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quarta-feira, dezembro 22, 2010

Larguem a guria de mão

Não entendo, nunca compreendi (nem pretendo) o prazer que a cultura escolar norte-americana tem na humilhação de quem é apenas um pouco diferente da média.

Pensei nisso quando observei um movimento besta, que não dura mais de dois segundos, em uma obra-prima que anda reprisando com alguma frequência na tevê a cabo: Carrie, a Estranha (1976), filmaço do Brian de Palma.

Se de fato a vida de high school é o que a gente vê na ficção -- e aparentemente ela é assim mesmo, a julgar por umas notícias de bullying e suicídio que pipocam de tempos em tempos --, deve ser um inferno não nascer rainha do baile ou capitão do time de basquete.

Que dirá, então, ser tímida, paranormal e de berço ultrarreligioso... em qualquer época. Se Carrie White fosse real e contemporânea, sua vida não se tornaria muito mais fácil do que em outros tempos.

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Que movimento é esse a que me referi lá em cima? Trata-se do lamber de beiços da personagem Chris Hargensen (vivida por Nancy Allen) antes de puxar uma maldita cordinha e acabar com o baile de formatura da protagonista e de seus colegas.

(Obs.: antecipar esse detalhe não estraga a emoção do filme; vocês vão ter que assistir para saber qual é a do baile, que raio de corda é esse e o que ele desencadeia).

No momento em que a língua de Hargensen é enquadrada lentamente em close, eu, que já não gosto de conversar com os filmes, explodi.

- Bitch! Que parte você não entendeu de "Não é para mexer com a Carrie"? Larga a guria de mão, #$%^&*(*.

Naturalmente, a vaca não me obedece.

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Antes do tal baile, chega a ser comovente o jeito como a protagonista tenta deixar de lado seu jeito de patinho feio, apesar da resistência que encontra por parte da mãe. Esse confronto dá origem a um dos diálogos mais legais do filme (os outros vocês veem aqui):

Margaret White: [referindo-se ao vestido de formatura da filha] Vermelho. Eu deveria saber que ele era vermelho.
Carrie: É rosa, mãe.
(...)
Margaret White: Dá para ver daqui as suas tetas imundas.
Carrie: Seios, mãe. Eles se chamam seios, e toda mulher os têm.

Mas criaturas assim parecem não ter direito nem sequer à auto-aceitação. Pelo menos não nos filmes e nos livros (o roteiro, que não deixa ponto sem nó, foi baseado numa obra de Stephen King) sobre as high schools e sua bizarra divisão entre populares e perdedores.

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Seria a história de Carrie algum tipo de alegoria para uma questão maior, como a da libertação da mulher ou da revolução de costumes nos Estados Unidos? Por motivos que talvez dariam um blog (e não só um post pequeno), fiquei viajando nisso. Mas só pode responder quem viu o filme na época do lançamento.

Se tiver alguém com esse perfil lendo o blog agora, fique livre para comentar.

(E quem não tiver pode escrever também...)