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quinta-feira, janeiro 13, 2011

De artistas e pulgas


Quem não viu no jornal pode ler aqui; eu que fiz. As fotos são todas minhas, menos essa de cima, com crédito para Artists and Fleas/Divulgação. Beijos.


Nova York guarda mil boas surpresas para quem se anima a pegar o metrô e sair de Manhattan. Uma delas fica em Williamsburg, no Brooklyn, onde há sete anos a dupla de empreendedores Amy Abrams & Ronen Glimer fundou o Artists and Fleas — Artist, Designer & Vintage Market. Ou, na tradução para o português, Artistas e Pulgas — Mercado de Artistas, Designers e Produtos Antigos.

Expressões como “pulgas” e “antiguidades” dão preguiça? Pois vale a pena deixá-la de lado para descobrir que, entre as peças de segunda mão, existe muita coisa sem cheiro de guardado e com charme capaz de despertar desejos consumistas.

O encanto se repete quando se observam as criações de artesãos, estilistas e designers em começo de carreira: há camisetas não encontradas em nenhum outro lugar, bijuterias dos materiais mais diversos (munições antigas, por exemplo), tops e vestidos para sair à noite, bolsas, cadernos e o que mais a imaginação da turma local permitir, tudo vendido a preços variados.

Em média, há 50 expositores por fim de semana, o suficiente para lotar o galpão onde a feira é realizada hoje, na North 7th Street, 70. “Esse número permite uma experiência de compra diversa e ao mesmo tempo intimista, acolhedora”, avalia Glimer, sem informar o total de dinheiro movimentado pela feira. “Não recolhemos as informações de venda entre os participantes”, justifica.

Outro detalhe bacana é que dificilmente o mercado tem a mesma cara em duas edições diferentes, porque os participantes quase sempre mudam. No entanto, quem precisa encontrar algum expositor — seja por arrependimento de não ter feito uma compra, seja por necessidade de trocar algum produto — que não esteja mais lá pode sempre achar os contatos no site.


Esse pequeno (mas agitado) encontro entre artistas, colecionadores de artigos vintage e consumidores começou em meio ao frio de dezembro de 2003, num barracão da North 6th Street, de onde o mercado já se mudou duas vezes.

À época, Williamsburg já tinha pinta de descolada, criativa e independente. Porém, ainda não era alvo da cobiça dos investidores imobiliários de Nova York. “Nosso antigo galpão foi transformado em um condomínio de luxo”, lembra Glimer. Foi nesse ambiente que a dupla de fundadores pensou em reunir artistas sem experiência em vendas e colecionadores com espírito empreendedor.

“Muito da nossa inspiração para começar foi tirada das nossas viagens pelo mundo e das visitas pelos mercados. Amy e eu sempre fomos fascinados pela cultura de mercados, tanto pela energia e vitalidade que existe neles quanto pelo fato de que, neles, você pode entrar em contato diretamente com outras pessoas. Não existem intermediários”, conta Glimer.

“Mercados são a melhor experiência democrática porque levam à interação entre pessoas que não poderiam se encontrar de outra forma.” Haja interação, aliás: a cada fim de semana, cerca de 2 mil visitantes passam pelo Artists & Fleas.

O feedback instantâneo desse público é um dos motivos que mais empolgam expositores como a estilista Nanako Miller, dona do próprio negócio há cinco anos e participante do mercado há um ano e dois meses. Ex-bailarina, a designer japonesa descobriu entre sapatilhas e figurinos de dança a vocação para criar uma moda delicada, repleta de tops e vestidos com fitinhas e rendas.

“Estar num mercado como esse permite que outras pessoas vejam nossas criações e deem retorno sobre vários elementos, como estampas ou cores. É importante saber o que encanta os consumidores, e o lugar atrai muita gente que ama moda, o que ajuda nas minhas criações futuras”, avalia. “O melhor é que não preciso gastar milhões de dólares para exibir meu trabalho”, completa.


Nanako refere-se a um aspecto crítico para qualquer um que queira empreender numa cidade como Nova York: o preço dos pontos no comércio. “A não ser que tenha uma grande reserva de dinheiro, você precisa dar conta sozinha dos impostos e de toda a despesa de manutenção. E, além disso, criar”, enumera a estilista, que vende entre 30 e 40 peças por fim de semana no Brooklyn.

Na região em volta do Upper East Side ou do Upper West Side, em Manhattan, por exemplo, o aluguel de uma loja pequena pode ficar em torno dos US$ 20 mil. “É uma soma irreal para uma artista em começo de carreira.”

No mercado, em compensação, cada expositor paga entre US$ 80 (o estande com 1,5m por 2,1m) e US$ 100 (o com 1,8m por 1,8m) por dia. Para participar, os interessados devem preencher uma ficha no site do mercado e devem obedecer a alguns critérios.

Ronen Glimer explica: “Procuramos expositores que façam o próprio trabalho ou tenham um olhar único como colecionadores de arte ou antiguidades. Não aceitamos artigos produzidos em série ou importados; nesse caso, recomendamos outros mercados que possam ser mais adequados a esses comerciantes”.

Mas casos de inadequação, segundo ele, são raros. “Acreditamos que o mercado em si sentencia definitivamente o que devemos ou não vender. Essa é a forma como os estabelecimentos funcionam no mundo todo e aqui também.

Aonde ir

Artists and Fleas
North 7th Street (entre a Wythe e a Kent), Williamsburg, Brooklyn
www.artistsandfleas.com
Abre aos sábados e domingos, das 12h às 20h.

Para chegar lá de metrô, pegue a linha L até Bedford Avenue (a primeira parada depois da saída de Manhattan), a G até a Metropolitan Avenue ou as linhas J/M/Z até a Broadway (no Brooklyn, também há uma avenida com esse nome). E-mail: info@artistsandfleas.com.



Veja também

“Williamsburg ainda tem muito do que apresentava nos anos 1990; há energia e intensidade. Não importa se são 15h de uma quinta-feira ou 3h de sábado, há pessoas nas ruas e coisas acontecendo”, define Ronen Glimer, fundador do Artists & Fleas. “A região tem de tudo para todo mundo: ótima gastronomia, bons bares, lojas e gente para observar”, prossegue ele, com conhecimento de causa. Conheça a seguir outros lugares para visitar antes ou depois de conhecer o mercado.



Bedford Cheese Shop
229 Bedford Avenue, Brooklyn; 718-599-7588 e 718-599-8644
www.bedfordcheeseshop.com

De segunda a sábado, das 11h às 21h; domingo, das 10h às 20h. Apaixonados por queijo hão de babar nesta loja, que reúne delícias feitas por produtores do mundo todo com leites de vaca, cabra e ovelha. No site, é possível conhecer cada um dos queijos e descobrir até o grau de “fedor” (stinkiness) de cada um.

Egg Restaurant
135 North 5th Street, Brooklyn; 718-302-5151
www.pigandegg.com

De segunda a quarta, das 7h às 18h; quinta, das 7h às 22h; sábado, das 9h às 23h; domingo, das 9h às 21h. A casa serve um brunch disputado no domingo; por isso, é bom chegar cedo. As receitas não têm mistério: muitas delas são feitas com ovos e carne de porco (como bacon). O segredo está na qualidade dos ingredientes, produzidos em fazenda própria.

McCarren Park
Entre a Avenida Nassau e as ruas Bayard, Leonard e North 12th
www.nycgovparks.org/parks/mccarrenpark

Com 144,5 mil hectares, o parque conta com gramados amplos; campos de basquete, handebol, futebol e tênis; pistas de corrida e espaço exclusivo para os cães brincarem sem coleira. Entre maio e julho, o McCarren também abriga uma edição especial, de verão, do Artists & Fleas.

Scandinavian Design House
167 North 9th Street, Brooklyn; 917-501-9190
www.scandinavianhouse.com

De terça a sábado, das 12h às 20h; domingo, das 12h às 18h; fecha às segundas. Os escandinavos estão na vanguarda mundial do design, e a loja dá uma boa amostra dessa produção. Utensílios domésticos e objetos de decoração compõem a maior parte do estoque.

sábado, julho 10, 2010

Vazou


Não sei quanto a vocês, mas eu só recentemente soube da existência do Wikileaks, uma página em que qualquer pessoa pode divulgar documentos secretos contendo material de denúncia.

Leak, em inglês, é o verbo que se usa para falar do vazamento de informações.

Vou fazer um comentário rápido e megassuperficial porque ainda preciso fuçar mais e, principalmente, porque estou na correria!

O sujeito publica o material ali... e vê quem será o primeiro jornalista a prestar atenção no caso.

Para quem tem uma denúncia a fazer, pode ser muito bom, porque os riscos de exposição e de ameaças diminuem consideravelmente.

Para quem está na mídia, pode ser sensacional ou péssimo. Agora, informações quentes teoricamente chegam mais rápido para todo mundo, mas o gosto de ter uma notícia exclusiva e um material único se esvai.

Sem contar que a possibilidade de anonimato torna o processo de verificação dos dados uma droga, e fica mais difícil responsabilizar alguém que divulgue uma bobagem.

A seção About Us do site garante que nunca foram publicados dados incorretos ali, mas nem por isso dá para confiar 100%, né?

Por ora, ele tem dado origem a umas histórias interessantes, como esta.

Em síntese, é o seguinte: nos Estados Unidos, um soldado foi acusado de vazar um vídeo em que colegas atiram em iraquianos civis como se estivessem brincando de videogame. Nessa brincadeira, mataram também um fotojornalista e o motorista que trabalhava com ele.

Desde então, nada mudou muito no jeito como o grande país do norte conduz a guerra. Em compensação, o militar vai responder a um processo quilométrico.

E acho que vêm aí mais uns mil casos como esse.

segunda-feira, abril 12, 2010

Margaret and me

A maratonista queniana Margaret Okayo, 34 anos, é um toquinho de gente: tem 1,52m de altura e um percentual de gordura corporal compatível com quem passa a vida correndo. Vencedora das maratonas de Nova York e Boston e da Corrida de São Silvestre (em SP), só para citar algumas, ela chama atenção também pela simpatia. Sorri muito, quase o tempo todo, enquanto conversa.

Talvez isso seja natural dela. Talvez seja pelo fato de adorar o Brasil. Já veio aqui várias vezes e passou por Brasília ontem, para correr a meia maratona da cidade. Achou o clima da cidade parecido com o de Nairóbi, capital do Quênia.

- Os brasileiros são tão legais, tão doces, nos tratam tão bem. Vir aqui é uma oportunidade boa de trocar idéias e absorver técnicas, os atletas da África adoram - contou.

Eu queria ter conversado mais com ela, mas foi difícil. Bem ao lado do camarote onde os atletas esperavam pela premiação (Margaret ficou em segundo, atrás da etíope Zelalem Bekele), um Dinho Ouro Preto wannabe berrava (conseguiu estragar This Love, do Maroon 5, que amo).

Apesar da barulheira, ainda consegui comentar que o Quênia e a África estão nos meus planos de viagem e quis saber como era ser mulher no país. Ela riu.

- Acho que é melhor você ir lá e ver com os próprios olhos - despistou.

No Quênia, estupros, casamentos forçados e mutilação genital são ameaças com que as mulheres aprendem a conviver desde pequenas. E o esporte, claro, representa uma chance de ter uma vida um pouco melhor.

- Vá mesmo - insistiu ela.

Eu vou, Margaret. Apareço lá em Nairóbi qualquer hora dessas.

terça-feira, março 30, 2010

Adoro jornais populares


Eu colocaria legendas identificando as pessoas da capa -- se bem que quem lê esse jornal deve saber de cor e salteado quem são os personagens das fotos.

Fora isso, acho essa capa uma delícia, especialmente a manchete do Ricky Martin.

quinta-feira, agosto 27, 2009

Top clichês

Dos textos de viagem:

- Águas cristalinas
- Vegetação exuberante
- Povo hospitaleiro

A-do-ro!

quarta-feira, julho 29, 2009

Pára tudo


Depois de circular pelo jet set, acho que vou sair na Caras. É sério.
Ou pelo menos fiquei acreditando nisso depois que um amigo escreveu no meu Facebook:
- Aguarde Caras!!!!!!!!!!!
O que fiz exatamente? Bom, infelizmente não me pediram para falar do blog (droga), nem do meu momento de vida, nem me convidaram a mostrar as lindas reformas da portaria lá do bloco. Provavelmente vou estar na revista porque fui a um evento profissional, porque havia uns fotógrafos lá documentando e porque, devido a alguma razão inexplicável, não saí correndo como normalmente faço (jornalista não é notícia, ora).
Como a gente nunca faz esse tipo de coisa sozinha, garanti que pelo menos estaria com outras pessoas na foto. Tipo o Lula Lopes, que é um fofo e uma figura, e foi também quem me deu a notícia da nossa (hehe) celebridade.
Vai sair em que parte da revista? Ah, sei não.
Você não compra nem assina Caras? Não se preocupe. Daqui a uns oito meses, quando estiver fazendo as unhas, é bem provável que ainda consiga ver as imagens daquele dia.

segunda-feira, junho 29, 2009

Sabe translineação?

Lembra de quando a tia da escola ensinou a fazer translineação? É aquela separação de sílabas necessária quando você está escrevendo algo e vê que, embora a margem do papel já tenha terminado, a palavra não acabou ainda. E, portanto, ela precisa ser continuada na linha seguinte.

Quem trabalha com revisão de texto em veículos impressos toma um cuidado danado -- ou deveria tomar -- com a translineação de alguns termos. As minhas preocupações consistem na palavra disputa e em todas que comecem com c+u: curioso, cúpula, Cuba e por aí vai.

Alguém me disse em algum momento que leitor tem duas reações quando vê que o revisor dormiu num desses casos. A primeira é dar aquele risinho safado. A segunda é ficar indignado, entrar em contato com o veículo de comunicação, etc., etc., etc. Como não gosto sequer de pensar em nenhuma das duas possibilidades, redobro o cuidado na leitura das margens do papel.

E minha última frase antes de mandar qualquer página para a gráfica é normalmente algo do tipo: "Deixa só eu ver se não ficou nenhum c+u nem nenhuma dis-puta no texto". Isso virou uma espécie de piada minha e de quem trabalha mais perto.

Vou te contar: nunca, mas nunca de verdade, eu vi c+u nem dis-puta em nenhuma página que li.

Não que eu não tenha procurado: eles jamais apareceram mesmo. Quer dizer, jamais apareceram até a semana passada.

Num dia em que estava eu linda, loira e japonesa lendo umas páginas quaisquer, minhas translineações tortas favoritas surgiram plenas e reluzentes. Não no mesmo texto -- aí já seria loucura demais. Era c+u numa página, dis-puta na outra. A caneta foi voando marcar as sílabas que deveriam ser corrigidas.

Obviamente, eu e o diagramador (que monta as páginas para publicação) fizemos piadinhas a respeito da dupla descoberta. Não é reconfortante saber que certas preocupações têm a sua razão de ser?

sábado, junho 27, 2009

Piadinhas dos velhos tempos


De vez em quando, amigos com mais tempo de jornalismo que eu adoram contar histórias de quando as redações eram maiores e mais pândegas. Algumas delas me deixam pensando como é que as pessoas arrumavam tempo para fazer coisas básicas como escrever, revisar, diagramar e cia. enquanto tocavam a zona.

Não sei se esse tipo de coisa acontece em outros ambientes profissonais porque a minha experiência fora de redação inclui apenas dois escritórios supersérios e uma escola de inglês (onde eu passava mais tempo com os alunos do que com qualquer companheiro de trabalho). Vocês podem esclarecer a minha dúvida deixando um comentário logo ali. Agora, vamos aos truques das novas/velhas redações, companheiros.

Fulano de tal? É aquele ali, ó
É o seguinte: profissional novo pergunta ao colega veterano quem é o Fulano de Tal. Colega veterano aponta uma pessoa nada-a-ver-com-nada e manda o novato ir lá falar com ela(e). A tal pessoa nada-a-ver-com-nada poderia, a depender da própria personalidade:

a) Ficar titica da vida;

b) Encarar numa boa e apontar quem seria, na verdade, o Fulano de Tal correto;

c) Entrar na brincadeira e apontar uma outra pessoa nada-a-ver-com-nada como o sujeito a quem o novato estava de fato procurando.

Novato sofre, né não?

O Fulano de Tal é aquele ali. Cuidado, que ele é supergrosso
Essa é quase autoexplicativa, né? Quem é crédulo (ou medroso) e ouve uma dessas chega perto do outro falando fininho e quase pedindo desculpas por existir. Normalmente, o grosso em questão é um superquerido ou um fanfarrão (às vezes, os dois).

Fala bem alto com o Fulano de Tal porque ele é surdo
Essa também é autoexplicativa. Pense na quantidade de gente que não deve ter ouvido uns gritos proferidos por focas em todo o mundo...

Outras histórias - de pandeguice nas redações e de bom e mau jornalismo - estão em O Repórter e o Poder, de José Carlos Bardawil. Divertidíssimo sob um monte de aspectos, o livro inspirou esse post.

quarta-feira, junho 17, 2009

A imprensa e o absurdômetro

Cal McAffrey é um jornalista tosco e algo antiquado, porém brilhante. Entre seus hábitos de repórter, estão usar o próprio carro para apurar matérias e beber um uísquezinho na redação ("vinho irlandês", ele diz) para relaxar.

Cal McAffrey é o personagem de Russell Crowe em Intrigas de Estado, que estreou aqui em Brasília na última sexta-feira e reflete sobre a promiscuidade nas relações entre a imprensa e o poder. Gostei, mas não vou tecer grandes análises aqui porque elas já foram feitas por uns mil colegas.

Prefiro falar de outro tema sobre o qual sempre quis escrever aqui: a total inverossimilhança dos personagens jornalísticos na maior parte das obras de ficção. Pode ser que algum dia tenha sido normal fumar ou beber (como faz McAffley) dentro das redações, mas hoje o negócio não é bem assim.

Você vai me dizer: ora, Mari, se você quer verossimilhança, veracidade ou qualquer outra dessas coisas, assista a um documentário ou corra de volta para o trabalho. A intenção aqui, no entanto, não é execrar totalmente (hehe) as obras de ficção, mas sim apontar o quanto pode ser divertido reparar em certos absurdos. (Médicos e enfermeiros devem pensar nisso também quando assistem a programas como ER e outros.)

Por isso, vou lembrar de alguns personagens que impactaram o meu absurdômetro. Adoraria botar imagens aqui, mas o tempo está supercurto. Farei isso quando tiver mais uma folga.

Carrie Bradshaw, de Sex and The City
Vamos lá: na primeira temporada da série, Carrie tem uns 33, 34 anos, se não me engano. E já ganha uma grana suficiente para comprar sapatos carésimos apenas escrevendo coluninhas semanais rédéculas sobre sexo no jornal The New York Star. Os textos não têm nada de pesquisa, só falam da própria vivência afetiva da moça. Nas temporadas seguintes -- não sei se algum fã andou questionando o fato dela trabalhar de menos --, os roteiristas inventaram uns frilas para a moça, inclusive na Vogue. Mas, ainda assim, nunca foi possível dizer que ela pertencesse ao rol dos jornalistas estressados. E, claro, a série nem sequer mostra como ela fez para chegar a tal nível de estrelato.

Maddie Bowen, de Diamantes de Sangue
A personagem de Jenniffer Conelly provocou, pelo menos na sessão em que assisti ao filme, uma série de gargalhadas por parte da galera. Para quem não viu, deixa eu dar uma resumida: a moça é correspondente de uma revista importante (tipo a Time) em Serra Leoa e foi para lá a fim de investigar o esquema de tráfico de diamantes que rolava no país. Mais: era uma das últimas profissionais da imprensa estrangeira a permanecer (so-zi-nha) ali depois que a situação apertou.
Quando ela conhece um gatinho oportunista (Leonardo di Caprio) e um garimpeiro, encontra os grandes personagens de sua matéria. Antes disso, ela já havia feito coisas do tipo cobrir a vida dos talibãs no Afeganistão sozinha e sem burca. "Voltou com 3 mil palavras e mais linda do que nunca", diz um cinegrafista ao personagem de Di Caprio. Aliás, os diálogos do filme são fantásticos. As tais risadas despontaram na sala depois de uma explosão nervosa da moça, que diz algo do tipo: "Eu não vou descansar enquanto souber que, toda vez que um americano compra um anel de diamante, vidas estão se perdendo. Quero nomes, números, contas bancárias!". Ah, Jennifer Connelly...


Andie Anderson, de Como Perder um Cara em 10 Dias
É até sacanagem querer alguma veracidade num filme como esse, mas tudo bem. Me pareceu um exemplo perfeito de como o jornalismo é avacalhado nos filmes de Hollywood -- e, pior, é capaz de ter gente acreditando que a profissão é assim mesmo. A mina trabalha numa revista bem mulherzinha e é especializada em elaborar listas (como deixar seu cabelo perfeito, como perder um cara em 10 dias, etc.). Claro que ela faz isso contra a vontade, porque seu desejo é se tornar uma correspondente internacional. E aí, entre uma matéria fútil e outra, ela faz uma matéria edificante sobre as dificuldades do povo do Tajiquistão... sem nunca sair da redação climatizada em Nova York, naturalmente. E espera que a editora publique. Oh, céus.

Se alguém se lembrar de mais algum caso de filmes, novelas, séries, etc., fique à vontade para comentar.

terça-feira, abril 28, 2009

Posso voltar no tempo?

Sempre que leio os textos de divulgação sobre as duas seleções abaixo, dá uma vontadinha de voltar no tempo. Ou de ser de outra época -- uma vez que os concursos foram criados quando eu já não era mais uma pessoa escolar. Vejam só:

* Estão abertas desde 24 de março e até 29 de junho as inscrições para o 5º Concurso Universitário de Jornalismo CNN. O tema deste ano é “O uso da tecnologia no desenvolvimento social.” (Nota da Mari: tema ótimo e com mil possibilidades de recorte, superfácil, minha gente) Este ano, o estudante poderá produzir quantas matérias quiser e enviar o vídeo de até 2 minutos pelo YouTube.O concurso é válido somente para estudantes de jornalismo.O ganhador conhecerá os estúdios da CNN International, além de ter sua matéria exibida pelo canal. As inscrições podem ser feitas no site http://www.concursocnn.com.br/. Há também um blog do concurso: http://www.concursocnn.com.br/2009/blog (podia ter atualizações mais regulares, mas apresenta textos com temas interessantes).

* A Embaixada dos Estados Unidos no Brasil abriu as inscrições para o programa Jovens Embaixadores 2010, que vai levar 35 estudantes para três semanas de mil atividades na terra de Barack H. Obama. As despesas são todas pagas. Para participar, é preciso ter de 15 a 18 anos (xi, tô velha), estudar em escola pública (pô, eu estudei), ter fluência em inglês e participar há pelo menos um ano de algum programa de responsabilidade social. Tá na dúvida se é uma oportunidade boa ou não, se se inscreve ou compra uma bicicleta? Bem, você tem até o dia 12 de agosto para pensar. Mais informações aqui.

(Como é bom ser uma mulher novamente conectada à internet!)

segunda-feira, março 02, 2009

O Fotógrafo

Obs.: se der tempo, eu coloco fotos relacionadas a este post mais tarde.

Usar fotogramas para ilustrar qualquer coisa relacionada ao mundo da fotografia é um tremendo dum clichê. Mas, em O Fotógrafo, livro-reportagem em quadrinhos assinado por Didier Lefèvre (cliques), Emmanuel Guibert (texto e desenhos) e Frédéric Lemercier (diagramação e cores), trata-se de um clichê totalmente perdoável. Eles emolduram uma série de imagens que, combinadas com as ilustrações de Guibert, ajudam a relatar a jornada única – de descoberta, paixão, dor e transcendência – de um profissional que topa acompanhar uma equipe do Médicos Sem Fronteiras (MSF) do Paquistão ao Afeganistão, em 1986.

A história começa com a chegada de Lefèvre (1957-2007) a Karachi e é marcada por um recurso intrigante: na quarta página do relato, entre ilustrações e fotos, três quadrinhos apresentam o título da obra e os nomes dos autores, como se aquilo fosse um filme, e não um livro. Se O Fotógrafo será realmente transposto para as telas, não dá para saber ainda, mas fica claro que existe essa intenção. Se quadrinhos tivessem som, daria até para ouvir a trilha sonora composta para tocar enquanto carroças e muita gente circulam pelas ruas da capital paquistanesa enquanto rolam os créditos.

Durante aquele ano em que a ocupação afegã por parte da URSS ainda vigorava (durou de 1979 a 1989), atravessar a fronteira para levar cuidados médicos aos camponeses não era bolinho. Liderada por uma mulher, Juliette, e escoltada por um tradutor, por inúmeros mudjahedin (combatentes islâmicos que lutaram contra os soviéticos), por 100 burros e 20 cavalos, a equipe caminha durante um mês. Enfrenta o frio glacial e a altitude em desfiladeiros perigosos, onde o risco de queda (ou, no mínimo, de torção do tornozelo) existe a todo instante. Abre mão de luxos como refeições completas, banho e papel higiênico – esse último, interpretado pelas tropas russas como um sinal de presença ocidental no lugar. E, finalmente, chega à aldeia de Zaragandara, a um hospital de guerra que o fotógrafo custa a reconhecer como tal, tamanha a simplicidade do lugar.

Somente no segundo volume da obra a adrenalina da longa caminhada é substituída pela do atendimento aos pacientes. Doenças e acidentes domésticos comuns são intercalados com o sofrimento do guerreiro que perde um dos olhos num incidente algo patético e da moça que fica paraplégica quando um estilhaço de bomba se aloja na coluna, entre outras histórias. Lefèvre e Guibert acertam no tom de sobriedade e em deixar que os casos falem por si. Há pouquíssimo choro, discretos aplausos do fotógrafo ao trabalho corajoso dos colegas (um deles chega a revelar verdadeira paixão por cirurgias feitas em condições sanitárias mínimas) e, o mais importante: imagens que preservam a dignidade dos atendidos e não causam asco em quem as vê.

A saga de Lefèvre e dos bravos doutores em Zaragandara, Afeganistão, parece terminar no segundo tomo – mas, no final deste, ainda descobre-se que há um pouquinho mais de história para acontecer. Ela fica para o terceiro livro, que ainda não foi lançado pela Conrad no Brasil. A quem leu os dois volumes em duas sentadas (leia-se: esta blogueira) só resta esperar que ele venha rápido. Muito rápido!

O FOTÓGRAFO – Volumes 1 e 2
Por Didier Lefèvre, Emmanuel Guibert e Frédéric Lemercier. De R$ 92 por R$ 59,80 na loja virtual da Editora Conrad.

Ah! Clicando aqui você lê outro texto, feito em fevereiro de 2008, sobre a história em quadrinhos (acesso exclusivo aos assinantes do Correio Braziliense).

domingo, fevereiro 01, 2009

Infiel: Notas de uma Antropóloga

Entre os tantos livros que estão na pilha do escritório para eu terminar algum dia, está Infiel: Notas de uma Antropóloga, que ganhei e comecei a ler numa noite sem sono. Apesar de ser bem escrito e permitir uma leitura rápida, o livro não é assim, superfantástico, porque foi feito, entre outras coisas, para mostrar a repercussão que suas obras anteriores (A Outra e De Perto Ninguém é Normal, entre outros) tiveram na imprensa. Até o momento, acho que ela se prolonga demais ao apresentar as reportagens que mereceu e, por isso, também espaça demais o melhor da obra, que é o relato de Mônica (nome fictício).

Trata-se de uma jornalista, que, depois da infância difícil, tornou-se independente, madura, cheia de borogodó, com vários casos, namorados e rolos e um único amor. Não sei como a história dela termina. E digo: o que mais que impacta no depoimento de Mônica não é a maneira como ela descreve o pai violento, a vinda para a cidade grande, as coisas que viveu na profissão e nem os muitos homens que teve. É o trecho que reproduzo abaixo, sobre um tema que tem me cutucado tanto que não pude deixar de compartilhar neste blog.

“Como jornalista, sei a dificuldade que as pessoas têm para ouvir. As pessoas, em geral, adoram falar sobre si mesmas e prestam muito pouca atenção no que os outros dizem. Fico impressionada, pois até os psicanalistas que entrevisto falam muito mais do que escutam. Eles já têm idéias preconcebidas sobre tudo e desatam a falar, sem nem mesmo prestar atenção às perguntas que faço. Tenho entrevistado, nos últimos anos, inúmeros profissionais para as matérias de comportamento que escrevo. Inúmeros “ólogos”, como dizemos na redação: psicólogos, antropólogos, sociólogos, sexólogos, etc. E cada vez mais reparo na dificuldade que eles têm para ouvir e na falta de interesse que têm pelos outros. Algumas vezes passo horas só escutando e eles nem percebem que não abri a boca, entro muda e saio calada e continuam falando. Fico até enjoada só de escutar o tom de suas vozes. Reclamam do governo, do patrão, da esposa ou do marido, dos filhos. Os que estão sozinhos reclamam que faltam homens e mulheres interessantes, como se eles merecessem alguém interessante. (...) É fácil perceber que se parassem de falar e ouvissem mais, prestassem atenção aos outros, se tornariam muito mais interessantes”.

Bom domingo a todos.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Pedaços de apuração

No Pedaços de Apuração, pretendo mostrar as histórias que não saíram na reportagem por total falta de espaço. Hoje, apresento o depoimento de Acácio Costa Calil, mineiro, professor de geografia da rede pública do Distrito Federal e sócio – junto com a irmã, Lucimar – do Pamonhão Kalú (assim mesmo, com acento). O misto de restaurante e lanchonete, que nasceu para ser especializado em produtos de milho, é um dos poucos de Brasília que conseguem se manter há mais de 30 anos. Detalhe para quem não veio aqui ainda: fundada há 48 anos e nove meses, a cidade tem um mercado gastronômico volátil, em que muitos lugares abrem e fecham em pouco tempo.

Descobri a coxinha de milho produzida lá durante a pesquisa para uma reportagem publicada nesta sexta-feira. Custa R$ 2,50 e vem quentinha. Tem recheio farto, com milho comum (e não o de lata, que tem sabor totalmente diferente), um pouco de frango desfiado e cebolinha numa quantidade mínima (nem precisei catá-la, hehe). O sabor surpreende porque o tempero é feito para valorizar o grão. Sei, no entanto, que muita gente vai resistir a experimentar por conta da atmosfera da casa. Digamos que o Kalú não é exatamente um lugar para levar um gato ou uma gata num primeiro encontro. Digo mais: a dupla de irmãos se beneficiaria tremendamente se pusesse tudo abaixo e fizesse um lugar moderninho e descolex especializado em coxinhas de milho.

A história contada pelo Acácio é bacana porque revela um pouco o que era viver em Brasília e no Brasil nos anos 1970, época de fundação do restaurante.
Se o Edilson me mandar fotos do salgado, eu ponho no ar mais tarde.

“A coxinha de milho é uma receita que minha mãe, Luzia - que infelizmente não vive mais - criou em fevereiro de 1973. Naquele tempo, Brasília quase não tinha opções de lazer. Primeiro, havia o Conjunto Nacional, que era exclusivamente para fazer compras. Aliás, o Conjunto, que hoje é enorme, teve três fases de expansão. Além dele, havia o Gilberto Salomão, o Beirute, o Pamonhão, o Food’s - também na 110 Sul – e só.

Nosso cardápio tinha pamonha, curau e milho cozido. Depois, minha mãe pensou em fazer coxinha, um petisco servido em todos os bares. E pensou: ‘Minha especialidade não é milho? Então, vou botar milho na coxinha’. No primeiro dia, ela não vendeu nenhuma. Meu pai, libanês criado em Minas, brigou tanto com ela... Dizia: ‘Desde quando milho tem coxa?’.
Mas dona Luzia, que era goiana e conheceu meu pai em Minas, era persistente. No segundo dia, ela fritou um monte e resolveu que ia distribuir para quem fosse lá comprar outras coisas. As pessoas começaram a achar gostoso e a comprar.

A massa é a tradicional de coxinha, não muito grossa, e o recheio tem milho, frango e cebolinha. Nunca mexemos na receita. Quem comeu há 20, 30 anos, e experimentar hoje vai sentir o mesmo sabor. E o preço sempre variou entre US$ 1 e US$ 1,20. Cotamos assim, em dólar, porque quando meus pais montaram a loja a inflação era muito alta e a moeda mudava a toda hora.

O milho vem de Nerópolis, em Goiás, de uma fazenda de produção irrigada que fornece só para nós durante o ano inteiro, inclusive na entressafra. O curioso é que, quando o Pamonhão começou, era difícil ter milho o ano inteiro, porque a produção irrigada só se popularizou lá pelo fim dos anos 70 e nos anos 80. Antes disso, quando chegava junho, julho ou agosto, a gente tinha de fechar por pura falta de milho e dar férias coletivas. Uma vez, em 1974, ficamos 30 ou 40 dias sem. Foi por isso que resolvemos diversificar o cardápio.

Na época, o Pamonhão ficava na 110 Sul, em frente ao Beirute, e era um point de fim de noite. Só fechava junto com o Beirute – se ele quisesse fechar às seis da manhã, a gente agüentava até lá. E muita gente da música de Brasília passou por aqui. O Digão, dos Raimundos, adorava a coxinha; os meninos do Capital Inicial vinham também, assim como o Oswaldo Montenegro. Aliás, há muitos anos que o Montenegro me deve uma conta”.

PAMONHÃO KALÚ
105 Norte, Bloco D, Loja 3; 3273-7967. De terça a domingo, das 11h30 às 23h.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Todos querem ver Gisele

Coisas que só um dia de folga de plantão pode proporcionar: cozinhar, dormir depois do almoço e poder ver tudo o que eu quiser na tevê. Fiquei com o GNT Fashion sobre a São Paulo Fashion Week (SPFW), que está para mim como a Copa do Mundo está para os fãs de futebol. Anunciava-se, além dos desfiles, uma entrevista exclusiva com a mega-über-top-model-plus Gisele Bündchen, cada vez mais linda e magra, que desfilou três roupitchas para a Colcci (a marca é uma bobagem, na minha opinião; o desfile, idem; mas como a moça vem, todo mundo fica doido).

A maior parte das reportagens de tevê feitas com a moça é anunciada assim: primeiro, faz-se a chamada por uns quatro ou cinco blocos para segurar a audiência (todos querem ver Gisele). Depois, exibe-se o material, que normalmente é pífio, pois são tantos os assuntos proibidos que torna-se difícil elaborar uma lista decente de perguntas. Resultado: é muito difícil ver a modelo falar qualquer coisa que preste. Não é que ela seja burra (se fosse, não teria vencido como venceu) ou pouco eloquente (sei lá, não a conheço pessoalmente). Mas é uma entrevistada quase impossível, pelo que já vi até hoje. Ninguém é perfeito.

Tanto isso é verdade que a tal da exclusiva que a modelo deu para o GNT Fashion não era exatamente uma entrevista (infelizmente, não achei o vídeo no Youtube). Estava mais para um bate-papo como o de duas colegas que se encontram no banheiro do trabalho, sabe como é? Gisele não tem certeza de quem é Carmen Miranda, homenageada da SPFW ("É a das bananas?", perguntou) e também não sabe quem ela gostaria que desenhasse seu vestido de casamento (esse "não" eu até entendo, é para evitar especulações). Também revelou (uh! emoção) que tem dois iPods, um para música brasileira e outro para internacional. E que, no de repertório estrangeiro, o campeão de audiência tem sido John Mayer (pelo menos, tem bom gosto).

A entrevistadora ainda mencionou uma pesquisa que fez no Google e no Youtube para ver quantas menções havia para o nome "Gisele Bündchen¨. E quis saber se ela já havia feito o mesmo. A top garantiu que não. "Tem muita coisa? É coisa boa ou ruim?", respondeu. Fiquei especulando o que eu perguntaria se tivesse reportagem para fazer com a Gisele.

Minha reação suspirante à não-entrevista em questão foi procurar na internet coisas interessantes que já tenham sido veiculadas com a top falando. Descobri que ela se sai melhor em pautas (pautas?) bobinhas, que não exijam perguntas espinhosas e que, portanto, não a ponham em condição de vulnerabilidade. Achei um vídeo aqui e outro aqui. Também encontrei essa tentativa da revista GQ americana de fazer um trabalho mais sensual -- em termos de imagens e de texto também. A reportagem está em inglês e permite perceber como o repórter suou -- não só diante da visão da musa de underwear, mas também para transformar aquele fiapo de entrevista em um material digno de leitura. Recomendo.

Passar horas procurando por material sobre Gisele só para escrever no blog... taí outra coisa que só um dia de folga pode proporcionar. :-)