dar porrada nele. Putz, o Deco é perfeito, só o Kaká consegue ser mais perfeito. Mas ele só gosta de jumenta, tipo a menina que ele tá namorando agora. Nunca vi igual. Dois jumentos. Será que ele tem conserto?
Passei o resto do dia ontem me perguntando isso. Depois, anotei tudo num código que inventei para a minha mãe, a minha irmã mais nova e, principalmente, a anta da namorada do Deco, que estuda lá na sala, não ficarem sabendo. Foi um dia bom. Não precisei usar uniforme, nem esperar até a minha mãe ir embora do salão, peguei um bronze, nadei, tomei sorvete, comprei um diário e ainda olhei para o meu gatinho o tempo inteiro. Amanhã tem escola de novo. Não que eu me incomode com ela. Mas todos os dias poderiam ser assim, né não?
Conseguir a passagem para a Disney e o cabelão da Anahí é um pouco mais difícil. Minha mãe já pediu desculpas por não poder me mandar para lá neste ano, nem no ano que vem e, talvez, nem no ano que vem que vem. Mas eu sei que vou ter a vida inteira para ir. Minha vontade é de abraçar o Mickey até um enjoar da cara do outro. Até lá, sei que também vou ter quem faça meu cabelo todos os dias. A amiga da minha mãe lá do salão de beleza explicou que ninguém acorda como a Anahí, assim, perfeita. Haja baby liss. Não sei se contei que minha mãe é manicure aqui na Asa Norte. Minhas unhas estão garantidas pelo resto da vida. Ontem ela fez essas florzinhas aqui para mim, olha.
O desejo mais fácil de realizar foi o do diário. Ontem eu comprei esse daqui. Acordei cedo, peguei ônibus e fui com uma galera até a Água Mineral para nadar, pegar um sol — aliás, torrar no sol. Nossa, quente demais. Quando todo mundo começou a fritar, a gente veio a pé mesmo no Extra, que é pertinho, porque tem ar-condicionado. Vi uns DVDs que estavam passando nas tevês — um deles, com uma mulher horrorosa, um palito, com um coque ridículo, só a maquiagem salvava. Comprei meu caderno. E o povo fez uma vaquinha para comprar um potão de sorvete napolitano maravilhoso e umas colheres dessas de plástico. A gente saiu, fez uma roda e tomou o sorvete, que derreteu naquele sol. Ficou todo mundo meio lambuzado, com sorvete escorrendo até nos braços, mas eu adorei. Principalmente porque fiquei ao lado do Deco. Ai, maravilhoso.
Escolhi um caderno da Pucca porque ela tem uma coisa que parece comigo: quando está perto do menino que ela gosta, faz uma bobagem atrás da outra, tipo dar porrada nele. Putz, o Deco é perfeito, só o Kaká consegue ser mais perfeito. Mas ele só gosta de jumenta, tipo a menina que ele tá namorando agora. Nunca vi igual. Dois jumentos. Será que ele tem conserto?
Passei o resto do dia ontem me perguntando isso. Depois, anotei tudo num código que inventei para a minha mãe, a minha irmã mais nova e, principalmente, a anta da namorada do Deco, que estuda lá na sala, não ficarem sabendo. Foi um dia bom. Não precisei usar uniforme, nem esperar até a minha mãe ir embora do salão, peguei um bronze, nadei, tomei sorvete, comprei um diário e ainda olhei para o meu gatinho o tempo inteiro. Amanhã tem escola de novo. Não que eu me incomode com ela. Mas todos os dias poderiam ser assim, né não?
domingo, janeiro 11, 2009
Balada
Num bar da moda em Brasília, duas amigas nos seus 20 anos bebem espumante e acompanham a movimentação em uma mesa próxima. Especulam.
- Vai rolar pegação mais tarde naquela mesa ali. O número de meninos e meninas está igual.
- Verdade... Quatro caras, quatro meninas, todo mundo mais ou menos na mesma idade, todo mundo num grau de beleza parecido...
- Isso é muuuuito importante. Às vezes tem um feiote na roda que acaba com a matemática toda.
- Se ele não tiver uma super-lábia, é claro.
- Pra onde será que eles vão depois?
- Primeiro, vão para um postinho comprar cerveja. Depois, vão para a casa de um dos meninos. Os pais viajaram e tal e eles vão se pegar ali.
- Será que eles vão ficar pelados uns na frente dos outros?
- Ahn... Não. Acho que vão todos ficar com vergonhinha.
As duas riem.
Meia hora e mais uma flûte de espumante depois, reparam na novidade.
- Chegaram mais dois meninos. Ih... A conta não vai mais fechar.
- Pensa pelo lado positivo, ó: alguma delas vai poder ficar com dois caras.
- Sei não. Nenhuma das meninas me parece com cara de inteligente o suficiente para pensar nessa possibilidade.
- Acho que a gente devia ir lá para se apresentar.
- Vai, que eu não vou. Não gostei de nenhum dos dois.
- Tadinhos dos dois, vão passar a noite sozinhos.
- Vão passar a noite sozinhos enquanto os outros se pegam.
- Vão passar a noite sozinhos enquanto os outros se pegam, comendo Cheetos e conversando sobre Wii e Xbox.
- Vão passar a noite sozinhos enquanto os outros se pegam, comendo Cheetos, conversando sobre Wii e Xbox e pensando que não seria mau se eles começassem a se pegar também.
- Ewwwwww!!! Tô fora.
- Esse lugar é derrota. Vamos embora daqui. A fila do Arun vai estar melhor.
As duas andaram até a fila da boate. Lá dentro, dançaram, beberam, encontraram outras amigas, dançaram mais, acabaram com a escova e com a maquiagem. Mas não se enturmaram com nenhum gatinho. Resolveram picar a mula. Afinal, quem fica em boate até o fim da noite corre 100% a mais de risco de ser abordada por alguém nada interessante. Antes de voltarem para casa, no entanto, passaram num postinho para lanchar. E o papo não acaba nunca.
- Bia.
- Fale.
- Não sei se foi por causa da nossa conversa lá no bar, mas me deu uma vontade de comer um Cheetos...
- Vai rolar pegação mais tarde naquela mesa ali. O número de meninos e meninas está igual.
- Verdade... Quatro caras, quatro meninas, todo mundo mais ou menos na mesma idade, todo mundo num grau de beleza parecido...
- Isso é muuuuito importante. Às vezes tem um feiote na roda que acaba com a matemática toda.
- Se ele não tiver uma super-lábia, é claro.
- Pra onde será que eles vão depois?
- Primeiro, vão para um postinho comprar cerveja. Depois, vão para a casa de um dos meninos. Os pais viajaram e tal e eles vão se pegar ali.
- Será que eles vão ficar pelados uns na frente dos outros?
- Ahn... Não. Acho que vão todos ficar com vergonhinha.
As duas riem.
Meia hora e mais uma flûte de espumante depois, reparam na novidade.
- Chegaram mais dois meninos. Ih... A conta não vai mais fechar.
- Pensa pelo lado positivo, ó: alguma delas vai poder ficar com dois caras.
- Sei não. Nenhuma das meninas me parece com cara de inteligente o suficiente para pensar nessa possibilidade.
- Acho que a gente devia ir lá para se apresentar.
- Vai, que eu não vou. Não gostei de nenhum dos dois.
- Tadinhos dos dois, vão passar a noite sozinhos.
- Vão passar a noite sozinhos enquanto os outros se pegam.
- Vão passar a noite sozinhos enquanto os outros se pegam, comendo Cheetos e conversando sobre Wii e Xbox.
- Vão passar a noite sozinhos enquanto os outros se pegam, comendo Cheetos, conversando sobre Wii e Xbox e pensando que não seria mau se eles começassem a se pegar também.
- Ewwwwww!!! Tô fora.
- Esse lugar é derrota. Vamos embora daqui. A fila do Arun vai estar melhor.
As duas andaram até a fila da boate. Lá dentro, dançaram, beberam, encontraram outras amigas, dançaram mais, acabaram com a escova e com a maquiagem. Mas não se enturmaram com nenhum gatinho. Resolveram picar a mula. Afinal, quem fica em boate até o fim da noite corre 100% a mais de risco de ser abordada por alguém nada interessante. Antes de voltarem para casa, no entanto, passaram num postinho para lanchar. E o papo não acaba nunca.
- Bia.
- Fale.
- Não sei se foi por causa da nossa conversa lá no bar, mas me deu uma vontade de comer um Cheetos...
Dois blogs
O blog Branquela d'Angola tem título auto-explicativo: apresenta histórias de uma moça de passagem por aquele país africano. Ainda preciso ler mais, mas já gostei do que vi.
Nesse mesmo blog, descobri o quadrinista argentino Liniers, que trabalha muuuuito bem. Lá você se diverte com as histórias de Oliverio, Madariaga e a melhor personagem de todos... Olga.
Obs.: tirei da lista alguns blogs/fotologs que estavam sem atualização há mais de seis meses. Se alguém voltar à atividade, me avise, que eu ponho o link de volta com o maior prazer.
Nesse mesmo blog, descobri o quadrinista argentino Liniers, que trabalha muuuuito bem. Lá você se diverte com as histórias de Oliverio, Madariaga e a melhor personagem de todos... Olga.
Obs.: tirei da lista alguns blogs/fotologs que estavam sem atualização há mais de seis meses. Se alguém voltar à atividade, me avise, que eu ponho o link de volta com o maior prazer.
sábado, janeiro 10, 2009
Perseguindo a lua cheia
Quando ela começou a nascer lá na linha do horizonte, não tinha como eu pegar a máquina. Mas fiz isso assim que pude. Fui encontrá-la na janela.
Mais tarde, vi que ela tinha se duplicado. Um fenômeno raro (hehe).
Depois, fechei a janela. Os bichos voadores adoram entrar por estas frestas quando a noite chega.
Música boa
O pianista franco-italiano Aldo Ciccolini toca a Gymnopédie número 1, de Erik Satie (1886-1925).
http://www.youtube.com/watch?v=Lvqoqjwfv-c
Não consegui incorporar o vídeo do Youtube ao blog porque a dona dos direitos do vídeo não deixa ninguém fazê-lo. Mas recomendo clicar no link e ouvir. Me faz pensar sobre o que era ser moderno no fim do século 19.
Bom fim de semana a todos! :-)
http://www.youtube.com/watch?v=Lvqoqjwfv-c
Não consegui incorporar o vídeo do Youtube ao blog porque a dona dos direitos do vídeo não deixa ninguém fazê-lo. Mas recomendo clicar no link e ouvir. Me faz pensar sobre o que era ser moderno no fim do século 19.
Bom fim de semana a todos! :-)
sexta-feira, janeiro 09, 2009
História de viagem número 3
A gente acha que vai viajar e mergulhar pura e exclusivamente na culinária local. Tipo assim: vou a Lisboa devorar bacalhau, sardinha e todos os doces de ovos e açúcar fabricados na face da terra. Aí, eu cheguei lá e vi que não fazia mal nenhum desencanar dessa ideia original. Claro que não deixei nem peixes nem docinhos lusitanos de lado. Só que tampouco resisti a experimentar outras coisas que jamais encontraria aqui no quadradinho.
O melhor foi poder me afogar em comida asiática roots, farta, bem-feita e com preços bem em conta (obs.: eu sei que temos o Naan aqui em Brasília, mas ele não é exatamente barato, principalmente levando-se em conta que os pratos são para uma pessoa). Vou deixar aqui duas dicas para quem estiver planejando viajar para lá.
O restaurante tibetano Everest Montanha da Calçada do Garcia, perto do Rossio (à direita de quem olha o Teatro D. Maria desde a praça principal), é só uma portinha. Mas despertou a curiosidade do maridão e a minha logo no primeiro dia de viagem. E não nos arrependemos quando resolvemos ver como era. Não lembro o que pedimos, mas tudo veio superbom, com vários vegetais e temperos muito equilbrados. O lugar é desses que oferecem a possibilidade de pedir a comida mais ou menos apimentada (acho que a gradação é de 1 a 5). E não sei se é a prática habitual do lugar, mas ganhamos vários brindes fofos (tipo bolinhos feitos na hora) enquanto esperávamos pelo prato. Para beber, cerveja indiana Cobra, que é levinha e dá uma aliviada no gosto de pimenta. Desnecessário dizer que, depois de tudo, saímos rolando ladeira abaixo. E olha que nem provamos as sobremesas.
O outro lugar me chamou a atenção depois que li sobre ele na Veja feita sobre a capital portuguesa: é o restaurante Cantinho da Paz. Oferece comida de Goa -- o que faz o maior sentido experimentar quando se está em Lisboa, já que os portugueses colonizaram aquela região indiana durante séculos. Lembro que todos os pratos vêm num tamanho bom para duas pessoas e que pedimos naan e uma espécie de feijoada goesa incrível, embora super-mega-apimentada-plus. Bom, mas é para acompanhar esse tipo de prato que existe cerveja Cobra.
EVEREST MONTANHA
Calçada do Garcia, nº 15 (ao Rossio - perto do Teatro D. Maria). Telefone: 21 887 64 28. A Time Out publicou também uma crítica: leia aqui.
CANTINHO DA PAZ
Rua da Paz, 4, à Rua dos Poiais de S. Bento. Telefone: 21 390 1963. Fica no bairro de Santos. Mapinha da região aqui.
quinta-feira, janeiro 08, 2009
Dois
Achei-os praticamente na porta de casa, na pista de entrada do bloco. Ambos cabiam em minhas mãos, que estão longe de ser grandes. Tão frágeis. Podiam ter sido brutalmente atropelados, chutados por uma criança sem-noção ou incomodados pelo focinho de um cão curioso. E, ao mesmo tempo, tão fortes. Resistiram à chuva, aos insetos do jardim próximo e à dureza do asfalto sem perder o que tinham de mais belo: as formas arredondadas, perfeitas; e a pele brilhante, suave, sem uma mancha. Desliguei o carro e fui correndo loucamente no chão liso para salvá-los. Quase fui atropelada também.
Na subida do elevador, ainda pensei: levo-os para a casa de mamãe? Lá, existe mais espaço, mais infra-estrutura. E há a mamãe, que tem uma mão boa para cuidar de seres delicados. Mas, como acordei num dia doido, decidi cuidar dos dois sozinha. Na falta de um lugar melhor, coloquei-os numa cesta linda enorme, de capim dourado, que ganhei de uma amiga no Natal de 2007. Ao que parece, ninguém achou ruim. Nem meu amor, que foi contemplar os bebezinhos quando chegou em casa do trabalho.
Ninguém me ensinou, mas logo vi que a evolução dos meus dois frágeis dependia de um bocado de observação. Do sol e do calor nas horas certas. De alguns toques. De nenhuma pressa. E de zero julgamento: eu fazia idéia de que talvez eles não crescessem como os demais, mas isso não os tornava menos adoráveis. Deliciava-me à medida que ganhavam cor e viço. Os dias passavam.
Num deles, não havia dormido quase nada. Alguém pode pensar: é normal, acontece. Mas acordei com o despertador do celular berrando, quase tão siderada quanto naquela tarde em que saí correndo no asfalto liso de chuva. Lavei os olhos, escovei os dentes e me perguntei o que era aquilo na minha cesta enorme, linda e chiquérrima de capim dourado fair trade. Ah, meu Deus. São aqueles dois.
Tirei-os do berço improvisado e fui direto para a cozinha. Não podiam falar – se pudessem, talvez implorariam para que não fizesse o que fiz. Peguei a primeira faca que achei (uma de serrinha, com cabo azul-escuro) e dividi ao meio a maciez de suas carnes. Dei adeus às peles cheias de cor. E, com os dedos já em contato com seu interior oleoso, arranquei a única parte incapaz de ser processada pelas minhas vísceras. Foi direto para o lixo. O resto conheceu em segundos as lâminas do liquidificador. Dividiu-se grotescamente, espirrando sua substância verde nas paredes da máquina.
Pobres abacatinhos. Encontrei-os ainda bebês na pista de entrada do bloco. Amadureceram. Tiveram seu destino. E o pior é que eu gostei.
Na subida do elevador, ainda pensei: levo-os para a casa de mamãe? Lá, existe mais espaço, mais infra-estrutura. E há a mamãe, que tem uma mão boa para cuidar de seres delicados. Mas, como acordei num dia doido, decidi cuidar dos dois sozinha. Na falta de um lugar melhor, coloquei-os numa cesta linda enorme, de capim dourado, que ganhei de uma amiga no Natal de 2007. Ao que parece, ninguém achou ruim. Nem meu amor, que foi contemplar os bebezinhos quando chegou em casa do trabalho.
Ninguém me ensinou, mas logo vi que a evolução dos meus dois frágeis dependia de um bocado de observação. Do sol e do calor nas horas certas. De alguns toques. De nenhuma pressa. E de zero julgamento: eu fazia idéia de que talvez eles não crescessem como os demais, mas isso não os tornava menos adoráveis. Deliciava-me à medida que ganhavam cor e viço. Os dias passavam.
Num deles, não havia dormido quase nada. Alguém pode pensar: é normal, acontece. Mas acordei com o despertador do celular berrando, quase tão siderada quanto naquela tarde em que saí correndo no asfalto liso de chuva. Lavei os olhos, escovei os dentes e me perguntei o que era aquilo na minha cesta enorme, linda e chiquérrima de capim dourado fair trade. Ah, meu Deus. São aqueles dois.
Tirei-os do berço improvisado e fui direto para a cozinha. Não podiam falar – se pudessem, talvez implorariam para que não fizesse o que fiz. Peguei a primeira faca que achei (uma de serrinha, com cabo azul-escuro) e dividi ao meio a maciez de suas carnes. Dei adeus às peles cheias de cor. E, com os dedos já em contato com seu interior oleoso, arranquei a única parte incapaz de ser processada pelas minhas vísceras. Foi direto para o lixo. O resto conheceu em segundos as lâminas do liquidificador. Dividiu-se grotescamente, espirrando sua substância verde nas paredes da máquina.
Pobres abacatinhos. Encontrei-os ainda bebês na pista de entrada do bloco. Amadureceram. Tiveram seu destino. E o pior é que eu gostei.
quarta-feira, janeiro 07, 2009
Diário da África
Diário da África é um blog bom, muito bom, bom pra caramba, assinado pelo A., que é praticamente um Ryszard Kapuściński (essa quase não sai) dos trópicos. Há histórias sobre a vida em Angola, a guerra civil na República Democrática do Congo e, mais recentemente, sobre a Namíbia (cuja capital, segundo o Lula, nem parece a África).
Eu já tinha colocado o blog na minha lista aí da direita, mas dar aquela anunciada básica sempre vale a pena. ;-)
Eu já tinha colocado o blog na minha lista aí da direita, mas dar aquela anunciada básica sempre vale a pena. ;-)
terça-feira, janeiro 06, 2009
Fado de jeans e blusinha
Eu tanto li sobre a fadista Carmo Rebelo de Andrade antes de ir a Lisboa que, quando vi uma notinha sobre uma apresentação marcada naquele dia (uma quarta-feira) no restaurante Mesa de Frades, nem tive dúvidas: decidi que aquele seria o meu programa daquela noite. Peguei o maridão pela mão e fui para a Alfama, o bairro mais conhecido pelas casas de fado. O lugar era pequenino, uma graça, e cobrava couvert artístico dentro da média dos bares da região (normalmente, entre 15 e 20 euros; é meio caro para nós, brazucas, mas eu prefiro gastar nisso a comprar souvenirs bobos, por exemplo). Minha pergunta era só a seguinte: sendo chiquito daquele jeito, onde o Mesa ia acomodar a cantora e o grupo instrumental que ia dividir a apresentação com ela?
A gente demorou um pouco a saber a resposta. Deu o horário marcado para a apresentação, 22h. Passaram-se um, dois, cinco, 10, 15, 20, 25 minutos, e nada do negócio começar. Meia hora depois, as portas do lugar foram fechadas e a artista saiu do fundo do restaurante — onde estava com uma galera — para cantar sem microfone em meio às mesas. Nada de coque nem do xale tradicional das fadistas das outras casas. Carminho, como é mais conhecida, chegou de cabelos soltos, calça jeans e blusinha branca. Ela me conquistou mais ou menos pelo mesmo motivo pelo qual acho que vem encantando os que prestam atenção nesse gênero musical. Apesar de nova pra caramba (tem 23 anos, acho), canta intensamente um repertório com letras que falam em paixões dramáticas, abandonos idem e muuuuuuitas lágrimas. É algo que não combina muito com essa nossa geração de afetos cada vez mais fugazes. E, ao mesmo tempo, um descompasso muito legal. :-)
Não sei se o show era meio que para amigos dos músicos (apesar de estar anunciado em jornais, revistas e tal), porque o clima de brodagem era forte. E não necessariamente isso é uma coisa boa. A fadista cantou umas três músicas, voltou para o fundo do restaurante para ficar com a galera e, aí, começou a tocar o grupo instrumental também anunciado para a noite. Desculpem, esqueci o nome. A banda tocou, tocou, tocou e nada da menina voltar. E, quando voltou, apresentou mais umas três composições e não saiu mais da mesa dos brothers! A idéia de pagar 20 euros de couvert por um show assim começou a me dar comichão.
Os instrumentistas encerraram o show. Seria injusta se não dissesse que eles também foram muito bons — mas, pelo que entendi, a atração principal era a cantora.
Acabou a apresentação, aplaudimos, terminamos o vinho (também não me lembro o nome), etc. Chega a hora de pedir a factura. :-) Abrimos a carteirinha de couro cheiroso lentamente, como que para adiar o momento de pagar por aquela mistura de momentos legais com roubadas. Ai, caceta. 20 euros por cabeça.
E… surpresa! Não sei se alguém leu o meu pensamento, se o lugar é uma bagunça, se fomos automaticamente incorporados à ação brodagem de Carminho ou o quê, mas o facto (ops, fato, hehe) é que só foi cobrado o vinho. O melhor é que nem foram muitos euros. Yes!
Deu até para me apaixonar de novo pelo Mesa, pela Carmo e pelo fado.
MESA DE FRADES
Rua dos Remédios, 139-A, Alfama. Reservas: 91-702-94-36. Como o site do lugar ainda é meio capenga (só tem endereço e telefone), recomendo conferir na Time Out Lisboa se Carminho & cia. ainda cantam por lá às segundas e quartas-feiras.
CARMINHO
Esta fã de música brasileira ainda não tem nenhum disco gravado. Mas há um monte de vídeos no YouTube para quem quiser conhecê-la melhor.
Sleepless in Lisbon
- Mari, você não vai acreditar. Um cara acabou de me oferecer haxixe – meu amor veio depressa me contar, os olhos verdes arregalados, emoldurados por lindas olheiras de quem passou a noite em claro.
- O quê? Como assim, haxixe? – respondi.
- Ele chegou do meu lado e disse: “Olá, quer haxixe?”. Eu respondi: “Não, obrigado”. E agora estou aqui para te contar.
- Caraca, isso é absolutamente surreal. É domingo, são nove da manhã, está chovendo e frio pra cacete. Tem quantas pessoas nessa praça? Umas 10?
Putz, o cara é um obstinado. Deve ter lido aquele livro O Gerente de Vendas Pit-bull -- ou qualquer um desses que ensinam que toda hora é hora, todo lugar é lugar para quem quer vender seu produto. Só assim para achar que um sorridente turista na Praça do Comércio, em Lisboa, é um consumidor em potencial do seu inocente fuminho. E que aquele turista é mala o suficiente para comprar um podruto (sic) nas barbas da polícia enquanto a namorada admira o elefante que adorna a estátua de D. José I.
- O quê? Como assim, haxixe? – respondi.
- Ele chegou do meu lado e disse: “Olá, quer haxixe?”. Eu respondi: “Não, obrigado”. E agora estou aqui para te contar.
- Caraca, isso é absolutamente surreal. É domingo, são nove da manhã, está chovendo e frio pra cacete. Tem quantas pessoas nessa praça? Umas 10?
Putz, o cara é um obstinado. Deve ter lido aquele livro O Gerente de Vendas Pit-bull -- ou qualquer um desses que ensinam que toda hora é hora, todo lugar é lugar para quem quer vender seu produto. Só assim para achar que um sorridente turista na Praça do Comércio, em Lisboa, é um consumidor em potencial do seu inocente fuminho. E que aquele turista é mala o suficiente para comprar um podruto (sic) nas barbas da polícia enquanto a namorada admira o elefante que adorna a estátua de D. José I.
Devo confessar que nosso primeiro contato com a população local foi engraçado, mas não da maneira que eu esperava. A gente acha que vai chegar do outro lado do Atlântico e se divertir imediatamente com o que eu chamo de a literalidade dos portugueses (que os brasileiros traduzem em incontáveis anedotas). O que me divertiu nessa cidade foram outras coisas. Pequenas coisas. O vocabulário. O visual de certas placas. A começar por uma que eu vi na própria Praça do Comércio. Entendi que é um lugar para comer, mas não tive coragem de ir lá perguntar o que afinal são “farturas e porras” porque imaginei que todos os brasileiros que vão ao Terreiro do Paço (outra denominação para a Praça do Comércio) devem fazer isso. O dono deve odiar.
A Praça do Comércio recebe, até março de 2009, uma feirinha livre sobre a qual eu já tinha lido na Time Out – e que, para ser honesta, me pareceu bem fraquinha (teria sido a manhã de domingo com chuva?). Também abriga um dos restaurantes mais antigos da cidade, o Martinho da Arcada (não fui, não sei se é bom). E ainda é o ponto de partida de um bondinho vermelho fake que leva os turistas a um monte de lugares.
O pior é que eu e meu amor não queríamos ir a lugar nenhum.
Tinha viajado a noite inteira de Brasília a Lisboa. Saí daqui umas 17h30 e cheguei por volta das 6h30 – o que, para o nosso corpitcho de brasileiro, deve ser interpretado como 1h30. Vi um filme, vi dois filmes, li e, dormir que é bom, nada. No máximo, uma horinha e meia. E olha que eu durmo em avião que é uma beleza. Deve ter sido a empolgação de ir tão longe.
Chegamos, passamos pela imigração (fila quilométrica e sem alternativa), compramos Lisboa Card (vale a pena), pegamos o busão e fomos pro hotel. A idéia era tomar um banho e fechar o olho só um pouquinho antes de tomar um café e ir bater perna na rua. Mas o quarto só ia ficar pronto lá pelas 14h. Fer-rou. Fomos tomar um espresso na rua. Na dúvida entre o café muvucado e o calminho, ficamos com o segundo, que é bem OK. O primeiro deles oferecia biscoitinhos incríveis chamados de língua de veado feitos na hora, mas... era muvucado. E quem tem sono tem pressa. Quer cafeína logo, sem ter de enfrentar uma horda de compradores de coisas de padaria.
No mais, o primeiro dia em terras lusas foi... normal. Ofereceram haxixe na Praça do Comércio, um pouco depois a gente vazou dali, andou até o Cais do Sodré, pegou o bonde para a Torre de Belém e fez tudo aquilo que a turistada faz num domingo. Vai à Torre, olha o Mosteiro dos Jerônimos (a visitação dos dois é grátis aos domingos), dá risada com a fila dos Pastéis de Belém, come bacalhau, essas coisas.
Desnecessário dizer que fiquei muito feliz quando vi que, depois de fazer todas essas coisas, o tempo passou rápido e dava para tentar voltar ao hotel. Já passava das 14h.
Pegamos um quarto de fundo, excelente, sem barulho nenhum da rua ou de qualquer outro lugar.
Não lembro qual foi o meu último pensamento entre o momento de tirar a lente de contato e desmaiar.
segunda-feira, janeiro 05, 2009
Manual prático de baladas e afins
Trabalhar em um suplemento cultural há quase três anos me permitiu saber algo mais do que “a boa do fim de semana” (aliás, odeio essa expressão): fez-me conhecer a incrível classe dos divulgadores de baladas e sua relação com o texto escrito, que é um mundo completamente à parte.
Façam o teste: sentem-se à mesa do Beirute ou qualquer bar com muita gente, onde vocês certamente receberão uns 37 panfletos (ops, vamos usar flyers, que é uma palavra muito mais fina) de festas, shows e afins. E leiam com carinho o que está escrito. Não é sempre que eu faço isso – ainda assim, já encontrei pérolas como as que compartilho abaixo...
Mulher liberada / Mulher grátis
Uepa, uepa! Se encontrar essa informação numa filipeta (putz, esqueci! É flyer), não fique assim, animadinho, achando que chegará à festa e encontrará hordas de mulheres saindo de uma gaiola (tipo Gaiola das Popozudas) cheias de amor para dar... de graça. Eu quase estrebuchei quando vi essas palavras unidas dessa forma. Na verdade, o divulgador quer dizer que mulheres têm entrada franca (normalmente, até determinado horário).
Mulher vip
Sim, todos nós sabemos que as mulheres são pessoas muito importantes – portanto, vip. Mas essa informação, quando escrita num panfleto de festa, significa um pouco mais (quer dizer, dita assim, não significa nada). Na verdade, é mais ou menos o mesmo de “mulher liberada”: quer dizer que os seres com cromossomos XX têm entrada grátis no dito evento.
R$ XX (meia mulher)
Você conhece alguma maneira mais bizarra do que essa de dizer que mulher tem meia-entrada no festerê? Eu, não.
Open food
Caros, essa é a pior. Depois de a expressão open bar ganhar o mundo, algum ixxxpertu achou que poderia aplicar a mesma lógica de divulgação às festas em que o ingresso dá direito ao rango. E a praga pegou, pelo menos aqui em Brasília – talvez porque esse negócio de dizer que haverá “comida à vontade” seja coisa de pobre... :-O
(Se alguém lembrar de mais algum lance desses, pode deixar um comentário).
Façam o teste: sentem-se à mesa do Beirute ou qualquer bar com muita gente, onde vocês certamente receberão uns 37 panfletos (ops, vamos usar flyers, que é uma palavra muito mais fina) de festas, shows e afins. E leiam com carinho o que está escrito. Não é sempre que eu faço isso – ainda assim, já encontrei pérolas como as que compartilho abaixo...
Mulher liberada / Mulher grátis
Uepa, uepa! Se encontrar essa informação numa filipeta (putz, esqueci! É flyer), não fique assim, animadinho, achando que chegará à festa e encontrará hordas de mulheres saindo de uma gaiola (tipo Gaiola das Popozudas) cheias de amor para dar... de graça. Eu quase estrebuchei quando vi essas palavras unidas dessa forma. Na verdade, o divulgador quer dizer que mulheres têm entrada franca (normalmente, até determinado horário).
Mulher vip
Sim, todos nós sabemos que as mulheres são pessoas muito importantes – portanto, vip. Mas essa informação, quando escrita num panfleto de festa, significa um pouco mais (quer dizer, dita assim, não significa nada). Na verdade, é mais ou menos o mesmo de “mulher liberada”: quer dizer que os seres com cromossomos XX têm entrada grátis no dito evento.
R$ XX (meia mulher)
Você conhece alguma maneira mais bizarra do que essa de dizer que mulher tem meia-entrada no festerê? Eu, não.
Open food
Caros, essa é a pior. Depois de a expressão open bar ganhar o mundo, algum ixxxpertu achou que poderia aplicar a mesma lógica de divulgação às festas em que o ingresso dá direito ao rango. E a praga pegou, pelo menos aqui em Brasília – talvez porque esse negócio de dizer que haverá “comida à vontade” seja coisa de pobre... :-O
(Se alguém lembrar de mais algum lance desses, pode deixar um comentário).
domingo, janeiro 04, 2009
Frase do dia
"C#%&*@&*!!!!! Nem para fazer papel de ninfeta direito ela serve!"
Ouvida na saída do cinema da Academia de Tênis, hoje à noite. A mocinha de boca suja em questão poderia estar falando de um universo de atrizes -- mas gosto de pensar que ela está comentando a atuação de Penélope Cruz em Fatal.
Ouvida na saída do cinema da Academia de Tênis, hoje à noite. A mocinha de boca suja em questão poderia estar falando de um universo de atrizes -- mas gosto de pensar que ela está comentando a atuação de Penélope Cruz em Fatal.
sexta-feira, janeiro 02, 2009
Kaput
Dora, minha faxineira, é uma moça morena, baixa e magrinha. E de modos algo reservados. Por esse motivo, soube que algo estava estranho quando, nas primeiras semanas de casa nova, abri a porta e ela me recebeu com um sorrisão:
- Que bom que você chegou!
Eu sorri de volta, mas a vontade era mesmo de levantar uma sobrancelha (ah, se eu conseguisse...).
- Está tudo bem? – perguntei.
- Na verdade, mais ou menos. Tem um morcego no seu escritório – ela devolveu.
Ai, meu Deus. Horror. Pânico. Desmaiar ali não era uma alternativa válida. Comecei a me perguntar: que tamanho teria o bicho? Ele estaria pendurado em uma das lâmpadas, como um vampiro de filme?
E levantei o principal questionamento de todos: por que esse tipo de coisa só acontece quando o homem da casa está a quilômetros de distância? Preciso dizer que, nesse dia e em vários outros, só recebi a visita de besouros cascudos, cigarras geneticamente modificadas e de uma única barata voadora quando meu amor estava longe (acabei com quase todos eles). Deve ser uma pegadinha do mundo animal.
Respirei fundo uma vez. Duas. Três. Decidi que ainda não estava preparada para fazer a caçadora de vampiros. Não dizem que os homens têm quatro milhões de neurônios, ou 30% de conexões a mais? É para isso que elas servem, pois: caçar baratas, besouros, cigarras e morcegos. Corri para o interfone. Preciso. De. Um. Homem. Agora.
- Oi, bom dia. É o seguinte: um morcego entrou aqui em casa e sujou o escritório inteiro. Você pode mandar alguém aqui para me ajudar a tirá-lo? – pedi ao porteiro. E, juro, a parte do cocô era de verdade. Não satisfeito em entrar, o bicho fez caquinha no chão do escritório.
- Claro. Já mando um funcionário aí – respondeu o moço da guarita.
Ele chegou dois minutos depois. Um pouco maior do que eu, forte, de poucas palavras e com jeito de quem acha esse negócio de animais nojentos e voadores uma pouca bobagem. Droga, não me lembro do nome do cara.
- Onde ele está?
- No escritório.
Abri a porta e varri o ambiente com os olhos para saber onde o bicho teria se escondido. Não estava pendurado em lugar nenhum. Finalmente achei:
- Ele está deitado no meio da fiação do computador – revelei. Fui depressa buscar luvas e um saco de lixo para o funcionário do bloco recolher o bat-mala.
O homem se agachou. Afastou a fiação com uma mão e, com a outra, agarrou o morcego. Nesse momento, quase pensei em desistir de tudo. Quase ignorei a caquinha espalhada pelo chão de cerâmica branca e deixei-o completar seu sono.
O bicho esticou o pescoço e contraiu os músculos da face para fazer uma cara de sofrimento praticamente humana. Ele entreabriu os olhos e, com dificuldade, murmurou algo em alemão. Não entendi nada. Mein deutsch ist kaput.
- Ponho ele de volta? – quis saber o funcionário, diante da bizarra tentativa de comunicação.
- Não, pode levar embora – sentenciei.
Agradeci ao moço e corri à comercial. Precisava providenciar trajes espaciais, revestidos com chumbo, para que Dora pudesse limpar aquela caca toda sem nenhum risco de contaminação.
Será sempre um mistério o que aquele morcego tentou me dizer naquela manhã luminosa de abril.
================================================================
Não sei se o blog vai voltar. Não sei se terei inspiração para tocar um blog como fazia antes. O que importa é que acordei hoje com a veia e resolvi escrever. Fica o registro. Beijos.
- Que bom que você chegou!
Eu sorri de volta, mas a vontade era mesmo de levantar uma sobrancelha (ah, se eu conseguisse...).
- Está tudo bem? – perguntei.
- Na verdade, mais ou menos. Tem um morcego no seu escritório – ela devolveu.
Ai, meu Deus. Horror. Pânico. Desmaiar ali não era uma alternativa válida. Comecei a me perguntar: que tamanho teria o bicho? Ele estaria pendurado em uma das lâmpadas, como um vampiro de filme?
E levantei o principal questionamento de todos: por que esse tipo de coisa só acontece quando o homem da casa está a quilômetros de distância? Preciso dizer que, nesse dia e em vários outros, só recebi a visita de besouros cascudos, cigarras geneticamente modificadas e de uma única barata voadora quando meu amor estava longe (acabei com quase todos eles). Deve ser uma pegadinha do mundo animal.
Respirei fundo uma vez. Duas. Três. Decidi que ainda não estava preparada para fazer a caçadora de vampiros. Não dizem que os homens têm quatro milhões de neurônios, ou 30% de conexões a mais? É para isso que elas servem, pois: caçar baratas, besouros, cigarras e morcegos. Corri para o interfone. Preciso. De. Um. Homem. Agora.
- Oi, bom dia. É o seguinte: um morcego entrou aqui em casa e sujou o escritório inteiro. Você pode mandar alguém aqui para me ajudar a tirá-lo? – pedi ao porteiro. E, juro, a parte do cocô era de verdade. Não satisfeito em entrar, o bicho fez caquinha no chão do escritório.
- Claro. Já mando um funcionário aí – respondeu o moço da guarita.
Ele chegou dois minutos depois. Um pouco maior do que eu, forte, de poucas palavras e com jeito de quem acha esse negócio de animais nojentos e voadores uma pouca bobagem. Droga, não me lembro do nome do cara.
- Onde ele está?
- No escritório.
Abri a porta e varri o ambiente com os olhos para saber onde o bicho teria se escondido. Não estava pendurado em lugar nenhum. Finalmente achei:
- Ele está deitado no meio da fiação do computador – revelei. Fui depressa buscar luvas e um saco de lixo para o funcionário do bloco recolher o bat-mala.
O homem se agachou. Afastou a fiação com uma mão e, com a outra, agarrou o morcego. Nesse momento, quase pensei em desistir de tudo. Quase ignorei a caquinha espalhada pelo chão de cerâmica branca e deixei-o completar seu sono.
O bicho esticou o pescoço e contraiu os músculos da face para fazer uma cara de sofrimento praticamente humana. Ele entreabriu os olhos e, com dificuldade, murmurou algo em alemão. Não entendi nada. Mein deutsch ist kaput.
- Ponho ele de volta? – quis saber o funcionário, diante da bizarra tentativa de comunicação.
- Não, pode levar embora – sentenciei.
Agradeci ao moço e corri à comercial. Precisava providenciar trajes espaciais, revestidos com chumbo, para que Dora pudesse limpar aquela caca toda sem nenhum risco de contaminação.
Será sempre um mistério o que aquele morcego tentou me dizer naquela manhã luminosa de abril.
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Não sei se o blog vai voltar. Não sei se terei inspiração para tocar um blog como fazia antes. O que importa é que acordei hoje com a veia e resolvi escrever. Fica o registro. Beijos.
quinta-feira, abril 24, 2008
Marcha a ré
Teste de post para eu mostrar à Liana como funciona um blog:
Deu marcha a ré a intenção de Eduardo Maya de realizar este ano, em Brasília, o Comida di Buteco, evento que no momento agita Belo Horizonte (o término, chamado Saideira, está previsto para 18 de maio). Uma das razões do adiamento do festival nesta cidade é a realização de outro similar, o Boteco Bohemia, no mês de maio, numa iniciativa da Ambev. Já o Comida di Buteco tem um espectro bem maior, porque seu objetivo é resgatar a culinária típica de raiz, além de vender cerveja.
Deu marcha a ré a intenção de Eduardo Maya de realizar este ano, em Brasília, o Comida di Buteco, evento que no momento agita Belo Horizonte (o término, chamado Saideira, está previsto para 18 de maio). Uma das razões do adiamento do festival nesta cidade é a realização de outro similar, o Boteco Bohemia, no mês de maio, numa iniciativa da Ambev. Já o Comida di Buteco tem um espectro bem maior, porque seu objetivo é resgatar a culinária típica de raiz, além de vender cerveja.
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