Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, junho 17, 2010

American Pastoral

Há um tempo encasquetei que queria ler Philip Roth. Deve ser um pouco por conta da paixão absoluta que a minha ex-chefe tem por ele, um tanto pela entrevista que li com ele no dia em que viajei para a gringolândia e mais um bocado porque adorei Fatal, adaptação cinematográfica para O Animal Agonizante.

Daí que num aeroporto desses, bem no comecinho das férias, comprei American Pastoral, que, acredito, não foi editado ainda no Brasil, porque estou googlando direto aqui e não achei a tradução para o título.

O livro (que ganha as telas em 2011) conta a história de Seymour "Swede" Levov, veterano da escola onde o narrador estudou. Em síntese, o cara é um macho-alfa, alguém por quem todo mundo tem um carinho fora do normal. É bonito, inteligente, craque em todos os esportes, etc., etc.

Sei não, mas acho até que rola um componente gay no modo como o autor o descreve.

Levov tem uma vida fantástica quando jovem, mas descobre o quanto ela pode ser amarga nos anos seguintes. Mas isso o leitor só descobre quando já leu um monte de páginas, depois de:

1) Compartilhar essa adoração louca que todos têm pelo protagonista;
2) Descobrir como foi o encontro entre ele e o narrador quando ambos já estão velhinhos;
3) Saber, enfim, como era ser jovem e estudante no fim da Segunda Guerra.

Não cheguei na parte das agruras ainda porque estou lendo o livro muuuuuito devagar. Essencialmente, vou pegá-lo quando estou no avião. E avião, pra mim = sono. Eu apago, seja lendo um texto ótimo, seja vendo aquelas revistinhas de compras a bordo. Não abro o olho nem para colocar a poltrona na posição vertical.

E, com isso, perco toooooda aquela linguagem linda e rebuscada que o autor emprega. Ai, ai.

Daqui a pouco vou pegar o livro de novo. Hoje estou pilhada, com um monte de cafeína no sangue, e não sei a que horas vou cair nos braços quentinhos e acolchoados de Morfeu.

Até lá, Roth me parece uma ótima companhia. :o)

sábado, junho 27, 2009

Piadinhas dos velhos tempos


De vez em quando, amigos com mais tempo de jornalismo que eu adoram contar histórias de quando as redações eram maiores e mais pândegas. Algumas delas me deixam pensando como é que as pessoas arrumavam tempo para fazer coisas básicas como escrever, revisar, diagramar e cia. enquanto tocavam a zona.

Não sei se esse tipo de coisa acontece em outros ambientes profissonais porque a minha experiência fora de redação inclui apenas dois escritórios supersérios e uma escola de inglês (onde eu passava mais tempo com os alunos do que com qualquer companheiro de trabalho). Vocês podem esclarecer a minha dúvida deixando um comentário logo ali. Agora, vamos aos truques das novas/velhas redações, companheiros.

Fulano de tal? É aquele ali, ó
É o seguinte: profissional novo pergunta ao colega veterano quem é o Fulano de Tal. Colega veterano aponta uma pessoa nada-a-ver-com-nada e manda o novato ir lá falar com ela(e). A tal pessoa nada-a-ver-com-nada poderia, a depender da própria personalidade:

a) Ficar titica da vida;

b) Encarar numa boa e apontar quem seria, na verdade, o Fulano de Tal correto;

c) Entrar na brincadeira e apontar uma outra pessoa nada-a-ver-com-nada como o sujeito a quem o novato estava de fato procurando.

Novato sofre, né não?

O Fulano de Tal é aquele ali. Cuidado, que ele é supergrosso
Essa é quase autoexplicativa, né? Quem é crédulo (ou medroso) e ouve uma dessas chega perto do outro falando fininho e quase pedindo desculpas por existir. Normalmente, o grosso em questão é um superquerido ou um fanfarrão (às vezes, os dois).

Fala bem alto com o Fulano de Tal porque ele é surdo
Essa também é autoexplicativa. Pense na quantidade de gente que não deve ter ouvido uns gritos proferidos por focas em todo o mundo...

Outras histórias - de pandeguice nas redações e de bom e mau jornalismo - estão em O Repórter e o Poder, de José Carlos Bardawil. Divertidíssimo sob um monte de aspectos, o livro inspirou esse post.

segunda-feira, março 02, 2009

O Fotógrafo

Obs.: se der tempo, eu coloco fotos relacionadas a este post mais tarde.

Usar fotogramas para ilustrar qualquer coisa relacionada ao mundo da fotografia é um tremendo dum clichê. Mas, em O Fotógrafo, livro-reportagem em quadrinhos assinado por Didier Lefèvre (cliques), Emmanuel Guibert (texto e desenhos) e Frédéric Lemercier (diagramação e cores), trata-se de um clichê totalmente perdoável. Eles emolduram uma série de imagens que, combinadas com as ilustrações de Guibert, ajudam a relatar a jornada única – de descoberta, paixão, dor e transcendência – de um profissional que topa acompanhar uma equipe do Médicos Sem Fronteiras (MSF) do Paquistão ao Afeganistão, em 1986.

A história começa com a chegada de Lefèvre (1957-2007) a Karachi e é marcada por um recurso intrigante: na quarta página do relato, entre ilustrações e fotos, três quadrinhos apresentam o título da obra e os nomes dos autores, como se aquilo fosse um filme, e não um livro. Se O Fotógrafo será realmente transposto para as telas, não dá para saber ainda, mas fica claro que existe essa intenção. Se quadrinhos tivessem som, daria até para ouvir a trilha sonora composta para tocar enquanto carroças e muita gente circulam pelas ruas da capital paquistanesa enquanto rolam os créditos.

Durante aquele ano em que a ocupação afegã por parte da URSS ainda vigorava (durou de 1979 a 1989), atravessar a fronteira para levar cuidados médicos aos camponeses não era bolinho. Liderada por uma mulher, Juliette, e escoltada por um tradutor, por inúmeros mudjahedin (combatentes islâmicos que lutaram contra os soviéticos), por 100 burros e 20 cavalos, a equipe caminha durante um mês. Enfrenta o frio glacial e a altitude em desfiladeiros perigosos, onde o risco de queda (ou, no mínimo, de torção do tornozelo) existe a todo instante. Abre mão de luxos como refeições completas, banho e papel higiênico – esse último, interpretado pelas tropas russas como um sinal de presença ocidental no lugar. E, finalmente, chega à aldeia de Zaragandara, a um hospital de guerra que o fotógrafo custa a reconhecer como tal, tamanha a simplicidade do lugar.

Somente no segundo volume da obra a adrenalina da longa caminhada é substituída pela do atendimento aos pacientes. Doenças e acidentes domésticos comuns são intercalados com o sofrimento do guerreiro que perde um dos olhos num incidente algo patético e da moça que fica paraplégica quando um estilhaço de bomba se aloja na coluna, entre outras histórias. Lefèvre e Guibert acertam no tom de sobriedade e em deixar que os casos falem por si. Há pouquíssimo choro, discretos aplausos do fotógrafo ao trabalho corajoso dos colegas (um deles chega a revelar verdadeira paixão por cirurgias feitas em condições sanitárias mínimas) e, o mais importante: imagens que preservam a dignidade dos atendidos e não causam asco em quem as vê.

A saga de Lefèvre e dos bravos doutores em Zaragandara, Afeganistão, parece terminar no segundo tomo – mas, no final deste, ainda descobre-se que há um pouquinho mais de história para acontecer. Ela fica para o terceiro livro, que ainda não foi lançado pela Conrad no Brasil. A quem leu os dois volumes em duas sentadas (leia-se: esta blogueira) só resta esperar que ele venha rápido. Muito rápido!

O FOTÓGRAFO – Volumes 1 e 2
Por Didier Lefèvre, Emmanuel Guibert e Frédéric Lemercier. De R$ 92 por R$ 59,80 na loja virtual da Editora Conrad.

Ah! Clicando aqui você lê outro texto, feito em fevereiro de 2008, sobre a história em quadrinhos (acesso exclusivo aos assinantes do Correio Braziliense).

domingo, fevereiro 01, 2009

Infiel: Notas de uma Antropóloga

Entre os tantos livros que estão na pilha do escritório para eu terminar algum dia, está Infiel: Notas de uma Antropóloga, que ganhei e comecei a ler numa noite sem sono. Apesar de ser bem escrito e permitir uma leitura rápida, o livro não é assim, superfantástico, porque foi feito, entre outras coisas, para mostrar a repercussão que suas obras anteriores (A Outra e De Perto Ninguém é Normal, entre outros) tiveram na imprensa. Até o momento, acho que ela se prolonga demais ao apresentar as reportagens que mereceu e, por isso, também espaça demais o melhor da obra, que é o relato de Mônica (nome fictício).

Trata-se de uma jornalista, que, depois da infância difícil, tornou-se independente, madura, cheia de borogodó, com vários casos, namorados e rolos e um único amor. Não sei como a história dela termina. E digo: o que mais que impacta no depoimento de Mônica não é a maneira como ela descreve o pai violento, a vinda para a cidade grande, as coisas que viveu na profissão e nem os muitos homens que teve. É o trecho que reproduzo abaixo, sobre um tema que tem me cutucado tanto que não pude deixar de compartilhar neste blog.

“Como jornalista, sei a dificuldade que as pessoas têm para ouvir. As pessoas, em geral, adoram falar sobre si mesmas e prestam muito pouca atenção no que os outros dizem. Fico impressionada, pois até os psicanalistas que entrevisto falam muito mais do que escutam. Eles já têm idéias preconcebidas sobre tudo e desatam a falar, sem nem mesmo prestar atenção às perguntas que faço. Tenho entrevistado, nos últimos anos, inúmeros profissionais para as matérias de comportamento que escrevo. Inúmeros “ólogos”, como dizemos na redação: psicólogos, antropólogos, sociólogos, sexólogos, etc. E cada vez mais reparo na dificuldade que eles têm para ouvir e na falta de interesse que têm pelos outros. Algumas vezes passo horas só escutando e eles nem percebem que não abri a boca, entro muda e saio calada e continuam falando. Fico até enjoada só de escutar o tom de suas vozes. Reclamam do governo, do patrão, da esposa ou do marido, dos filhos. Os que estão sozinhos reclamam que faltam homens e mulheres interessantes, como se eles merecessem alguém interessante. (...) É fácil perceber que se parassem de falar e ouvissem mais, prestassem atenção aos outros, se tornariam muito mais interessantes”.

Bom domingo a todos.