Há um tempo encasquetei que queria ler Philip Roth. Deve ser um pouco por conta da paixão absoluta que a minha ex-chefe tem por ele, um tanto pela entrevista que li com ele no dia em que viajei para a gringolândia e mais um bocado porque adorei Fatal, adaptação cinematográfica para O Animal Agonizante.
Daí que num aeroporto desses, bem no comecinho das férias, comprei American Pastoral, que, acredito, não foi editado ainda no Brasil, porque estou googlando direto aqui e não achei a tradução para o título.
O livro (que ganha as telas em 2011) conta a história de Seymour "Swede" Levov, veterano da escola onde o narrador estudou. Em síntese, o cara é um macho-alfa, alguém por quem todo mundo tem um carinho fora do normal. É bonito, inteligente, craque em todos os esportes, etc., etc.
Sei não, mas acho até que rola um componente gay no modo como o autor o descreve.
Levov tem uma vida fantástica quando jovem, mas descobre o quanto ela pode ser amarga nos anos seguintes. Mas isso o leitor só descobre quando já leu um monte de páginas, depois de:
1) Compartilhar essa adoração louca que todos têm pelo protagonista;
2) Descobrir como foi o encontro entre ele e o narrador quando ambos já estão velhinhos;
3) Saber, enfim, como era ser jovem e estudante no fim da Segunda Guerra.
Não cheguei na parte das agruras ainda porque estou lendo o livro muuuuuito devagar. Essencialmente, vou pegá-lo quando estou no avião. E avião, pra mim = sono. Eu apago, seja lendo um texto ótimo, seja vendo aquelas revistinhas de compras a bordo. Não abro o olho nem para colocar a poltrona na posição vertical.
E, com isso, perco toooooda aquela linguagem linda e rebuscada que o autor emprega. Ai, ai.
Daqui a pouco vou pegar o livro de novo. Hoje estou pilhada, com um monte de cafeína no sangue, e não sei a que horas vou cair nos braços quentinhos e acolchoados de Morfeu.
Até lá, Roth me parece uma ótima companhia. :o)
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quinta-feira, junho 17, 2010
sábado, junho 27, 2009
Piadinhas dos velhos tempos

De vez em quando, amigos com mais tempo de jornalismo que eu adoram contar histórias de quando as redações eram maiores e mais pândegas. Algumas delas me deixam pensando como é que as pessoas arrumavam tempo para fazer coisas básicas como escrever, revisar, diagramar e cia. enquanto tocavam a zona.
Não sei se esse tipo de coisa acontece em outros ambientes profissonais porque a minha experiência fora de redação inclui apenas dois escritórios supersérios e uma escola de inglês (onde eu passava mais tempo com os alunos do que com qualquer companheiro de trabalho). Vocês podem esclarecer a minha dúvida deixando um comentário logo ali. Agora, vamos aos truques das novas/velhas redações, companheiros.
Fulano de tal? É aquele ali, ó
É o seguinte: profissional novo pergunta ao colega veterano quem é o Fulano de Tal. Colega veterano aponta uma pessoa nada-a-ver-com-nada e manda o novato ir lá falar com ela(e). A tal pessoa nada-a-ver-com-nada poderia, a depender da própria personalidade:
a) Ficar titica da vida;
b) Encarar numa boa e apontar quem seria, na verdade, o Fulano de Tal correto;
c) Entrar na brincadeira e apontar uma outra pessoa nada-a-ver-com-nada como o sujeito a quem o novato estava de fato procurando.
Novato sofre, né não?
O Fulano de Tal é aquele ali. Cuidado, que ele é supergrosso
Essa é quase autoexplicativa, né? Quem é crédulo (ou medroso) e ouve uma dessas chega perto do outro falando fininho e quase pedindo desculpas por existir. Normalmente, o grosso em questão é um superquerido ou um fanfarrão (às vezes, os dois).
Fala bem alto com o Fulano de Tal porque ele é surdo
Essa também é autoexplicativa. Pense na quantidade de gente que não deve ter ouvido uns gritos proferidos por focas em todo o mundo...
Outras histórias - de pandeguice nas redações e de bom e mau jornalismo - estão em O Repórter e o Poder, de José Carlos Bardawil. Divertidíssimo sob um monte de aspectos, o livro inspirou esse post.
segunda-feira, março 02, 2009
O Fotógrafo
Obs.: se der tempo, eu coloco fotos relacionadas a este post mais tarde.
Usar fotogramas para ilustrar qualquer coisa relacionada ao mundo da fotografia é um tremendo dum clichê. Mas, em O Fotógrafo, livro-reportagem em quadrinhos assinado por Didier Lefèvre (cliques), Emmanuel Guibert (texto e desenhos) e Frédéric Lemercier (diagramação e cores), trata-se de um clichê totalmente perdoável. Eles emolduram uma série de imagens que, combinadas com as ilustrações de Guibert, ajudam a relatar a jornada única – de descoberta, paixão, dor e transcendência – de um profissional que topa acompanhar uma equipe do Médicos Sem Fronteiras (MSF) do Paquistão ao Afeganistão, em 1986.
A história começa com a chegada de Lefèvre (1957-2007) a Karachi e é marcada por um recurso intrigante: na quarta página do relato, entre ilustrações e fotos, três quadrinhos apresentam o título da obra e os nomes dos autores, como se aquilo fosse um filme, e não um livro. Se O Fotógrafo será realmente transposto para as telas, não dá para saber ainda, mas fica claro que existe essa intenção. Se quadrinhos tivessem som, daria até para ouvir a trilha sonora composta para tocar enquanto carroças e muita gente circulam pelas ruas da capital paquistanesa enquanto rolam os créditos.
Durante aquele ano em que a ocupação afegã por parte da URSS ainda vigorava (durou de 1979 a 1989), atravessar a fronteira para levar cuidados médicos aos camponeses não era bolinho. Liderada por uma mulher, Juliette, e escoltada por um tradutor, por inúmeros mudjahedin (combatentes islâmicos que lutaram contra os soviéticos), por 100 burros e 20 cavalos, a equipe caminha durante um mês. Enfrenta o frio glacial e a altitude em desfiladeiros perigosos, onde o risco de queda (ou, no mínimo, de torção do tornozelo) existe a todo instante. Abre mão de luxos como refeições completas, banho e papel higiênico – esse último, interpretado pelas tropas russas como um sinal de presença ocidental no lugar. E, finalmente, chega à aldeia de Zaragandara, a um hospital de guerra que o fotógrafo custa a reconhecer como tal, tamanha a simplicidade do lugar.
Somente no segundo volume da obra a adrenalina da longa caminhada é substituída pela do atendimento aos pacientes. Doenças e acidentes domésticos comuns são intercalados com o sofrimento do guerreiro que perde um dos olhos num incidente algo patético e da moça que fica paraplégica quando um estilhaço de bomba se aloja na coluna, entre outras histórias. Lefèvre e Guibert acertam no tom de sobriedade e em deixar que os casos falem por si. Há pouquíssimo choro, discretos aplausos do fotógrafo ao trabalho corajoso dos colegas (um deles chega a revelar verdadeira paixão por cirurgias feitas em condições sanitárias mínimas) e, o mais importante: imagens que preservam a dignidade dos atendidos e não causam asco em quem as vê.
A saga de Lefèvre e dos bravos doutores em Zaragandara, Afeganistão, parece terminar no segundo tomo – mas, no final deste, ainda descobre-se que há um pouquinho mais de história para acontecer. Ela fica para o terceiro livro, que ainda não foi lançado pela Conrad no Brasil. A quem leu os dois volumes em duas sentadas (leia-se: esta blogueira) só resta esperar que ele venha rápido. Muito rápido!
O FOTÓGRAFO – Volumes 1 e 2
Por Didier Lefèvre, Emmanuel Guibert e Frédéric Lemercier. De R$ 92 por R$ 59,80 na loja virtual da Editora Conrad.
Ah! Clicando aqui você lê outro texto, feito em fevereiro de 2008, sobre a história em quadrinhos (acesso exclusivo aos assinantes do Correio Braziliense).
Usar fotogramas para ilustrar qualquer coisa relacionada ao mundo da fotografia é um tremendo dum clichê. Mas, em O Fotógrafo, livro-reportagem em quadrinhos assinado por Didier Lefèvre (cliques), Emmanuel Guibert (texto e desenhos) e Frédéric Lemercier (diagramação e cores), trata-se de um clichê totalmente perdoável. Eles emolduram uma série de imagens que, combinadas com as ilustrações de Guibert, ajudam a relatar a jornada única – de descoberta, paixão, dor e transcendência – de um profissional que topa acompanhar uma equipe do Médicos Sem Fronteiras (MSF) do Paquistão ao Afeganistão, em 1986.
A história começa com a chegada de Lefèvre (1957-2007) a Karachi e é marcada por um recurso intrigante: na quarta página do relato, entre ilustrações e fotos, três quadrinhos apresentam o título da obra e os nomes dos autores, como se aquilo fosse um filme, e não um livro. Se O Fotógrafo será realmente transposto para as telas, não dá para saber ainda, mas fica claro que existe essa intenção. Se quadrinhos tivessem som, daria até para ouvir a trilha sonora composta para tocar enquanto carroças e muita gente circulam pelas ruas da capital paquistanesa enquanto rolam os créditos.
Durante aquele ano em que a ocupação afegã por parte da URSS ainda vigorava (durou de 1979 a 1989), atravessar a fronteira para levar cuidados médicos aos camponeses não era bolinho. Liderada por uma mulher, Juliette, e escoltada por um tradutor, por inúmeros mudjahedin (combatentes islâmicos que lutaram contra os soviéticos), por 100 burros e 20 cavalos, a equipe caminha durante um mês. Enfrenta o frio glacial e a altitude em desfiladeiros perigosos, onde o risco de queda (ou, no mínimo, de torção do tornozelo) existe a todo instante. Abre mão de luxos como refeições completas, banho e papel higiênico – esse último, interpretado pelas tropas russas como um sinal de presença ocidental no lugar. E, finalmente, chega à aldeia de Zaragandara, a um hospital de guerra que o fotógrafo custa a reconhecer como tal, tamanha a simplicidade do lugar.
Somente no segundo volume da obra a adrenalina da longa caminhada é substituída pela do atendimento aos pacientes. Doenças e acidentes domésticos comuns são intercalados com o sofrimento do guerreiro que perde um dos olhos num incidente algo patético e da moça que fica paraplégica quando um estilhaço de bomba se aloja na coluna, entre outras histórias. Lefèvre e Guibert acertam no tom de sobriedade e em deixar que os casos falem por si. Há pouquíssimo choro, discretos aplausos do fotógrafo ao trabalho corajoso dos colegas (um deles chega a revelar verdadeira paixão por cirurgias feitas em condições sanitárias mínimas) e, o mais importante: imagens que preservam a dignidade dos atendidos e não causam asco em quem as vê.
A saga de Lefèvre e dos bravos doutores em Zaragandara, Afeganistão, parece terminar no segundo tomo – mas, no final deste, ainda descobre-se que há um pouquinho mais de história para acontecer. Ela fica para o terceiro livro, que ainda não foi lançado pela Conrad no Brasil. A quem leu os dois volumes em duas sentadas (leia-se: esta blogueira) só resta esperar que ele venha rápido. Muito rápido!
O FOTÓGRAFO – Volumes 1 e 2
Por Didier Lefèvre, Emmanuel Guibert e Frédéric Lemercier. De R$ 92 por R$ 59,80 na loja virtual da Editora Conrad.
Ah! Clicando aqui você lê outro texto, feito em fevereiro de 2008, sobre a história em quadrinhos (acesso exclusivo aos assinantes do Correio Braziliense).
domingo, fevereiro 01, 2009
Infiel: Notas de uma Antropóloga
Entre os tantos livros que estão na pilha do escritório para eu terminar algum dia, está Infiel: Notas de uma Antropóloga, que ganhei e comecei a ler numa noite sem sono. Apesar de ser bem escrito e permitir uma leitura rápida, o livro não é assim, superfantástico, porque foi feito, entre outras coisas, para mostrar a repercussão que suas obras anteriores (A Outra e De Perto Ninguém é Normal, entre outros) tiveram na imprensa. Até o momento, acho que ela se prolonga demais ao apresentar as reportagens que mereceu e, por isso, também espaça demais o melhor da obra, que é o relato de Mônica (nome fictício).
Trata-se de uma jornalista, que, depois da infância difícil, tornou-se independente, madura, cheia de borogodó, com vários casos, namorados e rolos e um único amor. Não sei como a história dela termina. E digo: o que mais que impacta no depoimento de Mônica não é a maneira como ela descreve o pai violento, a vinda para a cidade grande, as coisas que viveu na profissão e nem os muitos homens que teve. É o trecho que reproduzo abaixo, sobre um tema que tem me cutucado tanto que não pude deixar de compartilhar neste blog.
“Como jornalista, sei a dificuldade que as pessoas têm para ouvir. As pessoas, em geral, adoram falar sobre si mesmas e prestam muito pouca atenção no que os outros dizem. Fico impressionada, pois até os psicanalistas que entrevisto falam muito mais do que escutam. Eles já têm idéias preconcebidas sobre tudo e desatam a falar, sem nem mesmo prestar atenção às perguntas que faço. Tenho entrevistado, nos últimos anos, inúmeros profissionais para as matérias de comportamento que escrevo. Inúmeros “ólogos”, como dizemos na redação: psicólogos, antropólogos, sociólogos, sexólogos, etc. E cada vez mais reparo na dificuldade que eles têm para ouvir e na falta de interesse que têm pelos outros. Algumas vezes passo horas só escutando e eles nem percebem que não abri a boca, entro muda e saio calada e continuam falando. Fico até enjoada só de escutar o tom de suas vozes. Reclamam do governo, do patrão, da esposa ou do marido, dos filhos. Os que estão sozinhos reclamam que faltam homens e mulheres interessantes, como se eles merecessem alguém interessante. (...) É fácil perceber que se parassem de falar e ouvissem mais, prestassem atenção aos outros, se tornariam muito mais interessantes”.
Bom domingo a todos.
Trata-se de uma jornalista, que, depois da infância difícil, tornou-se independente, madura, cheia de borogodó, com vários casos, namorados e rolos e um único amor. Não sei como a história dela termina. E digo: o que mais que impacta no depoimento de Mônica não é a maneira como ela descreve o pai violento, a vinda para a cidade grande, as coisas que viveu na profissão e nem os muitos homens que teve. É o trecho que reproduzo abaixo, sobre um tema que tem me cutucado tanto que não pude deixar de compartilhar neste blog.
“Como jornalista, sei a dificuldade que as pessoas têm para ouvir. As pessoas, em geral, adoram falar sobre si mesmas e prestam muito pouca atenção no que os outros dizem. Fico impressionada, pois até os psicanalistas que entrevisto falam muito mais do que escutam. Eles já têm idéias preconcebidas sobre tudo e desatam a falar, sem nem mesmo prestar atenção às perguntas que faço. Tenho entrevistado, nos últimos anos, inúmeros profissionais para as matérias de comportamento que escrevo. Inúmeros “ólogos”, como dizemos na redação: psicólogos, antropólogos, sociólogos, sexólogos, etc. E cada vez mais reparo na dificuldade que eles têm para ouvir e na falta de interesse que têm pelos outros. Algumas vezes passo horas só escutando e eles nem percebem que não abri a boca, entro muda e saio calada e continuam falando. Fico até enjoada só de escutar o tom de suas vozes. Reclamam do governo, do patrão, da esposa ou do marido, dos filhos. Os que estão sozinhos reclamam que faltam homens e mulheres interessantes, como se eles merecessem alguém interessante. (...) É fácil perceber que se parassem de falar e ouvissem mais, prestassem atenção aos outros, se tornariam muito mais interessantes”.
Bom domingo a todos.
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