sábado, janeiro 29, 2011
Edifício Yacoubian
Para esse filme ser imperdível, nem precisaria que o Egito estivesse no atual estado de confronto entre a população e o governo. Agora, então, é que não dá para deixar de ver. Está na minha lista.
quarta-feira, dezembro 22, 2010
Larguem a guria de mão
Que dirá, então, ser tímida, paranormal e de berço ultrarreligioso... em qualquer época. Se Carrie White fosse real e contemporânea, sua vida não se tornaria muito mais fácil do que em outros tempos.
(Obs.: antecipar esse detalhe não estraga a emoção do filme; vocês vão ter que assistir para saber qual é a do baile, que raio de corda é esse e o que ele desencadeia).
No momento em que a língua de Hargensen é enquadrada lentamente em close, eu, que já não gosto de conversar com os filmes, explodi.
- Bitch! Que parte você não entendeu de "Não é para mexer com a Carrie"? Larga a guria de mão, #$%^&*(*.
Naturalmente, a vaca não me obedece.
Antes do tal baile, chega a ser comovente o jeito como a protagonista tenta deixar de lado seu jeito de patinho feio, apesar da resistência que encontra por parte da mãe. Esse confronto dá origem a um dos diálogos mais legais do filme (os outros vocês veem aqui):
Margaret White: [referindo-se ao vestido de formatura da filha] Vermelho. Eu deveria saber que ele era vermelho.
Carrie: É rosa, mãe.
(...)
Margaret White: Dá para ver daqui as suas tetas imundas.
Carrie: Seios, mãe. Eles se chamam seios, e toda mulher os têm.
Mas criaturas assim parecem não ter direito nem sequer à auto-aceitação. Pelo menos não nos filmes e nos livros (o roteiro, que não deixa ponto sem nó, foi baseado numa obra de Stephen King) sobre as high schools e sua bizarra divisão entre populares e perdedores.
Seria a história de Carrie algum tipo de alegoria para uma questão maior, como a da libertação da mulher ou da revolução de costumes nos Estados Unidos? Por motivos que talvez dariam um blog (e não só um post pequeno), fiquei viajando nisso. Mas só pode responder quem viu o filme na época do lançamento.
Se tiver alguém com esse perfil lendo o blog agora, fique livre para comentar.
(E quem não tiver pode escrever também...)
terça-feira, agosto 17, 2010
Ali, boma ye!
A frase que abre este post não é, assim, um libelo ao amor e ao carinho: quer dizer "Ali, mate-o!".
Ela é pronunciada um milhão de vezes por
Se eu contar a história inteira, vai render um texto grande a ponto de afugentar todo mundo. Melhor dizer do quanto dei risada com Ali. Ele é tão marrento, mas TÃO marrento, que se torna extremamente engraçado.
O vídeo acima é longuíssimo, eu sei, mas pelo menos é bem melhor do que o trailer (chatésimo). Vale a pena tirar uns minutinhos para vê-lo e depois querer devorar o filme todo.
sexta-feira, julho 23, 2010
Momento de Decisão
Mas todo mundo sabe que essas promessas de cinco minutinhos são as mais fajutas, né? É, eu também sei.
Comecei a ver um filme na tevê e ele era tão bom que só fui dormir duas horas depois.
A razão da minha insônia forçada se chama Momento de Decisão, ou The Turning Point, de 1977, vulgo tempo da mamãe mocinha.
Vamos desconsiderar a cafonalha que é esse trailer, pois naquele tempo eles eram simplesmente diferentes. Importante mesmo é a história, que lida com uma pedreira de sentimentos.
Em síntese, é a história de duas mulheres (interpretadas por Shirley MacLaine e Anne Bancroft) que, na maturidade, reavaliam os caminhos que tomaram na vida.
A primeira delas larga a carreira de bailarina quando engravida. E, anos depois, passa a ver a filha adolescente tornar-se o que a mãe nunca conseguiu ser. A outra consagrou-se profissionalmente, mas às custas da vida pessoal.
Simplesmente não há nada mais que elas possam fazer na vida. Nenhuma correção de rota é possível nas trajetórias das duas. E daí surge a tal paulada emocional. Vou falar de arrependimento e inveja só para ficar em sentimentos bem básicos.
O resto se desdobra ao longo do roteiro e por meio da atuação da dupla, que é incrível e deixa o coração apertado mesmo.
Não bastasse ter uma história complexa, Momento de Decisão tem cenas lindas de aula de balé, espetáculo de balé, ensaio de balé e o que mais você quiser ver relacionado à dança.
E tem o Mikhail Baryshnikov (tive de dar ctrl+c ctrl+v no nome dele) quase adolescente dando uns pulos incríveis! Recomendo demais.
Confesso que não entendi bem a indicação que ele recebeu ao Oscar de ator coadjuvante, porque o bailarino basicamente atua como ele mesmo e quase não fala. Mas... cada um com seus critérios. Não foi a primeira nem a última vez que a Academia fez umas manobras estranhas.
Não sei se o filme vai ser reprisado (deve ser), mas há de ser fácil encontrá-lo em DVD.
Basta procurar na prateleira de preciosidades antiguinhas.
segunda-feira, julho 19, 2010
C'est le nord
O prof de francês me falou algumas vezes do filme Bienvenue Chez les Ch'tis, traduzido no Brasil como A Riviera não é Aqui. Disse, entre outras coisas, que era ótimo, engraçado e campeão de bilheteria na França.
Fui assistir no fim de semana e comprovei: é bom mesmo!
Em resumo, é a história de um funcionário dos Correios que, para agradar à mulher, tenta ser transferido para a Riviera Francesa, no sul. Mas a única coisa que ele consegue é uma vaga em Bergues, no outro extremo do mapa.
O norte é retratado como uma espécie de inferno na Terra: gelado e cheio de gente estranha, que não fala a língua nacional, mas o ch'tis, uma espécie de francês chiado e torto.
As versões do título para o português e para o inglês não são lá essas coisas, mas ao mesmo tempo é difícil traduzir um detalhe cultural tão específico, né?
Gostei de tudo no filme, em especial de uma sequência em que o protagonista bate um papo não muito animador com um tio da esposa. Tem um pedacinho desse papo no trailer... reparem no jeito como ele diz "C'est le nord". Sensacional.
Tem muito filme ruim feito na terra de Godard e Alain Resnais, mas esse dá para ver sem medo. Vejam.
segunda-feira, julho 12, 2010
War Child
Aos 7 anos, o sudanês Emmanuel Jal se perdeu da família e virou soldado na guerra civil que arrasou o sul do país.
Hoje, com mais ou menos 30 (ele nunca soube exatamente em que ano nasceu), é um rapper que corre o mundo fazendo shows e palestras falando sobre o que viveu e sobre o que a terra de origem ainda passa.
A história do artista é comprida demais para contar num post. Por isso, vou deixar só a dica do documentário War Child -- que o GNT traduziu como Guerreiro da Paz -- e vocês vão atrás, ou não, se quiserem. :-)
Acho que o canal não vai reprisar o filme, mas dá para saber tudo sobre ele e fazer o download clicando aqui.
O clipe que abre este post é de Gua, música que lançou Jal em vários países. A gravação original parece ser bem mais bonita, mas o vídeo tem uns problemas. De qualquer forma, aproveitem...
Update / Esqueci de dizer: o filme é, como não poderia deixar de ser, triste pra caramba, mas tem momentos divertidos também. Como no momento em que o rapper volta ao Sudão e encontra uma espécie de versão pastoril do 50 Cent. É o cara que canta "Sou foda / Tenho centenas de bodes e exibo para a mulherada, etc.". Dá para não rir com uma figura dessas?
sexta-feira, abril 30, 2010
Tonight the streets are ours
Quem passa pelo blog de vez em quando vai entender rápido por que fiquei muito a fim de ver este documentário (na verdade, o vídeo que está no site linkado é mais elucidativo).
Banksy é um grafiteiro que fez um monte de obras legais (e outras nem tanto) de street art na França e alhures (como na Palestina). Exemplos disso são os space invaders que se espalham por Paris e até por algumas cidadezinhas do interior. Fotografei uns quando estive por lá.
Além disso, é uma figura supermisteriosa. Por motivos óbvios, não se deixa fotografar nem filmar (a não ser que esteja de capuz e com a voz disfarçada). Mas um maluco francês chamado Thierry Guetta fez um milhão de vídeos de Banksy em ação e aproximou-se dele para tentar fazer um documentário sobre grafite e street art.
Guetta não contava com a possibilidade de tornar-se objeto do filme, mas foi isso que aconteceu em Exit through the Gift Shop. Se bem entendi os comentários todos espalhados na web, o documentário acaba tratando muito mais sobre como e por que o francês largou tantas vezes a família para seguir grafiteiros por aí.
Parece divertido. Tomara que estreie logo por aqui.
PS: o título deste post vem da canção de mesmo nome cantada por Richard Hawley e usada em um dos vídeos de divulgação do filme. Uma música muito bonitinha, por sinal.
domingo, abril 04, 2010
Cozinha da alma

Escrevo comandado entre aspas porque o restaurante Soul Kitchen está mais para Kitchen Nightmares -- aquele programa do chef-celebridade Gordon Ramsay -- do que para qualquer outra coisa. Para começar, a cozinha é um nojo. Da comida, então, o que dizer? Já sei: tudo o que você imaginar congelado e temperado por quantidades industriais de creme de leite.
Mesmo assim, tem gente que vai lá, come, paga, acha o lugar uma maravilha e assim o jovem Kazantsakis segue a vida. Na verdade, o que ele quer saber mesmo é quando vai conseguir fechar o restaurante para acompanhar a namorada, Nadine, que está de mudança para a China e zero a fim de ficar sozinha do outro lado do mundo, transando via Skype.
No entanto, numa dessas reviravoltas que a vida dá, nosso anti-herói tem a chance de transformar o Soul Kitchen num local com (perdoem a obviedade) um bocado a mais de alma. De tosco, o restaurante se transforma em um lugar aonde eu adoraria ir na vida real: um galpão enorme com um chef maravilhoso, música boa (black music e rock) e publicidade em stencil grafite. Mais: começa a dar dinheiro e conquista até as autoridades sanitárias de Hamburgo, que antes queriam fechá-lo.
Seria tudo uma maravilha se Kazantsakis não tivesse, a milhares de quilômetros de distância, uma mulher loira e brava pressionando-o para que ele largue a Alemanha e vá para Shangai. Nessa situação de dúvida se apóia todo o filme -- que, além de dar uma fome danada, ainda revela trilha sonora incrível e diversas críticas à suposta eficiência do Estado alemão.
Para apoiar (ou sabotar) as escolhas do protagonista, surgem uma série de personagens: um amigo de infância um tanto quanto suspeito; o irmão de Kazantsakis, presidiário; uma garçonete meio doidinha... E não dá para esquecer o chef que salva o restaurante das ruínas, uma figuraça.
Essa turma, tão na corda bamba quanto o próprio dono do Soul Kitchen, dá ainda mais gosto a um roteiro que só peca pelo excesso de soluções fáceis, instantâneas, como os pratos do antigo restaurante. Sabe coincidência, grana que aparece milagrosamente, etc.? É por aí.
Mas isso não pode ser motivo para deixar de ver o longa, que ganhou o prêmio especial do júri no Festival de Veneza em 2009 e, em Brasília, está sendo exibido em apenas dois horários na Academia de Tênis. Se puder, corra e vá ver, que a obra merece.
terça-feira, agosto 25, 2009
Adoro listas - 2
Fiquei apaixonada pelo roteiro e bege com o jeito patético do protagonista, um gerente de concessionária que manda sequestrar a própria mulher de modo a conseguir uma grana para projetos pessoais.
E enlouqueci com a atuação da Frances McDormand. Ela interpreta uma policial gravidíssima, ao mesmo tempo docinha e firme, que vai carregando o barrigão de sete meses para lá e para cá (em meio a um frio do cão) enquanto investiga os desdobramentos do sequestro. Pouca força de vontade, né não?
Me deu vontade de fazer um Top 5 com as melhores grávidas do cinema. Como só me lembrei de quatro personagens (e todas de filmes falados em inglês), sugiro que me falem de suas preferidas.
1) Marge Gunderson, a personagem da Frances em Fargo, né? Não bastasse fazer tudo que descrevi acima, ela ainda diverte ao passar o filme inteiro comendo e/ou pensando em comida. Genial.
2) Juno. Porque ela tem sempre uma resposta pronta. E é absolutamente surreal, em todos os sentidos que a palavra pode ter.
3) Helena Ayala, vivida pela Catherine Zeta-Jones em Traffic. Porque ela é redonda e enorme. Porque ela comanda o tráfico de drogas e se recusa a testar um "produto" porque está de seis meses. E porque logo no começo do filme, quando a personagem está num almoço entre amigas, participa de um diálogo mais ou menos assim:
AMIGA - ...Mas pato é tão gorduroso, por que você pediu?
HELENA - Não fui eu que pedi, foi outra pessoa.
4) Mariane Pearl, interpretada pela Angelina Jolie em O Preço da Coragem. É meio irritante ver AJ dizendo indiretamente "Por favor, galera, estou me esfalfando, me indiquem a um Oscar pela minha atuação humanitária, etc.". Mas eu gosto do filme. Cara, o processo de caracterização da atriz nesse filme é bacana. A atriz surge totalmente afrodescendente e barriguda, e o fato de ela estar esperando um baby do protagonista deixa tudo com uma tinta mais dramática. Enfim, vale a pena encarar a obra.
5) Bom, na falta de memória total, passo a bola pra vocês. Beijos.
segunda-feira, agosto 17, 2009
Rá!
Há vários que nunca vi nem verei. Não faço questão. Humor grosseiro me deixa angustiada ("Eu, hein, Creusa?", você deve estar dizendo).
Mas este fim de semana eu vi dois: um no sábado, outro no domingo. Um totalmente sem querer (passou na tevê, eu comecei a assistir e gostei), e a outro num esquema bem planejado.
A primeira é Ressaca de Amor, de Nicholas Stoller, que traz o grandão Jason Segel no papel de um compositor de trilhas sonoras totalmente bobão e apaixonado pela ex-namorada. Ele viaja ao Havaí para tentar infernizar a lua de mel da moça, uma atriz de Hollywood que o trocou por um roqueiro britânico estilo Scorpions (só que pior) impagável.
Impagáveis também são a recepcionista morena (e marrenta) e o mensageiro gordinho do resort onde todos ficam hospedados. Genial.
A segunda comédia é Brüno, que estreou nos cinemas na última sexta-feira. A história está todo mundo meio que sabendo, né? Bom, basta eu acrescentar então que ninguém me faz rir tanto desde... Borat.
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Acho muita graça quando leio ou escuto a expressão "com um sorriso no rosto".
Ora, é possível sorrir com que outras partes do corpo?
(Não respondam, não respondam, não respondam! hehehehe)
quarta-feira, junho 17, 2009
A imprensa e o absurdômetro
Cal McAffrey é um jornalista tosco e algo antiquado, porém brilhante. Entre seus hábitos de repórter, estão usar o próprio carro para apurar matérias e beber um uísquezinho na redação ("vinho irlandês", ele diz) para relaxar.Cal McAffrey é o personagem de Russell Crowe em Intrigas de Estado, que estreou aqui em Brasília na última sexta-feira e reflete sobre a promiscuidade nas relações entre a imprensa e o poder. Gostei, mas não vou tecer grandes análises aqui porque elas já foram feitas por uns mil colegas.
Prefiro falar de outro tema sobre o qual sempre quis escrever aqui: a total inverossimilhança dos personagens jornalísticos na maior parte das obras de ficção. Pode ser que algum dia tenha sido normal fumar ou beber (como faz McAffley) dentro das redações, mas hoje o negócio não é bem assim.
Você vai me dizer: ora, Mari, se você quer verossimilhança, veracidade ou qualquer outra dessas coisas, assista a um documentário ou corra de volta para o trabalho. A intenção aqui, no entanto, não é execrar totalmente (hehe) as obras de ficção, mas sim apontar o quanto pode ser divertido reparar em certos absurdos. (Médicos e enfermeiros devem pensar nisso também quando assistem a programas como ER e outros.)
Por isso, vou lembrar de alguns personagens que impactaram o meu absurdômetro.
Carrie Bradshaw, de Sex and The CityVamos lá: na primeira temporada da série, Carrie tem uns 33, 34 anos, se não me engano. E já ganha uma grana suficiente para comprar sapatos carésimos apenas escrevendo coluninhas semanais rédéculas sobre sexo no jornal The New York Star. Os textos não têm nada de pesquisa, só falam da própria vivência afetiva da moça. Nas temporadas seguintes -- não sei se algum fã andou questionando o fato dela trabalhar de menos --, os roteiristas inventaram uns frilas para a moça, inclusive na Vogue. Mas, ainda assim, nunca foi possível dizer que ela pertencesse ao rol dos jornalistas estressados. E, claro, a série nem sequer mostra como ela fez para chegar a tal nível de estrelato.
Maddie Bowen, de Diamantes de SangueA personagem de Jenniffer Conelly provocou, pelo menos na sessão em que assisti ao filme, uma série de gargalhadas por parte da galera. Para quem não viu, deixa eu dar uma resumida: a moça é correspondente de uma revista importante (tipo a Time) em Serra Leoa e foi para lá a fim de investigar o esquema de tráfico de diamantes que rolava no país. Mais: era uma das últimas profissionais da imprensa estrangeira a permanecer (so-zi-nha) ali depois que a situação apertou.
Quando ela conhece um gatinho oportunista (Leonardo di Caprio) e um garimpeiro, encontra os grandes personagens de sua matéria. Antes disso, ela já havia feito coisas do tipo cobrir a vida dos talibãs no Afeganistão sozinha e sem burca. "Voltou com 3 mil palavras e mais linda do que nunca", diz um cinegrafista ao personagem de Di Caprio. Aliás, os diálogos do filme são fantásticos. As tais risadas despontaram na sala depois de uma explosão nervosa da moça, que diz algo do tipo: "Eu não vou descansar enquanto souber que, toda vez que um americano compra um anel de diamante, vidas estão se perdendo. Quero nomes, números, contas bancárias!". Ah, Jennifer Connelly...

Andie Anderson, de Como Perder um Cara em 10 Dias
É até sacanagem querer alguma veracidade num filme como esse, mas tudo bem. Me pareceu um exemplo perfeito de como o jornalismo é avacalhado nos filmes de Hollywood -- e, pior, é capaz de ter gente acreditando que a profissão é assim mesmo. A mina trabalha numa revista bem mulherzinha e é especializada em elaborar listas (como deixar seu cabelo perfeito, como perder um cara em 10 dias, etc.). Claro que ela faz isso contra a vontade, porque seu desejo é se tornar uma correspondente internacional. E aí, entre uma matéria fútil e outra, ela faz uma matéria edificante sobre as dificuldades do povo do Tajiquistão... sem nunca sair da redação climatizada em Nova York, naturalmente. E espera que a editora publique. Oh, céus.
Se alguém se lembrar de mais algum caso de filmes, novelas, séries, etc., fique à vontade para comentar.
domingo, abril 12, 2009
A saga de um banheiro
Em algum momento na faculdade, li uns textos lindos e difíceis espinafrando a enxurrada de imagens e a ausência de reflexão em certos filmes contemporâneos. E, ao mesmo tempo, defendendo um cinema de contemplação, que permitisse ao espectador pensar sobre o significado das imagens que estivesse vendo. Um cinema de histórias simples e muita elaboração mental.Na teoria, sensacional. Na prática, as leituras desembocaram em alguns dos filmes mais chatos que já assisti nos meus quase 28 anos. Num deles, cujo roteiro acompanhava duas crianças que partiam a pé da Grécia à Alemanha em busca do pai desaparecido, a narrativa era das mais arrastadas. A fotografia, nem colorida nem p&b (isso, pelo menos, fazia sentido, garanto). E, em determinado momento, do nada, a gente via uma mão gigante de concreto saindo do mar, puxada por uma grua montada em um helicóptero. Um negócio totalmente fora de contexto. A gente bem que tentava entender: era a mão do capitalismo sobre a Grécia? Era a mão de Deus que viria para ajudar os dois pequeninos? Che catzo è questo?
Surreal.
Pelo menos essa filmografia rendeu uns causos para narrar por aí. Pelo menos serviu para entender que existem mil formas diferentes de contar histórias. Me ajudou a avaliar filmes além das simples noções de "gosto"/"não gosto".
Voltei a pensar nos tais textos sobre o cinema de contemplação depois de assistir, no começo desse feriadão (que, para mim, significou trabalho todos os dias), a O Banheiro do Papa, que chegou recentemente à locadora mais próxima daqui de casa. Passou em algumas salas aqui em Brasília também, mas justamente numa época em que eu estava viajando, de modo que não deu para ver.
A história é simples. Beto, um homem que faz contrabando de produtos de supermercado entre Brasil e Uruguai, tem a brilhante ideia de montar um banheiro para ser usado pelos milhares (milhões!) de esperados fiéis que acompanharão a visita do pontífice a Melo. A cidadezinha onde Beto mora fica do outro lado da fronteira. O filme tem como diretores Enrique Fernández (estreando na função) e César Charlone. Este último assina a fotografia de filmaços como Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel.
Tantos foram os prêmios arrebatados por aí e tantas foram as críticas positivas que fiquei na maior expectativa ao alugar o DVD. Mas a história se arrasta por longuíssimos 90 minutos (!) com poucos momentos de emoção ou de graça. Gostei muito da filha de Beto, que sonha em largar a cidade e estudar jornalismo em Montevidéu. Fiquei com pena da mulher do contrabandista. Dei umas risadas com uma espécie de versão uruguaia do churrasco na laje. E só.
Não sei se por ter lido alguma coisa previamente, ou pelo fato do filme ser previsível mesmo, saquei logo que aquele projeto mirabolante ia dar em merda (já que estamos falando em banheiro...). E não consegui me comover muito.
A única coisa que se salva, pelo menos para mim, é a fotografia. Não bastasse o fato de as locações serem lindas, o trabalho do Charlone é sensacional. Não houve um só quadro feio. Eu queria ter feito cada uma daquelas fotos, porque são todas geniais.
De modo que pensei: trata-se de uma trama boba a serviço de um dos melhores diretores de fotografia da realidade. É o tal do cinema de contemplação. História simples e superelaboração mental (pense na situação do homem, no ambiente ao mesmo tempo lindo e pobre, na esperança do povo em relação à chegada do Papa, etc.) em torno de imagens incríveis. Não adianta, nem sempre isso me toca.
O filme pelo menos serviu para que eu lembrasse que os filmes de contemplação existem, e que, em algum lugar entre o céu e a Terra, milhares de téoricos fizerm páginas e páginas em torno dele.
domingo, janeiro 04, 2009
Frase do dia
Ouvida na saída do cinema da Academia de Tênis, hoje à noite. A mocinha de boca suja em questão poderia estar falando de um universo de atrizes -- mas gosto de pensar que ela está comentando a atuação de Penélope Cruz em Fatal.