Escancaradas por um vestido frente-única, as gordurinhas das costas da moça formaram uma dobra polpuda no momento em que encostaram no banco da igreja.
Era um dia de casamento. Templo cheio. Um mundo de olhos vidrados nos noivos.
Todos, menos dois: os do convidado que se sentava logo atrás e parou de fotografar a cerimônia para se concentrar unicamente, por um instante, no montinho de carne à sua frente.
Ele foi rápido. Mirou na dobra, esperou a luz verde no visor e, na impossibilidade de afundar os dedos em seu objeto de desejo, apertou demoradamente o botão da máquina.
Mais tarde, o fotógrafo levou a imagem foi da câmera para o computador, do computador para a impressora e da impressora para uma parede repleta de pequenos fetiches. Todos clicados assim, quase no susto, sem que ninguém em volta reparasse.
Já sem o terno do casamento, ele fez um estrago diante de sua mais nova aquisição.
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quinta-feira, dezembro 16, 2010
sábado, novembro 20, 2010
Lourão
A gente sabe que os bichos estão ficando velhinhos quando o pêlo original vai sendo aos poucos substituído por um de cor branca, certo?
Pois o labrador amarelo que parou bem na minha frente no café tinha o rosto todo claro, como se tivesse mergulhado em giz.
Entrado em anos, mas serelepe, mais ou menos como os bípedes que circulam ali entre Copacabana e o Leme. Quem conhece bem o Rio sabe do que estou falando. ;-)
Coisa linda de meu deuzi!
Fez das pedras portuguesas molhadas -- e cheias de gente -- a sua cama. Ao mesmo tempo, não parou quieto: levantou e abanou o rabão para crianças e adultos que passassem por ali para fazer um afago.
Deve ter ficado ali quase 10 minutos, completamente na sua, até que a dona (uma moça bronzeada e de cabelos aloirados, com a barriga pulando entre a calça jeans e o casaco justos) veio, chamando-o no falso inglês relax dos surfistas:
- E aí, Lourão? Vamo lá?
E Lourão, que não é mané, foi, claro.
Pois o labrador amarelo que parou bem na minha frente no café tinha o rosto todo claro, como se tivesse mergulhado em giz.
Entrado em anos, mas serelepe, mais ou menos como os bípedes que circulam ali entre Copacabana e o Leme. Quem conhece bem o Rio sabe do que estou falando. ;-)
Coisa linda de meu deuzi!
Fez das pedras portuguesas molhadas -- e cheias de gente -- a sua cama. Ao mesmo tempo, não parou quieto: levantou e abanou o rabão para crianças e adultos que passassem por ali para fazer um afago.
Deve ter ficado ali quase 10 minutos, completamente na sua, até que a dona (uma moça bronzeada e de cabelos aloirados, com a barriga pulando entre a calça jeans e o casaco justos) veio, chamando-o no falso inglês relax dos surfistas:
- E aí, Lourão? Vamo lá?
E Lourão, que não é mané, foi, claro.
terça-feira, novembro 16, 2010
Caninos
Sentar-se num café num dia de chuva, numa mesa bem em frente à rua, para olhar o movimento enquanto se toma um capuccino quentinho pode ser uma coisa espetacular quando se está numa cidade tipo Paris ou Buenos Aires.
E no Rio de Janeiro, é bom? Talvez... mas não é bem o que eu esperava fazer na manhã de sábado que passei lá.
Rio pede biquíni, e não blazer preto. Pede protetor solar FPS 50, chá mate gelado e bixxxxxcoito Globo! U-hu!
Mas, se a vida me deu um capuccino, e ele ainda por cima é quente, docinho e em grande quantidade, vou fazer cara de nojinho? Lógico que não.
Na frente do meu café tinha uma fila enorme formada por gente querendo apostar na Mega-Sena. Taí: observar os cariocas e sua vida de bairro é muito bom. Não tem nada a ver com o meu cotidiano daqui, de modo que qualquer movimento de cena se torna delicioso.
Em dois momentos, pararam os pets mais diametralmente opostos do universo: aquele que vou chamar de A Chihuahua Preta Mais Marrenta do Mundo (ou CPMM, para facilitar os trabalhos) e o labrador velhinho mais serelepe da face da Terra, que vai ganhar um post só para ele.
CPMM é um desses bichos inadequados para a vida em sociedade: não pode ver nada que não seja a própria a dona, pois começa a latir de forma ensandecida enquanto mostra os minicaninos afiados.
Ela tem algo de ridículo, pois, embora seja um limão em forma de cachorro, desfila pelo Rio com lacinhos e roupinha de retalhos florais por cima da coleira peitoral.
E a cada vez que ela late, a dona (que exibe um cabelo chanel escovado em forma de capacete) levanta-a pela coleira, transformando CPMM em um cão voador.
O estado de marra da dita cuja ficou ainda pior quando um menino de uns 8 anos, muito bonitinho, se aproximou querendo brincar.
Vamos deixar claro, em primeiro lugar, que a brincadeira dele não era muito inteligente: consistia em apontar dois dedos em direção à bichinha, como se quisesse furar seus olhos.
Pressentindo que o negócio ia dar merda, a dona da CPMM a fez dar um último voo espetacular em direção ao seu colo. Segundos depois, a mulher abaixou o rosto e deixou a mostra os olhos por trás dos óculos estilo Jackie Onassis.
Lentamente, e com um sotaque carioca muito forte, a dona disse:
- Ela morrrrrrrrrrrde.
Preciso dizer que o moleque saiu chutado?
E no Rio de Janeiro, é bom? Talvez... mas não é bem o que eu esperava fazer na manhã de sábado que passei lá.
Rio pede biquíni, e não blazer preto. Pede protetor solar FPS 50, chá mate gelado e bixxxxxcoito Globo! U-hu!
Mas, se a vida me deu um capuccino, e ele ainda por cima é quente, docinho e em grande quantidade, vou fazer cara de nojinho? Lógico que não.
Na frente do meu café tinha uma fila enorme formada por gente querendo apostar na Mega-Sena. Taí: observar os cariocas e sua vida de bairro é muito bom. Não tem nada a ver com o meu cotidiano daqui, de modo que qualquer movimento de cena se torna delicioso.
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Em dois momentos, pararam os pets mais diametralmente opostos do universo: aquele que vou chamar de A Chihuahua Preta Mais Marrenta do Mundo (ou CPMM, para facilitar os trabalhos) e o labrador velhinho mais serelepe da face da Terra, que vai ganhar um post só para ele.
CPMM é um desses bichos inadequados para a vida em sociedade: não pode ver nada que não seja a própria a dona, pois começa a latir de forma ensandecida enquanto mostra os minicaninos afiados.
Ela tem algo de ridículo, pois, embora seja um limão em forma de cachorro, desfila pelo Rio com lacinhos e roupinha de retalhos florais por cima da coleira peitoral.
E a cada vez que ela late, a dona (que exibe um cabelo chanel escovado em forma de capacete) levanta-a pela coleira, transformando CPMM em um cão voador.
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O estado de marra da dita cuja ficou ainda pior quando um menino de uns 8 anos, muito bonitinho, se aproximou querendo brincar.
Vamos deixar claro, em primeiro lugar, que a brincadeira dele não era muito inteligente: consistia em apontar dois dedos em direção à bichinha, como se quisesse furar seus olhos.
Pressentindo que o negócio ia dar merda, a dona da CPMM a fez dar um último voo espetacular em direção ao seu colo. Segundos depois, a mulher abaixou o rosto e deixou a mostra os olhos por trás dos óculos estilo Jackie Onassis.
Lentamente, e com um sotaque carioca muito forte, a dona disse:
- Ela morrrrrrrrrrrde.
Preciso dizer que o moleque saiu chutado?
terça-feira, setembro 21, 2010
Contos do siso - Panorâmica
Primeiro, livre-se de tudo em você que contenha metais: presilhas de cabelo, brincos, piercings, correntinhas e anéis. Deixe de lado também aquele elástico de cabelo com aquela pecinha safada de metal. Tudo isso atrapalha.
Ponha-se de frente para o aparelho de raios-x, na distância exata entre você e ele. Segure as duas mãos nas barras. Um passinho para a frente, por favor. Não, não é necessário pular ou ficar na ponta dos pés para alcançar o apoio de queixo. Ele vem até você.
Próximo passo: morda o palitinho. Assim não, pô. Um pouco mais para a direita. Está vendo essa linha de luz vermelha? Ela tem que passar bem no meio do seu nariz. Isso.
Agora, coloque a ponta da língua no céu da boca e respire normalmente (?!). A partir deste momento, é proibido mexer, engolir saliva e -- principalmente -- passar mal de rir do patético que é se ver de cabelo bagunçado, nariz listrado e palitinho na boca em frente ao espelho da máquina.
Se você sobreviveu a essa maluquice, parabéns. Em pouco tempo, terá uma linda radiografia panorâmica em mãos. Pode ir para casa e escrever o seu post. Está liberada.
Ponha-se de frente para o aparelho de raios-x, na distância exata entre você e ele. Segure as duas mãos nas barras. Um passinho para a frente, por favor. Não, não é necessário pular ou ficar na ponta dos pés para alcançar o apoio de queixo. Ele vem até você.
Próximo passo: morda o palitinho. Assim não, pô. Um pouco mais para a direita. Está vendo essa linha de luz vermelha? Ela tem que passar bem no meio do seu nariz. Isso.
Agora, coloque a ponta da língua no céu da boca e respire normalmente (?!). A partir deste momento, é proibido mexer, engolir saliva e -- principalmente -- passar mal de rir do patético que é se ver de cabelo bagunçado, nariz listrado e palitinho na boca em frente ao espelho da máquina.
Se você sobreviveu a essa maluquice, parabéns. Em pouco tempo, terá uma linda radiografia panorâmica em mãos. Pode ir para casa e escrever o seu post. Está liberada.
quarta-feira, julho 22, 2009
Cocho
Na escola, em frente à cantina, havia uma pia coletiva apelidada de cocho por causa de seu formato. Ela era igualzinha a um desses comedouros usados para animais. Das torneiras, jorrava uma água permanentemente fria, qualquer que fosse a época do ano.
Paulo sabia exatamente o que o líquido naquela temperatura provocava no corpo. Desde que havia mudado de escola, não tinha passado um 5 de outubro sequer sem receber o que os colegas chamavam de "homenagem". Primeiro, uma sessão de ovada com tinta e farinha. Depois, mergulho no cocho. Coisa de menino de quinta série.
Houve, porém, um dia em que o garoto tomou banho sem que fosse seu aniversário. Foi no dia em que escreveu na mão esquerda tudo o que queria dizer para Sofia. Ela estudava três salas à direita da dele e andava com as nerds de vez em quando, mas era até bem bonitinha.
A cagada de Paulo foi não ter ido direto falar com Sofia assim que o sinal do recreio tocou. Ao invés disso, ele foi à cantina comprar chicletes, tic-tacs ou qualquer outra coisa que lhe garantisse o hálito de hortelã na hora de conversar com a menina. No meio da muvuca no balcão, não notou que os colegas maiores armavam emboscadas para os magrinhos como ele.
Para Paulo, reservaram um gesto simples: alguém foi lá e abaixou o elástico da bermuda até os joelhos. Quando olhou para trás e viu quem fez isso, virou bicho. Esqueceu Sofia e os tic-tacs. Logo percebeu que ia ter de brigar sozinho com mais de um garoto. E não quis nem saber: lembrou-se dos filmes de luta que o irmão mais velho via e tentou aplicar uns golpes.
Mas sua valentia não durou muito. Na verdade, foi só um minuto e meio, tempo suficiente para um dos grandões ver o texto escrito em caneta azul entre as linhas da mão esquerda.
- Sofia, eu preciso dizer que você é muito linda. Quero ficar com você desde o dia em que você entrou na escola - leu o brutamontes em voz alta.
- Aaaaaaaaah, que meigo. Diz aí quem é a Sofia, que a gente te leva até ela - respondeu outro.
- Leva ele pro cocho, pô - retrucou o primeiro.
Paulo chutou, berrou e se debateu, mas teve de experimentar de novo o arrepio nos pelos e a dor nas pedrinhas do peito. Maldita água gelada. O bedel só chegou depois que o garoto já estava todo encharcado, com a mão borrada de promessas de amor.
Para os grandões, suspensão de três dias (e eles acharam ótimo).
Paulo, por sua vez, se prometeu duas coisas: 1) Conquistar Sofia bem longe dali (por sorte, a menina tinha faltado à aula naquele dia); 2) Dar o troco.
O tempo passou.
Primeiro, o garoto se matriculou no kickboxing.
Meses depois, encontrou a musa num show de axé e criou coragem para dar-lhe uns beijos ali mesmo.
Não demorou muito, começaram a namorar. Só não contou a história do cocho porque era muito humilhante.
Agora que tem Sofia nos braços, Paulo considera seriamente a hipótese de deixar a vingança de lado.
Paulo sabia exatamente o que o líquido naquela temperatura provocava no corpo. Desde que havia mudado de escola, não tinha passado um 5 de outubro sequer sem receber o que os colegas chamavam de "homenagem". Primeiro, uma sessão de ovada com tinta e farinha. Depois, mergulho no cocho. Coisa de menino de quinta série.
Houve, porém, um dia em que o garoto tomou banho sem que fosse seu aniversário. Foi no dia em que escreveu na mão esquerda tudo o que queria dizer para Sofia. Ela estudava três salas à direita da dele e andava com as nerds de vez em quando, mas era até bem bonitinha.
A cagada de Paulo foi não ter ido direto falar com Sofia assim que o sinal do recreio tocou. Ao invés disso, ele foi à cantina comprar chicletes, tic-tacs ou qualquer outra coisa que lhe garantisse o hálito de hortelã na hora de conversar com a menina. No meio da muvuca no balcão, não notou que os colegas maiores armavam emboscadas para os magrinhos como ele.
Para Paulo, reservaram um gesto simples: alguém foi lá e abaixou o elástico da bermuda até os joelhos. Quando olhou para trás e viu quem fez isso, virou bicho. Esqueceu Sofia e os tic-tacs. Logo percebeu que ia ter de brigar sozinho com mais de um garoto. E não quis nem saber: lembrou-se dos filmes de luta que o irmão mais velho via e tentou aplicar uns golpes.
Mas sua valentia não durou muito. Na verdade, foi só um minuto e meio, tempo suficiente para um dos grandões ver o texto escrito em caneta azul entre as linhas da mão esquerda.
- Sofia, eu preciso dizer que você é muito linda. Quero ficar com você desde o dia em que você entrou na escola - leu o brutamontes em voz alta.
- Aaaaaaaaah, que meigo. Diz aí quem é a Sofia, que a gente te leva até ela - respondeu outro.
- Leva ele pro cocho, pô - retrucou o primeiro.
Paulo chutou, berrou e se debateu, mas teve de experimentar de novo o arrepio nos pelos e a dor nas pedrinhas do peito. Maldita água gelada. O bedel só chegou depois que o garoto já estava todo encharcado, com a mão borrada de promessas de amor.
Para os grandões, suspensão de três dias (e eles acharam ótimo).
Paulo, por sua vez, se prometeu duas coisas: 1) Conquistar Sofia bem longe dali (por sorte, a menina tinha faltado à aula naquele dia); 2) Dar o troco.
O tempo passou.
Primeiro, o garoto se matriculou no kickboxing.
Meses depois, encontrou a musa num show de axé e criou coragem para dar-lhe uns beijos ali mesmo.
Não demorou muito, começaram a namorar. Só não contou a história do cocho porque era muito humilhante.
Agora que tem Sofia nos braços, Paulo considera seriamente a hipótese de deixar a vingança de lado.
sexta-feira, julho 03, 2009
Raquel
Os homens sonham com mulheres lindas, mas se casam mesmo é com as normais. E antes que qualquer pessoa ache que estou começando um manifesto piegas em defesa das pessoas normais -- porque afinal, são elas que vivem de fato uma vida real, namoram, se casam, engravidam, etc. --, eu digo: não é nada disso.
A mulher normal, sinto informar, é aquela "que deu para arranjar".
Nessa mesa bagunçada de almoço de domingo, rodeada por outras mesas bagunçadas, cheias de mulheres, maridos e filhos, fico me perguntando se sou apenas o que deu para ele conseguir. Acho que sim. Ele também foi o que eu consegui. E sinto que não há muita diferença naqueles que vejo no resto do restaurante.
Enquanto luto para dar conta dos espetos que se revezam e as crianças, ainda consigo observar ao redor. Administrar o marido é fácil: basta que ele não abra a boca para falar.
Minha Nossa Senhora da Pipa, quanta gente feia. Não consigo imaginar como pode ter existido o dia em que essas pessoas se olharam, gostaram umas das outras, sentiram tesão, transaram e acharam legal a ideia de botar mais gente feia no mundo.
Eu não me lembro bem como tudo isso aconteceu comigo. Achei que fosse a sequência natural das coisas, sabe? Encontrar alguém que tenha um interesse razoável por você, namorar, casar, financiar um apartamento em 30 anos, fazer um casal de filhos antes dos 40... não sei se li isso em algum lugar ou se alguém me disse que era assim que pessoas normais viviam.
Pois bem: tenho uma aliança, um casal de filhos, um apê financiado, uma vaguinha no governo e acho tudo isso... ah, deixa pra lá.
Preciso que alguém leve os meninos pra brincar no playground. Preciso que esse cara ao meu lado vá embora. Preciso de atrativos físicos. Preciso poder usar as roupas que vejo na revista. Preciso do tempo que perdi conseguindo todas as coisas que consegui.
Quero outras coisas. Outra vida. Voltar para esse mundo de outro jeito. Ah... também acho que quero mais um pão de alho antes de tudo isso.
A mulher normal, sinto informar, é aquela "que deu para arranjar".
Nessa mesa bagunçada de almoço de domingo, rodeada por outras mesas bagunçadas, cheias de mulheres, maridos e filhos, fico me perguntando se sou apenas o que deu para ele conseguir. Acho que sim. Ele também foi o que eu consegui. E sinto que não há muita diferença naqueles que vejo no resto do restaurante.
Enquanto luto para dar conta dos espetos que se revezam e as crianças, ainda consigo observar ao redor. Administrar o marido é fácil: basta que ele não abra a boca para falar.
Minha Nossa Senhora da Pipa, quanta gente feia. Não consigo imaginar como pode ter existido o dia em que essas pessoas se olharam, gostaram umas das outras, sentiram tesão, transaram e acharam legal a ideia de botar mais gente feia no mundo.
Eu não me lembro bem como tudo isso aconteceu comigo. Achei que fosse a sequência natural das coisas, sabe? Encontrar alguém que tenha um interesse razoável por você, namorar, casar, financiar um apartamento em 30 anos, fazer um casal de filhos antes dos 40... não sei se li isso em algum lugar ou se alguém me disse que era assim que pessoas normais viviam.
Pois bem: tenho uma aliança, um casal de filhos, um apê financiado, uma vaguinha no governo e acho tudo isso... ah, deixa pra lá.
Preciso que alguém leve os meninos pra brincar no playground. Preciso que esse cara ao meu lado vá embora. Preciso de atrativos físicos. Preciso poder usar as roupas que vejo na revista. Preciso do tempo que perdi conseguindo todas as coisas que consegui.
Quero outras coisas. Outra vida. Voltar para esse mundo de outro jeito. Ah... também acho que quero mais um pão de alho antes de tudo isso.
quinta-feira, abril 30, 2009
Contos domésticos e escatológicos - 1
Abriu a janela do Google achando-se ridícula por antecipação. Pela primeira vez na vida, ia buscar alguma coisa que não sabia exatamente como definir. Queria saber como acabar com uns bichinhos pequenos — do tamanho de uma ponta de lápis —, cascudinhos e voadores, parecidos com moscas de fruta.
Aparentemente inofensivos, eles eram autores de uma devastação lenta, progressiva e irritante. Deixavam carcomidas as castanhas-de-caju orgânicas antes mesmo que ela abrisse o saquinho. Alojavam-se sorrateiros nos cantos das tampas dos potes que guardavam o açúcar mascavo e a granola. Refestelavam-se no tomilho desidratado, cujo frasco ela havia se esquecido de fechar. Furavam os pacotes de farinha e as sacolas de supermercado que reuniam as embalagens de biscoito de chocolate.
- Bichos insuportáveis. Comem melhor que eu — pensou enquanto buscava a sequência de palavras que lhe permitiria ao menos saber o nome de quem a incomodava.
A pesquisa começou com "insetos pequenos e cascudos" e foi crescendo aos poucos.
"Insetos pequenos, voadores e cascudos", digitou (sem as aspas).
108.390 ocorrências.
Quando viu a quantidade de resultados e a impossibilidade de ver um por um até achar a resposta, resolveu ser mais específica.
"Insetos pequenos, voadores, cascudos e parentes daquele inseto de fruta", acrescentou, com essas exatas palavras. Também não deu muito certo.
Prosseguiu: "Insetos pequenos, voadores, cascudos, parentes da mosca de fruta, que furam sacolas de plástico".
Experimentou a busca por imagens, mas só timidamente.
Ela não é muito boa de Google e já me contou isso.
Fechou a janela da internet se sentindo mais patética ainda. Os bichinhos tinham feito casa no armário da cozinha desde a época da mudança, oito meses atrás. Contra eles, tinha tentado álcool comum (sem isqueiros ou fósforos por perto, é bom dizer), desinfetante, água e detergente, incenso de jasmim, fumaça de baseado (acendeu e ficou soprando em direção à despensa) e outros tantos expedientes.
Alguém havia sugerido a dedetização.
- Nem pensar. Vou botar veneno onde eu guardo meus biscoitos, minhas aveias, minhas frutas secas? — respondeu ela num jeito arrastado, com certa afetação.
- E aquele gel que se põe nos cantos da casa?
- Ah, não. Aquilo é para barata — continuou, enquanto balançava a cabeça — Já pensou? Se um dia houver mesmo aquele ataque nuclear que vai acabar com tudo, vão sobrar as baratas e os bichos da minha cozinha. Ou melhor, é capaz de só ficarem os meus bichos.
Mas depois de tanto tempo de luta inglória, que a levou a fazer as coisas mais impensáveis (não vou nem comentar a história do baseado), ela estava prestes a desistir. Por conta dos estragos, jogou fora muita coisa boa. E por não saber como, afinal, tinham surgido inicialmente, chegou a se perguntar se o conceito de geração espontânea era mesmo tão absurda assim. Eles simplesmente apareceram um dia. Primeiro dois. Três. Quatro. E muito mais na sequência.
Na manhã seguinte à madrugada insone no Google, foi à cozinha, encheu a chaleira de água para fazer o chá e abriu o armário só para sentir o coração um pouco mais agoniado. Numa questão de horas desde a última limpeza, eles haviam ressurgido com uma força nunca vista. E formado uma pequena colônia voadora por trás das portas.
Ela se vê diante de três opções. Mudar-se dali era fora de cogitação: não queria nem pensar em reembalar todas as suas quinquilharias novamente e ir embora daquele chalezinho no condomínio. A primeira: surtar e jogar a água fervente sobre as pseudomoscas de fruta. A segunda: surtar, desaparafusar o armário da parede e queimá-lo com tudo no quintal. Terceira opção: surtar, lembrar-se das palavras lidas naquele livro e, em vez de matar os insetos, deixá-los simplesmente ser. Quem sabe, substituir as portas de madeira por outras de vidro, para que os bichos possam ser admirados em sua plenitude.
Mas, contrariando as próprias tendências radicais, resolveu ligar para o melhor amigo.
- Meu bem, como é mesmo o nome daquela dedetização que você queria me indicar dia desses?
Chamou o moço da dedetizadora, limpou o armário mais uma vez e se despediu melancólica dos últimos frasquinhos de tempero. Com sorte, aquela seria também a despedida dos insuportáveis.
Durante o resto daquela semana, enquanto o veneno assentava, tentou viver de luz por uns dias.
É claro que a falsa dieta não deu certo. Gostava demais de biscoitos de chocolate.
Mas o veneno deu. E finalmente Estela conseguiu viver em paz.
Aparentemente inofensivos, eles eram autores de uma devastação lenta, progressiva e irritante. Deixavam carcomidas as castanhas-de-caju orgânicas antes mesmo que ela abrisse o saquinho. Alojavam-se sorrateiros nos cantos das tampas dos potes que guardavam o açúcar mascavo e a granola. Refestelavam-se no tomilho desidratado, cujo frasco ela havia se esquecido de fechar. Furavam os pacotes de farinha e as sacolas de supermercado que reuniam as embalagens de biscoito de chocolate.
- Bichos insuportáveis. Comem melhor que eu — pensou enquanto buscava a sequência de palavras que lhe permitiria ao menos saber o nome de quem a incomodava.
A pesquisa começou com "insetos pequenos e cascudos" e foi crescendo aos poucos.
"Insetos pequenos, voadores e cascudos", digitou (sem as aspas).
108.390 ocorrências.
Quando viu a quantidade de resultados e a impossibilidade de ver um por um até achar a resposta, resolveu ser mais específica.
"Insetos pequenos, voadores, cascudos e parentes daquele inseto de fruta", acrescentou, com essas exatas palavras. Também não deu muito certo.
Prosseguiu: "Insetos pequenos, voadores, cascudos, parentes da mosca de fruta, que furam sacolas de plástico".
Experimentou a busca por imagens, mas só timidamente.
Ela não é muito boa de Google e já me contou isso.
Fechou a janela da internet se sentindo mais patética ainda. Os bichinhos tinham feito casa no armário da cozinha desde a época da mudança, oito meses atrás. Contra eles, tinha tentado álcool comum (sem isqueiros ou fósforos por perto, é bom dizer), desinfetante, água e detergente, incenso de jasmim, fumaça de baseado (acendeu e ficou soprando em direção à despensa) e outros tantos expedientes.
Alguém havia sugerido a dedetização.
- Nem pensar. Vou botar veneno onde eu guardo meus biscoitos, minhas aveias, minhas frutas secas? — respondeu ela num jeito arrastado, com certa afetação.
- E aquele gel que se põe nos cantos da casa?
- Ah, não. Aquilo é para barata — continuou, enquanto balançava a cabeça — Já pensou? Se um dia houver mesmo aquele ataque nuclear que vai acabar com tudo, vão sobrar as baratas e os bichos da minha cozinha. Ou melhor, é capaz de só ficarem os meus bichos.
Mas depois de tanto tempo de luta inglória, que a levou a fazer as coisas mais impensáveis (não vou nem comentar a história do baseado), ela estava prestes a desistir. Por conta dos estragos, jogou fora muita coisa boa. E por não saber como, afinal, tinham surgido inicialmente, chegou a se perguntar se o conceito de geração espontânea era mesmo tão absurda assim. Eles simplesmente apareceram um dia. Primeiro dois. Três. Quatro. E muito mais na sequência.
Na manhã seguinte à madrugada insone no Google, foi à cozinha, encheu a chaleira de água para fazer o chá e abriu o armário só para sentir o coração um pouco mais agoniado. Numa questão de horas desde a última limpeza, eles haviam ressurgido com uma força nunca vista. E formado uma pequena colônia voadora por trás das portas.
Ela se vê diante de três opções. Mudar-se dali era fora de cogitação: não queria nem pensar em reembalar todas as suas quinquilharias novamente e ir embora daquele chalezinho no condomínio. A primeira: surtar e jogar a água fervente sobre as pseudomoscas de fruta. A segunda: surtar, desaparafusar o armário da parede e queimá-lo com tudo no quintal. Terceira opção: surtar, lembrar-se das palavras lidas naquele livro e, em vez de matar os insetos, deixá-los simplesmente ser. Quem sabe, substituir as portas de madeira por outras de vidro, para que os bichos possam ser admirados em sua plenitude.
Mas, contrariando as próprias tendências radicais, resolveu ligar para o melhor amigo.
- Meu bem, como é mesmo o nome daquela dedetização que você queria me indicar dia desses?
Chamou o moço da dedetizadora, limpou o armário mais uma vez e se despediu melancólica dos últimos frasquinhos de tempero. Com sorte, aquela seria também a despedida dos insuportáveis.
Durante o resto daquela semana, enquanto o veneno assentava, tentou viver de luz por uns dias.
É claro que a falsa dieta não deu certo. Gostava demais de biscoitos de chocolate.
Mas o veneno deu. E finalmente Estela conseguiu viver em paz.
sábado, abril 04, 2009
Classificados - parte final
Leia a parte 1 do conto aqui e a 2 aqui.***************************************
- Sim, eu me lembrei de você quando vi a camiseta do Pixies - disse Alessandra sorrindo discretamente, com medo que o dente estivesse sujo - Lembrei de uma sexta em que todo mundo veio de roupa casual e você apareceu de camiseta de banda. E aí a chefe disse que o esquema era casual, mas nem tanto.
- É verdade. Foi uma bronca elegante - comentou ele meio sem graça, equilibrando uma bandeja do self-service de comida japonesa.
Hugo não puxou mais o "r" como antigamente quando disse "É verdade". E não usava mais camiseta de rock. Para almoçar naquele dia, tinha preferido um exemplar da Armani Exchange. A calça, Alessandra identificou na hora: tinha visto uma igual num anúncio da Diesel na última Vogue. A bolsa em estilo carteiro, dava para notar, era de couro do bom. O ex-estagiário parecia um modelinho, um desses bem gatinhos.
- Senta, Hugo. Você não vai crescer mais por ficar de pé - convidou a moça.
- Obrigado, Alê. E como é que estão as coisas? Como é que está o povo do escritório?
- Estou bem. Estamos todos bem.
- Muita festinha lá?
- Algumas. Agora que descobrimos a torta Toblerone, nem esperamos mais rolar aniversário ou despedida. Às vezes, numa sexta-feira, a gente pede, é ótimo.
- Depois, reclamam que estão gordas... brincadeira.
- Vaza, estagiário - disse ela, fazendo-se de brava.
Na meia hora seguinte, a dupla teve o que deve ter sido o papo mais irrelevante da face da Terra. Um pouco de filmes bobos, um pouco de vida alheia, outro pouco de notícias, the end. Ela, com vergonha de comentar sobre o anúncio do jornal. Ele, sem conseguir dizer direito o que tinha feito depois de sair da multinacional. Não havia arrumado outro estágio. Tinha finalmente se formado. Não estava oficialmente trabalhando, nem buscado emprego, nem estava estudando para concurso público.
- Mas o que tem feito, então?
- Sei lá... coisas - disse ele.
- Preciso de um café - avisou Alessandra - Quer ir junto?
- Eu vou. Quero café também. E brownie.
Frente a frente com o garoto na mesinha da confeitaria do shopping, a moça finalmente tomou coragem.
- Eu vi um anúncio com seu nome e seu telefone no jornal.
Ele riu.
- Sério?
- Sério. Você que fez ou alguém o sacaneou? - perguntou, mesmo lembrando das explicações da amiga que trabalhava nos classificados.
- Eu mesmo fiz.
- Hum - disse ela mastigando as casquinhas de laranja que vinham junto com o café - a vida de quem trabalha em marketing não é tão ruim assim. Dá para ganhar uns dinheiros e não pedir ajuda no jornal. Ainda mais daquele jeito.
- Eu sei. Mas não estava a fim desse esquema. Queria fazer outra coisa.
- Conseguiu?
- Consegui.
- Legal.
- E eu botei logo meu nome de verdade no jornal, tá ligada? Não queria isso de me anunciar com um nome e depois ficar vivendo disfarçado.
- E vocês estão bem?
- Estamos. A Judite é legal, já conheceu meus pais e tudo.
- Ela é conhecida?
- Mais ou menos. Sai naquela revista social de vez em quando. Ela e o marido.
- Arrã.
- O cara é diplomata, não liga muito para ela, mas acho que ela não fica mais triste com isso.
- Sei.
- É essa a história.
- Saquei.
Hugo terminou o brownie. Os dois pediram a conta.
- Vou por aquela porta ali. Preciso voltar pro trabalho - disse a publicitária.
- Eu deixei o carro lá embaixo. Vou nessa escada rolante.
- Bom, se um dia quiser passar no escritório para comer torta de chocolate...
- Claro...
- Ou voltar à vida normal de quem trabalha com publicidade, marketing, essas coisas, passa lá.
- Pode deixar - respondeu ele, dando nela um abraço algo efusivo. Só faltou levantá-la.
Alessandra não teve coragem de dizer que ela era quem tinha ligado perguntando sobre um falso fdp chamado Ambrósio.
Mais tarde naquele dia, ela abriu uma janela no programa de mensagens.
- Quanto você custa, garoto? - redigiu.
Apagou o texto.
- Você é um puta dum cabeça oca, mas quero você para mim.
E deu backspace em tudo de novo.
Ao invés de escrever para Hugo, mandou e-mail para Lu.
- Sabe aquele menino do anúncio? Encontrei com ele hoje. Que merda, viu? Merda. Merda. Beijos, Alê.
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Foto: duas minas leem jornalzinho institucional em Nova York, em 1958. Crédito: Walter Sanders / Life.
quinta-feira, abril 02, 2009
Classificados - 2
Essa é a segunda parte do texto de ficção Classificados, que começou ali embaixo. Voltem lá para ler do começo, ou este blog se autodestruirá em 10 segundos! hehe
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Mais tarde naquele dia, quando o expediente estava quase no fim, Alessandra abriu duas janelas no Gtalk. Uma para tentar falar com Hugo.
— Querido, vi uma camiseta do Pixies no Conic sábado e me lembrei de você. Beijo — escreveu.
A outra janela era para conversar com Lu, amiga que trabalhava na seção de classificados do jornal onde viu o anúncio do ex-colega.
— Miguxaaaaaaaaaaaaaa — escreveu Alessandra.
— Quem vê vc de terninho de alfaiataria até pensa q vc é séria… hauhauhauahuahuahuauaua — respondeu Lu.
— Amiga, deixa eu te perguntar um negócio. Tem como eu botar um anúncio nos classificados como forma de sacanear outra pessoa?
— Como assim?
— Cara, uma história cabulosa. Acho que alguém botou um anúncio no jornal se fazendo passar por um amigo meu. E esse anúncio é daqueles de pessoas que pedem ajuda financeira em troca de um sweet love.
— Shit!!
— Pq?
— Porque é impossível fazer isso nesse tipo de anúncio. A pessoa não pode anunciar sem apresentar um documento de identidade e autorizar pessoalmente a publicação daquele texto.
— Sei…
— A gente faz isso para evitar problemas, processos, sabe?
— Entendi. Tô passada, amiga. O menino não dava a menor pinta de nada.
— Vcs estavam ficando?
— Não… longe disso.
— Ele é gatinho, pelo menos? Me diz que anúncio é para eu ligar pra ele… rsrsrsrsrsrsrs.
— Rica de dinheiro, carente de amor. VC é assim? Sou novinho, bonito e preciso de aj. financ. Podemos conversar e ++++++…
— Hauhauhauhauauahuahuahuahuahuahauhauhauahuhauahuahuahuahuaha!!!!
— Que tal????
— Sou pobre e auto-suficiente (com hífen ou sem??). Ele não dá para mim. Hahahahaha. Preciso ir, Alê.
— Eu tb. Vamos almoçar no fim de semana??? Bjão. Ah, agora é autossuficiente. Eca.
— Vamos. Sexta eu te ligo para a gente decidir o lugar. + bjo.
A resposta de Hugo na outra janelinha nunca veio.
Levando isso em conta, Alessandra resolveu esquecer a história. Tinha ficado muito, muito, quase patologicamente curiosa (era de sua natureza), mas também não ia perder tempo com futricas. O menino não era amigo nem nada, era colega, companhia de almoço no chinês, só isso. O anúncio rendeu umas risadas, uns papos engraçados e fim de linha.
O sábado chegou, Alessandra almoçou com Lu. Semanas depois, a temporada de chuva acabou e a Páscoa passou voando. Meses depois, quando a grama dos jardins passava do verde para o bege-palha, a moça saiu sozinha do escritório na hora do almoço e viu-se numa espécie de bifurcação imaginária. Podia comer no chinês — sem Hugo, claro — ou no shopping. Preferiu a segunda opção. Estava de botinhas de salto e não queria detoná-las no caminho de terra até o Ni Hao (esse era o nome do restaurante).
Andou devagar entre as lojas da praça de alimentação lotada. Viu sanduíches, saladinhas, massas, sushis e grelhados. Resolveu pedir um risoto com filé e esperar na primeira mesa vazia que encontrou. Quando começou a comer, viu que alguém tinha parado de pé à sua frente.
— Quer dizer que você lembra de mim quando vê o Pixies…
Era o Hugo.
Continua amanhã.
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Mais tarde naquele dia, quando o expediente estava quase no fim, Alessandra abriu duas janelas no Gtalk. Uma para tentar falar com Hugo.
— Querido, vi uma camiseta do Pixies no Conic sábado e me lembrei de você. Beijo — escreveu.
A outra janela era para conversar com Lu, amiga que trabalhava na seção de classificados do jornal onde viu o anúncio do ex-colega.
— Miguxaaaaaaaaaaaaaa — escreveu Alessandra.
— Quem vê vc de terninho de alfaiataria até pensa q vc é séria… hauhauhauahuahuahuauaua — respondeu Lu.
— Amiga, deixa eu te perguntar um negócio. Tem como eu botar um anúncio nos classificados como forma de sacanear outra pessoa?
— Como assim?
— Cara, uma história cabulosa. Acho que alguém botou um anúncio no jornal se fazendo passar por um amigo meu. E esse anúncio é daqueles de pessoas que pedem ajuda financeira em troca de um sweet love.
— Shit!!
— Pq?
— Porque é impossível fazer isso nesse tipo de anúncio. A pessoa não pode anunciar sem apresentar um documento de identidade e autorizar pessoalmente a publicação daquele texto.
— Sei…
— A gente faz isso para evitar problemas, processos, sabe?
— Entendi. Tô passada, amiga. O menino não dava a menor pinta de nada.
— Vcs estavam ficando?
— Não… longe disso.
— Ele é gatinho, pelo menos? Me diz que anúncio é para eu ligar pra ele… rsrsrsrsrsrsrs.
— Rica de dinheiro, carente de amor. VC é assim? Sou novinho, bonito e preciso de aj. financ. Podemos conversar e ++++++…
— Hauhauhauhauauahuahuahuahuahuahauhauhauahuhauahuahuahuahuaha!!!!
— Que tal????
— Sou pobre e auto-suficiente (com hífen ou sem??). Ele não dá para mim. Hahahahaha. Preciso ir, Alê.
— Eu tb. Vamos almoçar no fim de semana??? Bjão. Ah, agora é autossuficiente. Eca.
— Vamos. Sexta eu te ligo para a gente decidir o lugar. + bjo.
A resposta de Hugo na outra janelinha nunca veio.
Levando isso em conta, Alessandra resolveu esquecer a história. Tinha ficado muito, muito, quase patologicamente curiosa (era de sua natureza), mas também não ia perder tempo com futricas. O menino não era amigo nem nada, era colega, companhia de almoço no chinês, só isso. O anúncio rendeu umas risadas, uns papos engraçados e fim de linha.
O sábado chegou, Alessandra almoçou com Lu. Semanas depois, a temporada de chuva acabou e a Páscoa passou voando. Meses depois, quando a grama dos jardins passava do verde para o bege-palha, a moça saiu sozinha do escritório na hora do almoço e viu-se numa espécie de bifurcação imaginária. Podia comer no chinês — sem Hugo, claro — ou no shopping. Preferiu a segunda opção. Estava de botinhas de salto e não queria detoná-las no caminho de terra até o Ni Hao (esse era o nome do restaurante).
Andou devagar entre as lojas da praça de alimentação lotada. Viu sanduíches, saladinhas, massas, sushis e grelhados. Resolveu pedir um risoto com filé e esperar na primeira mesa vazia que encontrou. Quando começou a comer, viu que alguém tinha parado de pé à sua frente.
— Quer dizer que você lembra de mim quando vê o Pixies…
Era o Hugo.
Continua amanhã.
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