quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Duas coisas


Eu sei que este virou um blog com posts diários e que prometi um para hoje, mas estou podre.
Preciso desligar o computador e me recolher aos meus aposentos. ;-)
Amanhã eu falo mais de comidinhas gostosas, de viagem, de qualquer coisa que quiserem.

Vou aproveitar e agradecer ao Zé, que botou link para o meu blog aqui. Valeu, cara!

A foto é de um labralata lindo e superdigno que vi em Morro de São Paulo, Bahia, há uns dois anos.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Comendo bem por aí - 2

A parte 2 da história dos cartões de restaurante que estão guardados desde maio passado na minha bolsa vai sem foto por um motivo patético: a primeira metade das fotos que fiz da viagem para Barcelona foi para um CD que -- só descobri no Brasil -- estava em branco. Vocês acham que eu fiquei muito ou pouco indignada com a minha falta de checagem? Pois é.

Todas as lindas imagens que fiz da Boquería, do Palau de la Música e de outros tantos lugares e comidas incríveis foram para o limbo, o que me obriga a voltar à cidade um dia para fotografar tudo de novo. Ai, que vida difícil. :-)

Essa viagem serviu para comprovar uma coisa: dicas de viagem ajudam à beça. Mas, no fim das contas, quem sentencia se elas valem a pena ou não é pura e simplesmente o viajante.

O modo como acabei conhecendo o Orígens - La llavor dels (o catalão não é uma língua ótima?), no Bairro do Borne, foi meio torto, mas bacana. A ideia inicialmente era conhecer o Inopia, que fica do outro lado da cidade (Tamarit 104, Eixample Esquerra; 93-424-5231), bar de tapas de Albert Adrià, irmão daquele que é considerado o melhor chef do mundo na atualidade.

Li a dica na revista Viagem & Turismo, da Abril, que elogiou os petiscos clássicos e os preços justos do bar. Quando me vi perto de lá, pensei: é agora!

Cheguei às 19h e o lugar já estava lotado, com seguranças pit-bull e corda na porta. Fiquei esperando com uma galera e vendo que os pit-bulls liberavam a entrada de pessoas que chegavam depois, mas já tinham amigos com mesa lá dentro.

Pergunto novamente: vocês acham que me indignei muito ou só um pouquinho?

Resolvi procurar alguma coisa legal perto. Não rolou. Aquela banda do bairro é muito residencial. Peguei o metrô até o Raval, outro lugar que me venderam como o paraíso na Terra. Depois de ver uns três bares/restaurantes estranhos e/ou caros, uns 15 açougues islâmicos e uns 22 cabeleireiros indianos, caí fora. (Depois, me lembrei que o lado bom do bairro está perto do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, o Macba).

E me lembrei de uma espécie de praça no Born -- o Passeig del Born -- que reunia uma série de lugares para comer. Foi lá, já com o estômago colado nas costas e os pés cansados, que achei o Orígens e descobri que o fair trade, o comércio sustentável, a valorização dos produtores e dos produtos locais (ou pelo menos a propaganda de tudo isso) é uma tendência irreversível na gastronomia. O cardápio é bem mais extenso do que os que estamos acostumados a ver porque permite saber a história e as propriedades de cada um dos ingredientes usados nas receitas.

Não lembro de tudo que comi -- só de um creme de aspargos, para falar a verdade -- mas achei tudo gostoso e muito bem-feito. Ou teria sido a fome a responsável pelo meu encanto? Ah, acho que não. O negócio é bom mesmo. E os preços e serviços não decepcionam.

ORÍGENS - LA LLAVOR DELS
Passeig del Born, 4, Barcelona; 93-295-66-90. Diariamente, das 12h30 à 1h. Metrô: linha 4.

Vou fazer uma parte 3 desse post porque, ao tentar lembrar qual era mesmo o nome do bar do Adrià, descobri um milhão de lugares para recomendar e desaconselhar. Isso, claro, se ninguém aí estiver de saco cheio de histórias de viagem. ;-)

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Comer bem por aí - 1



Descobri que há meses venho carregando na minha bolsa verde (do trabalho) dois cartões de bares /restaurantes das últimas férias.
Decidi que eles seriam os temas dos posts de hoje e de amanhã. Um sobre Madri e o outro sobre Barcelona, que tal?
O primeiro cartão é do Mesón del Champiñon, na capital espanhola. Curiosamente, ele fica perto -- ao mesmo tempo -- de uma região com várias roubadas gastro-turísticas e de outra com várias coisinhas interessantes. A região das roubadas é a Plaza Mayor. Nunca tente achar nada legal por lá. Tá na cara que é tudo estranho. E a das coisinhas legais é a Cava de San Miguel (o lugar que conheci fica no número 17; 91-559-6790), que reúne ainda mais bares de tapas. Me lembro em particular do Mesón de La Tortilla (no número 15), onde teria ido se tivesse sobrado tempo (e bucho, hehe).
Trata-se de um lugar simples, mas que oferece um dos petiscos mais Iloveyou que já provei: cogumelos grelhados com azeite, salsinha e sal. Os cabos dos champignons são cortados para dar lugar a um pedacinho de presunto cru. Não lembro quanto paguei, mas não era caro e a porção tinha um bom tamanho. Gostei tanto que deve ter sido por isso que guardei o cartão até hoje na bolsa. Se você tem viagem marcada para Madrid, vá. Esqueça a frescura -- você vai ficar de pé, com uma galera em volta e um cheiro de cigarro -- e veja se é bom ou não é.
Não tirei fotos, mas achei essas daqui, que servem para tentar aqueles que se perguntam se comem ou se tomam água e mexem os dedinhos até a fome passar. :-)
Outro lugar fera é a Sidrería El Tigre (Calle de las Infantas, 30, Chueca), onde fui parar depois de uma viagem malsucedida -- queria ir ao Bocaíto, perto dali, para comer o que me venderam como as tapas favoritas de Pedro Almodóvar e encontrei o lugar fechado. Quer dizer, malsucedida o cacete. O lugar é sensacional. Oferece opções para os mais e os menos durangos.
Os mais pedem uma cerveja e ganham um petisco sem pagar um euro extra. Os menos pedem uma cerveja ou uma sidra tirada na serpentina (deliciosa, nada a ver com Cereser) e o cardápio, que é cheio de coisas fofas. A variedade de queijos, frios e tortillas, tudo perfeito, chama a atenção. Mais uma vez, come-se de pé, em meio a frequentadores totalmente locais. Não repare no chão cheio de guardanapos. Bar de tapas e lata de lixo são dois conceitos que, aparentemente, ainda não se encontraram.
Na rua em frente à Sidrería, ainda há um restaurante italiano legal para quem quiser variar entre um petisco e outro. Esqueci o nome, mas não é difícil de achar.
Outras dicas que sei de cabeça:
- Museo del Jamón: estão espalhados por Madrid. Encontre o mais perto do seu hotel aqui.
- Rua Caballero de Gracia, perto da Gran Vía: impossível falar de um lugar só nesta rua. A partir do Frescco (um lugar bom para quando o corpo pedir vegetais folhosos), existe uma infinidade de restaurantes de vários estilos, inclusive um contemporâneo excelente, barato e com serviço rápido, cujo nome me esqueci (juro!), mas é só procurar pelos garçons com jeito de filipinos que você acha. Também fui numa baladinha ótima, ou que pelo menos costumava ser assim, nessa rua. Mais detalhes aqui.
É isso, minha gente.
Na falta de uma imagem de algum dos lugares acima, usei a foto que tirei num bar/restaurante fera em Toledo, a uma hora e pouco de Madri. Se chama Alfileritos 24, fica na rua de mesmo nome e é também fantástico. Beijos.

domingo, fevereiro 08, 2009

Um sábado

Sábado, 7 de fevereiro, perto das 14h30. Acordo batendo de leve a lateral da cabeça na janela da van e vejo uma moça com uma fantasia indefinível descer as escadas de uma antiga pousada na cidade de Corumbá, no interior de Goiás. É uma roupa preta e rosa-choque, e sua dona me parece um tanto orgulhosa por vesti-la.

Não sei dizer quais são suas intenções. Parece uma garota de Harajuku, aquele bairro de Tóquio famoso pelas meninas de vestes loucaças. A mulher de preto e rosa ainda tem outro ponto em comum com suas similares japonesas: tira fotos de si mesma com uma super-ultra-câmera digital de mega-resolução-plus.

Gostaria de poder perguntar a alguém se estou vendo algo real ou se aquilo é fruto de uma alucinação causada por três horas de sol no cocoruto e remadas non-stop. Mas meus companheiros de van, já despertos, correram para o interior da pousada.

Vou ao banheiro lavar o rosto e dou de cara com mais duas admiradoras do Harajuku way of life: uma fadinha de asas brancas de pelúcia e outra toda vestida de verde-abacate, provavelmente uma fã da Sininho. Quero saber o que está acontecendo, mas os pensamentos vêm devagar e a voz não sai.

Quando me encontro com Erasmus, pergunto imediatamente:
- Você viu o que eu vi?
- O que você viu?
- Uma maluca de preto e rosa, uma fada e uma Sininho. Acho que viemos parar numa convenção de personagens de histórias infantis.
- Ali, junto com aquele cara de quimono e aquela Minnie de salto alto?
- Isso.
- Gente estranha - ele responde, me abraçando.
- Me tira daqui AGORA, please.
Fui rapidamente atendida.

Começo a achar novamente que o mundo faz sentido quando olho para um enorme e cheiroso bufê de comida caseira, com todas as cores e sabores e nutrientes necessários para quem acordou de madrugada, vestiu capacete e colete salva-vidas e se meteu num bote para remar e descer corredeiras. Encho o prato e respiro fundo enquanto como. Esse negócio de fazer rafting é uma delícia, mas consome as energias do cidadão. Volto ao bufê na dúvida se devo repetir os pratos salgados ou se experimento a sobremesa. A visão de suculentos e lustrosos figos em calda me ajuda a decidir.

Antes de devorar os figos, no entanto, avisto novamente a trupe de fantasiados. Meu prato quase cai em meio ao susto. Já passou, penso. Já passou.

Eu não parei em Corumbá, que fica no caminho de Brasília para Pirenópolis, depois de ser abduzida por extra-terrestres. Fui lá de livre e espontânea vontade, com reservas feitas uma semana antes, para participar do quarto rafting da minha vida. Engraçado isso: moro em Brasília há 16 anos e fiz rafting pela primeira vez há cinco. No entanto, sempre remei muito longe (em Gramado, no Rio Grande do Sul; em Mendoza, na Argentina; e no interior do Peru, a uma hora de Cuzco).

Não tinha me dado conta de que havia um rio tão pertinho daqui para matar a saudade de um dos poucos esportes radicais de que gosto (os outros dois são parapente e mergulho). Pois é. Apesar de bem menos rápidas do que as dos rios que já conheci - daí a necessidade de remar tanto, o tempo todo -, as águas do Corumbá proporcionam uns passeios legais e com quedas mais fortes do que em qualquer lugar onde já fui.

O que mais dizer? Que a paisagem é como em qualquer lugar onde se pratica rafting: maravilhosa. Lá, o cerrado não é nada tímido. As árvores são cheias e muito próximas umas das outras. E certas partes do rio são tão preservadas que ver borboletas (um indício da limpeza do lugar) é facinho. Eu mesma enxerguei duas azuis gigantes - longe de serem um fruto de qualquer alucinação. Observei um casal de corujas quietinho debaixo de uma ponte. E vi, no caminho, um monte de gente que olhava os botes e dava tchauzinho para os remadores. Muito legal.

No finalzinho do passeio, a uns 15km do ponto de saída, uma galera de locais estava à beira do rio. Todo o mundo nos dois botes achou que finalmente ia ter seu momento de fama quando viu que havia uma ambulância dos bombeiros no local. A multidão de curiosos estava de olho não no rafting, mas na possibilidade de ver um corpo sair do rio. Shit!

Por causa disso, tivemos de parar um pouco mais à frente. No problem. Quem já remou um tantão pode remar outro cadiquinho.

Antes de entrar na van e cochilar antes do almoço, deparei com um grupo de três crianças locais que me olhavam como quem dissesse: "Leve-nos ao seu líder". A mãe, uma jovem senhora de olhos azuis e lenço na cabeça, enxotou-as dali no minuto seguinte.

Mal sabia eu que este não seria o único momento inusitado da viagem. O que prova o seguinte: quanto mais a gente escreve sobre surrealidades, mais elas acontecem com a gente.

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Para saber quem oferece serviço de rafting no Rio Corumbá, clique aqui. O passeio dura em torno de três horas. E o pacote que contratei dá direito a almoço na pousada onde vi uma garota de Harajuku aportar em terras goianas.

sábado, fevereiro 07, 2009

Grace - parte 2

Continuação do post logo abaixo. Aiaiai de quem ler o final antes do começo!

A maneira como consegui ficar com o Bernardo foi patética e totalmente desaconselhável, embora tenha dado certo. O deputado contou que tinha conversado com um juiz amigo lá na cidadezinha dele, em Minas. O juiz ia fazer o registro sem que eu precisasse passar pela formalidade da adoção, mas com um porém: eu teria que passar por funcionária da fazenda do deputado e alegar que o filho era meu mesmo, biológico, que eu era pobre e tinha sido abandonada pelo pai do bebê.

Veja você: tem cabimento uma mulher de quase 50 anos, enrugada desse jeito, passar por jovem mãe seduzida e largada? Ter, não tem, mas assim mesmo arranjei umas roupas velhas e um lenço, armei minha melhor cara de coitadinha e viajei para Minas. Faço teatro desde a juventude e posso dizer: foi o papel mais difícil da minha vida. Mas, quando voltei, meu filho já era 100% meu.

É um menino doce, inteligente, curioso e muito bem resolvido com o fato de ter sido adotado. Sempre digo que é o menino do meu coração, embora não tenha nascido da minha barriga. E ele deve entender -- ao modo dele, claro. Tanto que, esses dias, estávamos vendo o jornal na televisão e, quando apareceu uma imagem da leoa grávida no zoológico, com aquele ventre enorme, ele me fez a seguinte pergunta: “Mamãe, quando você me teve, ficou com o coração igual ao da barriga da leoa?”.

Eu respondi que sim e a gente riu muito. Ri e chorei ao mesmo tempo, mas creio que isso ele não percebeu.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Grace

Inspirado em uma história de verdade. Na falta de uma imagem melhor, fico com essa, do Museu do Azulejo, em Portugal.


Dizem que o reloginho que avisa à mulher sobre o momento ideal de engravidar toca três vezes. A primeira, aos 25. A segunda, aos 30. A última, aos 35. O meu tocou bem forte nas três vezes, mas em nenhuma delas eu estava com alguém legal o suficiente para ser pai do meu filho, o que é uma pena. E aí eu me vi aos 47 anos ainda menstruando, o corpo avisando que o tempo estava para chegar ao fim e fiquei numa dúvida grande sobre o que fazer. Eu não queria passar por essa vida sem saber que tipo de mãe eu seria, mas também achava deprimente demais fazer uma inseminação artificial ou algo do tipo. Foi aí que resolvi tentar a adoção.


Fui de coração aberto, disposta a ficar com quem aparecesse. Não precisava ser bebê, nem menina, nem branca. Para parecer mais comigo, achei até melhor informar na ficha que preferia uma criança morena ou negra. E foi aí que começaram as minhas dificuldades. Passei a ouvir demais que a minha vontade era muito complicada, que a burocracia era isso, aquilo e aquilo outro, que era impossível entender por que diabos eu não queria uma bebê, menina e branca. Foi uma época de muita angústia. Várias pessoas acompanharam essa história porque eu, indignada, contava para todo o mundo. Você já percebeu que eu falo muito e ainda gosto de fazer um drama, né?


Até que um dia a minha mãe me avisou: um amigo havia dito para ela que conhecia uma moça que estava grávida, mas não queria ficar com o filho. Pensei: é agora. Assim que pude, fui conhecer a tal mulher – praticamente uma menina. Vivia em Taguatinga, numa área próxima ao Chaparral e era viúva de um rapaz morto por traficantes. Estava muito a fim de ir embora de Brasília com os pais e abriu mão totalmente da criança. Me avisou que não precisava de fotos, de cartinhas, de nada. Só de alguém que pudesse dar esse alívio para ela. Estranhamente, fiquei aliviada também.

Quando o Bernardo nasceu, dia 16 de maio de 2002, a mãe não quis nem saber de amamentação nem de banho. Fui eu que dei o primeiro banho nele. Botei a primeira roupa, um macacão vermelho que comprei em Goiânia. Meu bebê era a coisa mais gostosa do mundo. Mas, no que fui levá-lo para fazer a certidão de nascimento, meus problemas começaram de novo. Não queriam que ele ficasse comigo, sabe? Disseram que o certo, já que a mãe não o quis, era entregá-lo para o Estado e aí esperar para saber se eu realmente o adotaria de vez. Bati tanta boca, me estressei tanto, chorei igual a uma louca, tive gastrite, foi uma merda.

Aí, pensei: trabalho com o deputado há quatro mandatos seguidos e nunca pedi um alfinete sequer para o homem. Não é possível que ele não soubesse de uma forma para me ajudar.


Continua amanhã, galera.

Destinos de uma navegação errante - 2

Existe muita gente louca (para não dizer abjeta) navegando por aí.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Destinos de uma navegação errante

Instalar a versão nova e melhorada da televisão de blogueiro esta semana me proporcionou inenarráveis momentos de diversão e uma certa incredulidade com os motivos que fazem algumas pessoas pararem aqui no blog. Vou fazer o seguinte: colocarei aqui alguns termos de busca que trouxeram internautas para esta página e dar minha contribuição sobre o que sei do tema. Vai que consigo acrescentar alguma informação útil à vida desses navegantes...

Água Mendoza
Uia! :-) Este blog vem em primeiro lugar no mecanismo de buscas quando são digitadas as palavras acima. O link apontado é sempre este daqui, que tem umas informações para quem planeja viajar para Mendoza. Se tivesse que acrescentar alguma coisa hoje, diria que, perto das montanhas dos pré-Andes, a água é escura e barrenta por causa dos sedimentos que caem de lá de cima. Mas quem sair da cidade e ir em direção à fronteira com o Chile, logo depois da cidade de Uspallata, vai encontrar águas limpíssimas e termais, como as que correm debaixo de um hotel abandonado construído com rochas da montanha. É um passeio que vale muito a pena.

Albergue Lua Cheia preços
Não lembro direito quanto paguei quando estive lá, há uns três anos. Acho que foram R$ 60 por um quarto individual com cama gigantesca e chuveiro elétrico, tudo totalmente excelente. Mas não recomendo para quem viaja de casal porque se ouve tudo de todos os quartos. ;-) Para quem está só ou com amigos, é perfeito. Mais informações no site do albergue.

13 anos
É a idade da personagem deste post, uma figuraça louca para ter um DVD da dupla Pedro Paulo & Matheus (aliás, ganhei um ontem). É uma idade ao mesmo tempo legal e chata, porque ao mesmo tempo em que se tem uma vida inteira pela frente, não se tem liberdade nem maturidade o suficiente para desfrutá-la. Meus 13 anos até que foram bons, mas honestamente prefiro os atuais 27.

Antes e depois da malhação
Neste post de outubro de 2004, eu ainda tinha a ilusão de ficar como as moças de Modigliani depois de uma combinação infalível de malhação destroy e dieta à base de endívias. Ah, eu era tão inocente...

Mercado putas
Quem digitou isso no Google e veio parar neste blog achou esse post sobre a Daspu. Só digo que continuo achando o máximo a ideia de Eliana Tranchesi vender Daspu na Daslu. É o único saber que tenho sobre o assunto.

Números de putas
Sem comentários, gente.

Por que as calças jeans de hoje não cabem em mulheres bundudas?
Cara, essa foi a pergunta de busca mais genial!!!! E a resposta é simples, ora: porque toda e qualquer peça e/ou tendência da moda de hoje exclui toda e qualquer mulher que tenha alguma carne no corpo. Calça skinny, sarouel, volumes e companhia só ficam bem nas altas e magrelas. Mais resmungos sobre o mundo fashion aqui, neste post de um tempo em que eu ainda me dava ao trabalho de tentar comprar um jeans.

Um comentário, por favor

Algumas pessoas vieram me falar que gostariam de comentar aqui, mas que não têm Gmail e que o Google pede para fazer um cadastro enorme antes de mais nada. E então, por preguiça de encarar o processo todo, acabam desistindo de dizer aquele "Eu estive aqui" básico.

Para essa turma, digo o seguinte: não tem mais desculpa! :-)
Segue abaixo o passo-a-passo. É mega-simples.

1. No final de cada texto, existe um link para comentários. Clique nele.
2. Uma janelinha se abrirá. Escreva o que tiver de escrever.
3. Clique na bolinha ao lado de Nome/URL. Se você não tiver site (ou seja, URL), não precisa colocar. Ponha só o seu nome mesmo. Outra opção é clicar na bolinha ao lado de Anônimo (aí, claro, vai ser muito mais fera se você assinar a mensagem).
4. Se quiser ver como vai ficar o comentário, clique no botão azul para visualizar. Senão, clique no laranja. Finito!

É isso. Mais tarde eu venho aqui de novo escrever texto de verdade. Beijos.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Andréa - Um texto de ficção, parte 2

Por favor, não siga lendo este texto se você não acompanhou o começo da história, contada logo ali embaixo. Trapacear e ler o fim das coisas antecipadamente é para os fracos, ora.
Beijos, Mari.

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Conduziu o carro em direção a uma área de cerrado deserta e próxima ao Lago Sul, onde tinha visto queimarem lixo uma vez. No caminho, mordia os lábios de tanto nervosismo. E se perguntava quem teria denunciado. Talvez, o ex-noivo, pensou. Ele cismou que ela havia lhe dado um chifre durante uma dessas viagens. Não adiantou explicar uma, duas, três vezes que nada tinha acontecido.

Poderia ser a atual namorada do ex. A moça, outra ciumenta surtada, andou seguindo-a e telefonando sem dizer quem era. Quando descobriu onde Andréa morava, tentou invadir a quitinete e afastar as consumidoras.

Ou, quem sabe, a mãe ou o irmão mais novo. Dona Marli não aprovava o sustento da filha de jeito nenhum — ao mesmo tempo, nunca contou para o pai. Kleber praticamente deu um piti quando soube o que a irmã fazia para ajudar a pagar-lhe a faculdade. Depois, meio sem jeito, pediu desculpas e veio perguntar se não tinha como ela incluí-lo no negócio.

— Tutti buona gente — murmurou, lembrando a frase que tinha aprendido com uma das clientes.

A cidade ainda estava escura. De sacola nos braços e luvas nas mãos, Andréa pegou uma pequena trilha e caminhou em direção a um monte de entulho. Eram tantas as pedrinhas e tantos os buracos no terreno de argila dura que ela quase torceu o pé direito. Não parecia haver uma viva alma a quilômetros de distância. Se houvesse, estava ferrada.

Despejou o conteúdo da bolsa em meio ao entulho. Quando acabou, juntou a própria sacola ("que material vagabundo, não vai fazer falta", pensou) e as luvas. Jogou a garrafa inteira de álcool e acendeu o isqueiro. O fogo pegou logo. Ainda olhando para o montinho, deu alguns passos para trás até se convencer de que tudo queimaria por completo. Depois, virou-se e caminhou o mais depressa que pôde até o carro. Dirigiu rápido também. Só freava para não ser pega nos pardais.

Quando chegou, a polícia ainda não tinha chegado. Sentou-se na cama, acendeu um cigarro e se pôs a esperar, com as mãos trêmulas. O cigarro se extinguiu. Andréa trocou de roupa. Preparou café. Acendeu mais um. Fez a pedicure. Começou a organizar os armários para se certificar de que não sobrara mais nada da mercadoria. A madrugada se transformou em manhã. E a campainha tocou.

- Polícia Federal — anunciou uma voz feminina.

Andréa ouviu de olhos fechados os termos do documento. Abriu a porta.

- Entrem — disse, num suspiro.

"Nem veio muita gente", pensou, enquanto encostava-se na parede ao lado da porta e observava sua quitinete cuidadosamente arrumada ser posta de ponta-cabeça. Roupas, revistas, livros, fotos, sapatos, produtos de limpeza, os poucos copos, pratos e talheres que tinha, tudo ficou fora do lugar.

A busca terminou. Ninguém encontrou nada. Depois de uma formalidade qualquer, Andréa se viu novamente sozinha em 35m2 de pura bagunça. Sentou-se no chão e respirou fundo. Pensou em ligar para o celular de uma das companheiras e dizer que estava caindo fora. Receber um mandado de busca e apreensão e sair tocando fogo pela cidade eram o suficiente. Só faltava decidir o que fazer. Podia vestir um terninho dos tempos de secretariado e rumar para o primeiro preparatório para concursos que encontrasse. Podia fechar a quitinete em Brasília, voltar para a casa dos pais, em Anápolis, e usar o dinheiro que juntou para fazer alguma coisa. Podia enlouquecer de vez e ir para a praia vender artesanato.

Por ora, optou pela saída mais fácil: tomar banho e ir caminhando até a lanchonete a duas quadras dali. Banhar-se, caminhar, fumar e tomar milk-shake de Ovomaltine, não necessariamente nessa ordem, são boas coisas quando não se sabe exatamente o que fazer.

Antes de sair de casa, tentou ligar para Jussara e Mila. Celulares desligados.

Quando passou a chave na porta para voltar à rua, Andréa lembrou-se do trato que haviam feito caso fossem pegas: nunca, jamais, em tempo algum, entregar uma à outra ou colocar uma à outra em condição de suspeita.

Ao por os pés no térreo, o corpo da moça travou.
Andréa temeu que o pacto não valesse nada.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Andréa, uma obra de ficção - Parte 1

Andréa acordou num pulo, às 4h, quando ouviu a voz de Bell Marques, do Chiclete com Banana, na música que havia escolhido para toque de celular. Pensou imediatamente em tragédia. Em algo que poderia ter acontecido com a mãe, que era hipertensa; com o pai, segurança; com o irmão mais novo, que saía sem hora para voltar para casa durante as férias da faculdade. Do outro lado da linha, ouviu a voz sussurrando com um forte sotaque pernambucano.


-Minha linda, sou eu. Dê um jeito de se livrar da sua mercadoria AGORA, que os homi estão indo à sua casa com um mandado de busca e apreensão.

- Lascou. Obrigada, flor — disse, desligando e botando a mão na cabeça.


Precisava dar um jeito rápido, muito rápido. Felizmente, era pouca coisa em estoque, tudo dentro de uma só sacola de ginástica. Mais felizmente ainda, Jussara e Mila estavam fora da cidade. Haviam viajado para repor o estoque. As três, que se conheceram numa associação de classe forte, poderosa e dona de um gigantesco prédio na zona central de Brasília, tinham se tornado parceiras depois de se verem de saco cheio da vida, do salário e do crachá discriminatório a que tinham direito. Eram secretárias terceirizadas, uma desgraça do mercado de trabalho local. E, ao mesmo tempo, não queriam entrar na vala comum dos concorrentes aos concursos públicos voltados para pessoas com ensino médio.


Mas também eram espertas. Com os contatos que fizeram entre as madames com quem trabalhavam — e as amigas, irmãs, primas, mães, filhas e sobrinhas das moças — , montaram uma rede de vendas razoavelmente famosa na cidade. Conhecida somente no boca a boca, vale dizer, porque o campo de atuação do trio era absurdamente ilegal. As três compravam no Paraguai e comercializavam no Distrito Federal cópias quase perfeitas das lingeries, dos cremes cheirosos e dos perfuminhos fabricados por uma cobiçada marca norte-americana. A vantagem estava nos preços, 50% menores do que os dos originais. E o atendimento era feito com precisão. Com agenda organizadíssima, com hora marcada para no máximo duas mulheres por vez e sempre num lugar diferente. As jovens moravam em quitinetes bem afastadas umas das outras, todas em prédios comerciais sossegados.


As compradoras enlouqueciam. Andréa, Jussara e Mila haviam conquistado gente de diferentes idades, origens, classes sociais e profissões. Inclusive uma policial federal — pernambucana radicada em Brasília — que se descobriu outra mulher depois de experimentar o hidratante com aroma de mirtilo e chantili. Essa mesma que ligou para a fornecedora às 4h depois de saber da existência de um mandado de busca e apreensão dirigido a ela.


Se algum dia qualquer uma do trio fosse pega, o combinado era que uma jamais entregaria a outra. Mas, em dois anos, nunca precisaram colocar o trato em prática. Se recusavam a viajar juntas em ônibus de sacoleiros. Preferiam rotas alternativas pela Argentina. Quando a grana ficou melhor, podiam dar-se até ao luxo de viajar de avião. Buscavam passagens baratas pela internet e iam. O segredo era nunca fazer farofa, falar alto, nem usar roupas chamativas. Preferiam as calças feitas na costureira, a falta de maquiagem e os pseudo-óculos de grau com aros grossos.


- Ninguém olha para mulheres assim — justificou Mila, bem no começo da empreitada.


Andréa não teve muito tempo para pensar. Promover uma revoada de calcinhas, sutiãs e cintas-liga através da janela da quitinete (já pensou?) era fora de cogitação. Primeiro, porque chamava a atenção demais. Segundo, porque ninguém pegaria aquilo tudo àquela hora da madrugada. Terceiro, porque continuaria sem saber o que fazer com os creminhos que sobravam. Vestiu os pseudo-óculos (davam-lhe um ar intelectual) e teve uma ideia. Nem sequer trocou de roupa: saiu de quimono e chinelos. Pegou a bolsa de ginástica, um par de luvas de borracha, uma garrafa de álcool, o isqueiro Zippo comprado no Paraguai e a chave do Uninho.


Conduziu o carro em direção a uma área de cerrado deserta e próxima ao Lago Sul, onde tinha visto queimarem lixo uma vez. No caminho, mordia os lábios de tanto nervosismo.


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Se tudo der certo, continuo amanhã, minha gente. Beijos.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

O milésimo

Galera, post rápido só para anunciar que este blog recebeu o milésimo visitante desde o dia 2 de janeiro, quando resolvi botar um textinho aqui só de brincadeira e acabei retornando de vez.

Sei que ele (ou ela) é brasileiro (a), mas o Sitemeter não diz exatamente de onde veio.

O importante é que estou orgulhosa à beça: escrevi algumas coisas legais, conheci gente divertida e recebi visitas de lugares altamente improváveis.

Yeah! o/

Melissa

O despertador tocou: 5h. Naquele dia, Melissa acordou uma hora mais cedo para lavar o cabelo e fazer escova. Tomou café, se arrumou e, precisamente às 6h37, saiu fazendo toc-toc-toc-toc com os saltos altos de advogada no piso de madeira da casa onde ainda morava com os pais pertinho da Esplanada dos Ministérios.

Antes de continuar, seria bom explicar que lugar é esse onde Melissa mora. A Vila Planalto nasceu a partir dos vários acampamentos das empreiteiras que construíram Brasília. Recebeu inúmeros pioneiros, pessoas que vieram de fora e permaneceram na cidade mesmo depois do fim da obra. Hoje, seus moradores vivem em casas, e não em prédios como os do Plano Piloto. O comércio local é pequeno, mas se destaca no setor de gastronomia. Fica lá, por exemplo, o Rosenthal, restaurante que o ex-cozinheiro de Juscelino Kubitschek comandou até a morte, em 2005. A Vila é como se fosse uma cidadezinha do interior incrustada em plena capital do país.

Pegou a bolsa e a chave do Celta azul-marinho. Apertou o botão do alarme, mas ele não funcionou: o carro estava aberto. Mas a casa era gradeada e o auto ficava do lado de dentro. A vizinhança era tão tranquila que não era um grande problema esquecer de trancar uma vez ou outra.

Antes mesmo de abrir a porta do carro, reparou num barulhinho.
Um miado tímido. Dois miados.
- Não pode ser - pensou.


Abriu a porta, vasculhou os bancos, o porta-luvas, o porta-malas. Nada de gato.
Deixou a bolsa de lado, foi até a varanda da casa, olhou o jardinzinho que a mãe cultivava, remexeu os móveis da área da churrasqueira. Nada de gato.

Os miados cresciam em volume e duração.

Melissa voltou ao carro e se aproximou do único lugar que tinha esquecido de verificar. Abriu o capô. E viu dois pares de orelhinhas se mexendo. Era um mistério como tinham parado justamente ali, perto do motor.

A Vila Planalto fica perto do Lago Paranoá e de extensas áreas de grama e de cerrado. Lá, corujas voam e montam ninhos sem serem incomodadas. Cachorros circulam à vontade. E gatos vadios eventualmente atravessam as grades das casas para visitar os moradores.

- Graças a Deus, não liguei o motor. Deus me livre e guarde - disse, com o coração aos pulos.
Agachou-se e começou a chamar a dupla de gatos.
- Pssss, psss, psss, psss. Vem aqui, vem, gatinho. Pssss, psss, psss, psss. Ei, chaninho, vem com a mamãe, vem.
Depois de 15 minutos de pss para cá, chaninho para lá e nada, e já preocupada por conta do atraso (precisava bater cartão no tribunal às 7h em ponto), Melissa foi à cozinha e colocou leite num pires para ver se os gatos se animavam a sair dali.
E os gatos? Ainda no motor, miando.

Melissa podia deixá-los em paz e ir para o trabalho de busão, não fosse um detalhezinho de nada: ali, os ônibus demoravam a passar e eram péssimos. Seriam necessários uns dois deles e mais incontáveis minutos a pé em ruas cheias de barro duro e com poucas calçadas. Táxi também não dava. A moça não tinha um real na carteira, só cartões de crédito.

Usar o Gol dos pais, então, nem pensar: para tirá-lo da garagem, primeiro teria de afastar o próprio carro, o que significaria ligar o motor e matar os gatinhos imediatamente. Resolveu chamar o pai, aposentado, que ainda dormia feito um anjo. A mãe acabou abrindo os olhos também.
- Pai, acorda. Me ajuda a tirar um gato do motor do carro?
- Como é? - seu Domingos perguntou, entre sonolento e incrédulo.
A mãe achou que estava sonhando. Virou para o outro lado e continuou dormindo.
- Mas como é que o gato foi parar lá? – quis saber o pai.
- Na verdade, são dois, pai. Dois gatos. Não tenho a menor ideia de como isso aconteceu. O pior é que eu já tinha que estar no trabalho e não consigo fazer nenhum deles sair dali.
- Já chamou os dois, ofereceu comida, essas coisas?
- Já. Vou ligar para o trabalho e avisar que vou chegar mais tarde.

O pai achou uma antena antiga de tevê no quarto que servia de depósito. Aproximou-se do motor do carro e cutucou os bichos com cuidado. Três minutos depois, o primeiro deles saiu dali, atravessou o portão da casa e correu rápido, muito rápido. Era grande e rajado de cinza. O outro, um preto com manchas brancas que davam a impressão de haver meias nas patas, precisou de um pouco mais de tempo, uns 10 minutos, mais ou menos. Esse era mais folgado: ainda rondou o pires e tomou leite. Saiu miando calmamente em direção à rua.

- Obrigada, pai – retribuiu Melissa.
- Não foi nada, minha filha. Agora, vá, ou você se atrasa muito. Me liga quando chegar lá – pediu o homem.

Melissa chegou ao tribunal, estacionou, vestiu o crachá e subiu até a sala de trabalho. Já sentada à mesa, ligou para os pais e contou para os colegas, aos risos, o inacreditável motivo que a havia deixado um pouco atrasada naquela manhã de quarta.
Pouco antes das 9h, pegou uma pasta e uma caneta. Tinha de descer até o térreo e entrar numa reunião no prédio anexo. Entrou no elevador.

Quando a viagem terminou, a porta se abriu e Melissa quase desmaiou.
Dois gatos – um cinza gordo e um preto de patinhas brancas – esperavam-na pacientemente, em frente à porta do elevador, no hall de entrada do prédio. Não havia mais ninguém ali.

domingo, fevereiro 01, 2009

Infiel: Notas de uma Antropóloga

Entre os tantos livros que estão na pilha do escritório para eu terminar algum dia, está Infiel: Notas de uma Antropóloga, que ganhei e comecei a ler numa noite sem sono. Apesar de ser bem escrito e permitir uma leitura rápida, o livro não é assim, superfantástico, porque foi feito, entre outras coisas, para mostrar a repercussão que suas obras anteriores (A Outra e De Perto Ninguém é Normal, entre outros) tiveram na imprensa. Até o momento, acho que ela se prolonga demais ao apresentar as reportagens que mereceu e, por isso, também espaça demais o melhor da obra, que é o relato de Mônica (nome fictício).

Trata-se de uma jornalista, que, depois da infância difícil, tornou-se independente, madura, cheia de borogodó, com vários casos, namorados e rolos e um único amor. Não sei como a história dela termina. E digo: o que mais que impacta no depoimento de Mônica não é a maneira como ela descreve o pai violento, a vinda para a cidade grande, as coisas que viveu na profissão e nem os muitos homens que teve. É o trecho que reproduzo abaixo, sobre um tema que tem me cutucado tanto que não pude deixar de compartilhar neste blog.

“Como jornalista, sei a dificuldade que as pessoas têm para ouvir. As pessoas, em geral, adoram falar sobre si mesmas e prestam muito pouca atenção no que os outros dizem. Fico impressionada, pois até os psicanalistas que entrevisto falam muito mais do que escutam. Eles já têm idéias preconcebidas sobre tudo e desatam a falar, sem nem mesmo prestar atenção às perguntas que faço. Tenho entrevistado, nos últimos anos, inúmeros profissionais para as matérias de comportamento que escrevo. Inúmeros “ólogos”, como dizemos na redação: psicólogos, antropólogos, sociólogos, sexólogos, etc. E cada vez mais reparo na dificuldade que eles têm para ouvir e na falta de interesse que têm pelos outros. Algumas vezes passo horas só escutando e eles nem percebem que não abri a boca, entro muda e saio calada e continuam falando. Fico até enjoada só de escutar o tom de suas vozes. Reclamam do governo, do patrão, da esposa ou do marido, dos filhos. Os que estão sozinhos reclamam que faltam homens e mulheres interessantes, como se eles merecessem alguém interessante. (...) É fácil perceber que se parassem de falar e ouvissem mais, prestassem atenção aos outros, se tornariam muito mais interessantes”.

Bom domingo a todos.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Pedaços de apuração

No Pedaços de Apuração, pretendo mostrar as histórias que não saíram na reportagem por total falta de espaço. Hoje, apresento o depoimento de Acácio Costa Calil, mineiro, professor de geografia da rede pública do Distrito Federal e sócio – junto com a irmã, Lucimar – do Pamonhão Kalú (assim mesmo, com acento). O misto de restaurante e lanchonete, que nasceu para ser especializado em produtos de milho, é um dos poucos de Brasília que conseguem se manter há mais de 30 anos. Detalhe para quem não veio aqui ainda: fundada há 48 anos e nove meses, a cidade tem um mercado gastronômico volátil, em que muitos lugares abrem e fecham em pouco tempo.

Descobri a coxinha de milho produzida lá durante a pesquisa para uma reportagem publicada nesta sexta-feira. Custa R$ 2,50 e vem quentinha. Tem recheio farto, com milho comum (e não o de lata, que tem sabor totalmente diferente), um pouco de frango desfiado e cebolinha numa quantidade mínima (nem precisei catá-la, hehe). O sabor surpreende porque o tempero é feito para valorizar o grão. Sei, no entanto, que muita gente vai resistir a experimentar por conta da atmosfera da casa. Digamos que o Kalú não é exatamente um lugar para levar um gato ou uma gata num primeiro encontro. Digo mais: a dupla de irmãos se beneficiaria tremendamente se pusesse tudo abaixo e fizesse um lugar moderninho e descolex especializado em coxinhas de milho.

A história contada pelo Acácio é bacana porque revela um pouco o que era viver em Brasília e no Brasil nos anos 1970, época de fundação do restaurante.
Se o Edilson me mandar fotos do salgado, eu ponho no ar mais tarde.

“A coxinha de milho é uma receita que minha mãe, Luzia - que infelizmente não vive mais - criou em fevereiro de 1973. Naquele tempo, Brasília quase não tinha opções de lazer. Primeiro, havia o Conjunto Nacional, que era exclusivamente para fazer compras. Aliás, o Conjunto, que hoje é enorme, teve três fases de expansão. Além dele, havia o Gilberto Salomão, o Beirute, o Pamonhão, o Food’s - também na 110 Sul – e só.

Nosso cardápio tinha pamonha, curau e milho cozido. Depois, minha mãe pensou em fazer coxinha, um petisco servido em todos os bares. E pensou: ‘Minha especialidade não é milho? Então, vou botar milho na coxinha’. No primeiro dia, ela não vendeu nenhuma. Meu pai, libanês criado em Minas, brigou tanto com ela... Dizia: ‘Desde quando milho tem coxa?’.
Mas dona Luzia, que era goiana e conheceu meu pai em Minas, era persistente. No segundo dia, ela fritou um monte e resolveu que ia distribuir para quem fosse lá comprar outras coisas. As pessoas começaram a achar gostoso e a comprar.

A massa é a tradicional de coxinha, não muito grossa, e o recheio tem milho, frango e cebolinha. Nunca mexemos na receita. Quem comeu há 20, 30 anos, e experimentar hoje vai sentir o mesmo sabor. E o preço sempre variou entre US$ 1 e US$ 1,20. Cotamos assim, em dólar, porque quando meus pais montaram a loja a inflação era muito alta e a moeda mudava a toda hora.

O milho vem de Nerópolis, em Goiás, de uma fazenda de produção irrigada que fornece só para nós durante o ano inteiro, inclusive na entressafra. O curioso é que, quando o Pamonhão começou, era difícil ter milho o ano inteiro, porque a produção irrigada só se popularizou lá pelo fim dos anos 70 e nos anos 80. Antes disso, quando chegava junho, julho ou agosto, a gente tinha de fechar por pura falta de milho e dar férias coletivas. Uma vez, em 1974, ficamos 30 ou 40 dias sem. Foi por isso que resolvemos diversificar o cardápio.

Na época, o Pamonhão ficava na 110 Sul, em frente ao Beirute, e era um point de fim de noite. Só fechava junto com o Beirute – se ele quisesse fechar às seis da manhã, a gente agüentava até lá. E muita gente da música de Brasília passou por aqui. O Digão, dos Raimundos, adorava a coxinha; os meninos do Capital Inicial vinham também, assim como o Oswaldo Montenegro. Aliás, há muitos anos que o Montenegro me deve uma conta”.

PAMONHÃO KALÚ
105 Norte, Bloco D, Loja 3; 3273-7967. De terça a domingo, das 11h30 às 23h.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Homework: Obama

A Jill, que está me ensinando a escrever melhor em inglês, me convenceu de que seria legal publicar esse artigo, originalmente um dever de casa, no blog. Como eu gostei pra caramba de como ficou o texto, mostro-o aqui hoje, com as datas atualizadas. Fiz na última segunda-feira, sem consultar muita coisa e antes de ler notícias tipo esta. A foto é de Jack Gruber, do jornal USA Today. Como diriam os norte-americanos, enjoy... :-)


Inauguration Day 2009: Obama on the reviewing stand

The nearly-messianic inauguration speech delivered by the 44th president of the United States, Barack Obama, in Washington D.C. in January 20th dazzled hundreds of millions of people all over the world, including countless Brazilians who stood by TV screens in every possible place: at work, at stores that sell electronic devices, at cafes, just to mention a few. At the United States Capitol, Barack Obama presented a speech that was clearly inspired by the ideals of Abraham Lincoln and in the braveness of all the anonymous American citizens throughout history.

Written by 27-year-old Jon Favreau, known as Obama's mind reader, the words of new United States president were absolutely comprehensive. Both the author and the former senator tackled each and every issue that currently matter for the American population: economic crisis, homeland security, health care and education systems, environment and infrastructure, among many others. Meanwhile, in Brazil, many journalists were thrilled; friends celebrated; people paid close attention, and some Brazilians even shed a few tears provoked by a unique combination of words that expressed Obama’s will to lead a new era of peace, prosperity, and racial reconciliation.

Although it was fascinating to see Obama’s statements in Washington, unfortunately one of the reasons for such tremendous joy among Brazilians is the fact that not everyone understands one critical thing: the economic policy discreetly advocated by the new American president in his speech may not benefit the South American country. Obama’s State-oriented, protectionist approach to economy is extremely likely to have a negative effect in the Brazilian energy sector. The sentence “We will harness the sun and the winds and the soil to fuel our cars” suggests that, with a little help in the shape of subsidies, American ethanol producers can become more aggressive, whereas the Brazilian government will have to continue their uphill struggle to commercialize sugarcane ethanol in the United States.

Articles in the press describe the alleged empathy that the new secretary of agriculture, Tom Wilsack, has for the Brazilian biofuel. That is rather suspicious, since he is from Iowa, the greatest corn ethanol producer in the US. Also, the presidential concern regarding the search of environmentally correct energy sources is something to be applauded. But I will only believe in Wilsack’s empathy and in Obama’s concern only when I see the United States government lower the subsidies given to the local ethanol producers, who are much less efficient than the Brazilian ones. I have a feeling that I’ll have to be patient about it.

The government, parts of the media and the people of Brazil should not be blinded by Obama’s speeches and promises and pay more attention to their ethanol commercialization, which is extremely important for the country. Thousands of job openings may be created and millions of dollars can be earned if that market is strenghtened. Brazil’s government must be better prepared to defend its claim in the World Trade Organization (WTO). In a phone call with president Luiz Inácio Lula da Silva last Monday, Barack Obama affirmed his interest in increasing cooperation with Brazil in the energy sector. Further meetings scheduled between representatives from both countries will reveal whether the new US president is sincere or if his words are mere lip service.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Fontanarrosa, el Negro

Hoje, quarta-feira, dia mais punk de toda a semana, vou de post curtinho só para não ficar longe demais do blog.

Se não tivesse voltado a estudar espanhol (para escrever melhor nessa língua), não sei se algum dia eu teria ouvido falar do argentino Roberto "El Negro" Fontanarrosa (1944-2007), nascido em Rosario, escritor, quadrinista, humorista e um fã incontrolável de futebol. Desde que fui apresentada à obra do homem por meio de um vídeo no Youtube mandado pela prof., achei tudo muito bacana.

Neste site, dá para conhecer melhor a vida e a galeria de personagens do Fontanarrosa, que inclui figuras bizarras como o matador de aluguel Boogie, o Oleoso, o qual lembra demais alguns dos papéis do Schwarzenegger.

Aqui, você pode assistir a uma dramatização ótima do conto Viejo con Árbol, exibida no Canal 7 da Argentina. O som não está assim, uma Brastemp, mas dá para entender a conversa facilmente.

E, finalmente, neste link, está a primeira parte de uma palestra de que ele participou num congresso sobre a língua espanhola. O tema escolhido pelo humorista -- anistia aos palavrões -- provocou muitas risadas e algum desconforto, já que havia presidentes e tudo no auditório. Vou aproveitar que estou indicando o vídeo a vocês e assistir também. :-)

Amanhã eu escrevo mais. Beijos!

terça-feira, janeiro 27, 2009

Cecília

Acabou de dar na tevê: 24 graus em Brasília. Como é julho, o céu não tem uma nuvem, o vento lá fora é louco e a umidade deve estar em 25%, 30%, ou menos até do que isso. Aqui em casa, apesar de bater um sol, eu sinto um frio tão animal que vou ter de listar tudo o que estou usando. Estou tipo um mulambo. Ridículo: duas meias normais, uma meia-calça, uma calça bailarina, uma camiseta, uma blusa de moletom, uma manta de alpaca que meu pai trouxe da Bolívia e, pqp de asa!, não sei mais o que eu faço para não congelar. Vou tentar descobrir onde guardei mesmo as luvinhas da viagem para Bariloche, aquelas com forro de carneiro.

Quer dizer, eu poderia tentar fazer isso se eu também não estivesse num cansaço animal. Não consigo mais. Vou ter de ir para a cama. Ou fico aqui? Pronto: vou ficar aqui e ver tevê só mais um pouco. Ou, se eu animar, vou até a banca comprar chicletes. Podia rolar um Trident roxo para passar esse bafão que nenhuma pasta de dentes resolve. Minha dieta não proíbe.

Eu não sei se digo que esse é um dos dias mais felizes da minha vida ou um dos mais inúteis. Acordei às 9h21 com o barulho da obra lá fora e me pesei: 41,5Kg para 1,68m. Fera. Só que, como sou uma estúpida, resolvi me presentear com a caixinha de morangos que mamis trouxe do Oba ontem. Comi inteira. Não pus nem adoçante de tão bons que estavam. Morango, uma unidade de 7g: 5 calorias. Isso vezes 24 dá 120 calorias.

Aí, vim para o computador ler os blogs das meninas, escrever alguma coisa no meu, botar umas fotos no fotolog, entrar no MSN para descobrir se a Amanda, minha irmã mais velha, conseguiu a passagem para vir para cá na semana que vem, baixar o disco do Fall Out Boy e escolher um modelo de iPod para minha mãe trazer do Canadá quando ela for para lá. Quando vi, já eram quase 13h30 e fui tomada por uma mega-fome. Pensei nas 120 calorias do café-da-manhã, que deveriam me sustentar pelo dia todo, e suspirei. Eu tinha duas opções: saquinho de sopa de queijo da Herbalife (91 calorias), salada (x calorias, dependendo dos ingredientes) ou suco de limão (com adoçante, zero caloria). Como nem Marisa nem ninguém está aqui hoje para lavar folhas e tal, preferi o suquinho. Foram uns três copos para encher bem.

Resolvi esperar o sol ficar mais fraco para ir malhar, e aí fiquei fazendo uma série de coisas. Quer dizer, fiquei tentando fazê-las, porque me deu uma leseira monstra e um frio do cão. Tentei pegar uma revista, mas fiquei muito devagar para ler. Dependendo do que for, eu paro a frase e volto para o começo. Entendi a primeira palavra? Ok. Entendi a segunda? Ok. E assim vou juntando tudo até formar frases. Só que é uma droga ler assim. É tipo voltar pros meus 6 anos. Mais tarde, se eu conseguir levantar para ligar o computador, vou perguntar lá no fórum se isso é normal.

Rezei para pedir perdão por não ter visitado a minha avó ontem (ela prepara praticamente um café colonial alegando que estou muito magra), para pedir que a Amanda chegue logo e para que eu consiga perder rápido os quilos que faltam. Andei um pouquinho, parei na porta no quarto da Amanda, fiquei olhando um tempão para as 31 latinhas de cerveja na estante dela e chorei, mas quase nada, de saudade. Antes de ir para o sofá, montei o meu mulambo com todas as peças de roupa que achei no armário. Pensei que seria altamente irônico se agora, que eu estou quase podendo vestir um short, uma regata ou um biquíni sem ficar com as pelancas todas aparecendo, eu tiver que andar assim por causa do frio que sinto. Caraca, essa casa é muito gelada.

Agora são 24 graus em Brasília, quase 17h30, e eu não fiz nada a tarde inteira. Tive uma manhã fera compensada por uma tarde inútil e estou sem coragem nem para ir à banca para comprar chicletes. Preciso decidir o que fazer. Mas acho que não vai fazer mal se eu virar assim de lado, me cobrir com a manta, fechar o olho e finalmente me esquecer de tudo.

Cecília compete com Érika pelo posto de personagem mais triste da minha criação.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Yael Naim



Eu adoraria fazer um post gigantesco hoje (bolei umas histórias legais), mas não parei desde cedo, nem vou parar agora. Ainda há coisas trabalhosas a fazer. :-P

Deixo-os na companhia da cantora franco-israelense Yael Naïm, que descobri esses dias, não me lembro como. A moça fez com Toxic, de Britney Spears, mais ou menos o que o maranhense Zeca Baleiro fez com Proibida para Mim, do Charlie Brown Jr. Vocês vão ver os vídeos ou é melhor eu antecipar? :-)

Beijos.

domingo, janeiro 25, 2009

Léo

Meu primeiro personagem masculino. Enjoy.

Não repara não, hoje eu tô meio devagar, me deu uma dor de cabeça estranha mais cedo, e olha que eu nem estou para ficar menstruado. Huahuahauhauahuahuahuahauhauahuahauhauhauahuahuahuahuahauhauahuahuahuahauauhauhauhauhauahuaua... arf, arf, arf. Foi mal, eu tinha que fazer essa brincadeira. É nisso que dá ter três irmãs, mãe, primas, uma sobrinha, namorada, duas cunhadas, uma sogra supernova e umas 30 amigas. Já saí muito para comprar absorvente interno, externo, pequeno, médio, grande e até o hospitalar, que é gigante. Fiz tanto isso que perdi a vergonha. Fiquei mais sem-vergonha do que já era. Também conheço os efeitos colaterais do Ponstan, do Buscopan e de todos os remédios para cólica. Sei na prática o efeito de cada uma das alterações hormonais pelas quais a mulher passa num mês. Praticamente tirei um ph.D. em ginecologia.

Não virei ginecologista, mas esse negócio de viver com um monte de mulheres em todos os lugares, com todas elas chamando Léééo pra cá, Léééo pra lá, me mostrou uma série de coisas importantes, que vão muuuuito além do papo médico e daquele conselho de dar um tempo pra moça quando ela estiver com TPM.

Tenho formação de programador e desenvolvedor para a web e, curiosamente, fui parar numa empresa onde esse setor é 100% masculino e coalhado de nerds que, apesar de serem pessoas de caráter excelente, não pegam nem gripe. Num dia em que a minha namorada foi comigo a uma festa de fim de ano do povo do trabalho, deu o diagnóstico completo.

- Mô, tá explicado. Olha o visual deles! Já vi sapato social com meia esporte branca, camisa xadrez azul pra dentro da calça, com camiseta amarela por baixo, zíper aberto... Eles acham isso bonito? – ela me disse, segurando o riso.
- Você ainda não viu nada – retruquei.
- Eles sabem conversar, pelo menos?

Tive de explicar: não, não sabem. Esses aí precisavam de, sei lá, um curso de convivência com as mulheres. Primeiro, para sentir que elas não mordem. Basta saber observar, chegar, perguntar, falar, escutar, responder e não ser mala. Segundo, para aprender que usar meia esporte branca com sapato de trabalho, pagar cofrinho, ter pelos saindo pela gola da camisa e limpar o ouvido com tampinha de caneta Bic não são opções válidas. Sobre isso, qualquer uma vai saber orientar. Ninguém precisa ser metrossexual – a propósito, ô, palavrinha ridícula – para entender. Terceiro, para aprender que há mais na vida do que conversar sobre CVS, SVN, MVC, TDD, games, RPG, putaria online e outras coisas nerds bem típicas. Aliás, de putaria online esses caras entendem. De vida real, zero.

Outra coisa que o convívio com mulheres me ensinou, e na porrada, foi a diferença básica entre ser um cara maneiro, com quem tanto dá para bater papo numa boa quanto dar uns pegas, e virar um irmão ou um amiguinho gay. Porque existem diferenças entre esses dois últimos. O amigo bonzinho é aquele apaixonado que ouve todas as agruras da menina com o maior amor e só. Nunca vai ter uma chance real com ela, a não ser num momento de carência louca da moça – e olhe lá. Mané total. O outro é aquele com quem dá para falar de homem, fazer fofoca e compras no shopping, ir numa balada de electro cheia de drags, dançar até o chão e sentar no colinho porque nada acontece. Comigo não tem essa não. Sentou no colo, já era.

Mas até eu entender essas diferenças levou um tempo. É preciso saber a hora certa de falar e de ouvir, não ficar babando, fazer rir e, quando necessário, saber ter uma certa... Uma certa malandragem, não sei se essa é a palavra. Tem que saber a hora de encerrar o assunto quando ela começar a se lamuriar por causa do cara que você quer que saia de cena. Muita gente que eu conheço está acordando para essas coisas. Outros ainda nem se deram conta e estão virando irmãozinhos. Eu ainda penso que, um dia, se eu perder a paciência com o trabalho e não quiser fazer um concurso, ainda posso ganhar uma grana dando noções de sobrevivência a pessoas como aquelas lá da empresa. Posso dar umas palestras, umas aulas. Taí uma idéia. E o mais legal é que aprendi tudo isso de graça.

Enquete alhures

Originalmente, direito do consumidor não seria um tópico a ser abordado no MCDQEPD. Mas resolvi abrir um post sobre isso porque a questão é importante.

O Blog do Consumidor, da minha companheira de front Naiobe Quelem, pergunta: quem de vocês, ao tentar trocar uma mercadoria, foi surpreendido com a resposta de que seria necessário devolver o produto à loja para que ele fosse submetido a uma análise técnica?

Por meio da resposta, o Procon do DF e o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios saberão o quanto a prática -- ilegal -- virou algo corriqueiro no Distrito Federal. Leitores de outras cidades e estados também estão convidados a contar suas histórias nos comentários.

Eu já passei por isso e antecipo: bater o pé nessa situação vale a pena!

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Procedimento de sobrevivência na chuva

Ofereço, como cortesia, uma sugestão de procedimento destinada àqueles que precisam andar na rua nessa época de chuvas fortes e imprevisíveis (para quem ainda não veio a Brasília, é bom saber que temos seis meses de aguaceiro e mais seis de deserto) e, shit!, esqueceram o guarda-chuva em casa (ou nem sequer têm um). Informo que essa quase mandinga foi testada e comprovada por esta blogueira.


Você vai precisar de:

* Uma vestimenta de tecido opaco, escuro e não superleve, de preferência complementada por um casaco imponente, tipo um bom blazer.

* Um par de meias.

* Uma nota de R$ 10.

* Um leque (opcional).


Vista a roupa, coloque o par de meias carinhosamente na bolsa e confira se a nota de R$ 10 está na carteira. Quando você já estiver na rua e a chuva começar a apertar, coloque o casaco sobre a cabeça como se ele fosse um chador (se for mulher) ou um daqueles panos usados pelos xeiques árabes (se for homem). Se estiver com pressa, nada de dar uma de fracote e se esconder debaixo de uma marquise! Segure a onda e continue caminhando até avistar o primeiro vendedor de sombrinhas.

Nessa hora, retire a nota de R$ 10 da carteira e escolha a sombrinha de sua preferência (as melhores são as de cores fortes, tipo roxo ou laranja, porque essas ninguém esquece por aí). Peça ao vendedor para testá-la duas vezes e, nesse momento, eleve seu pensamento aos céus. No momento em que você abrir o guarda-chuva pela terceira vez (para usá-lo de fato) e voltar a andar na calçada molhada, você verá: a chuva parará dois segundos depois. Um sol alucinante aparecerá entre as nuvens ainda cinzentas e vai começar a fazer um calor africano. Hora de maldizer as roupas pesadas sobre o corpo e, ao mesmo tempo, lembrar que quem sai de roupa branca e levinha em época de chuva se ferra. Se você tiver um leque, abane-se!

Você também pode tirar o casaco e arregaçar as mangas da roupa, mas em hipótese nenhuma retire as meias sobressalentes da bolsa! Os deuses da chuva me disseram que os ímpios que o fazem recebem uma severa punição: no aguaceiro seguinte, molham irremediavelmente os sapatos e as meias que estão nos pés.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Todos querem ver Gisele

Coisas que só um dia de folga de plantão pode proporcionar: cozinhar, dormir depois do almoço e poder ver tudo o que eu quiser na tevê. Fiquei com o GNT Fashion sobre a São Paulo Fashion Week (SPFW), que está para mim como a Copa do Mundo está para os fãs de futebol. Anunciava-se, além dos desfiles, uma entrevista exclusiva com a mega-über-top-model-plus Gisele Bündchen, cada vez mais linda e magra, que desfilou três roupitchas para a Colcci (a marca é uma bobagem, na minha opinião; o desfile, idem; mas como a moça vem, todo mundo fica doido).

A maior parte das reportagens de tevê feitas com a moça é anunciada assim: primeiro, faz-se a chamada por uns quatro ou cinco blocos para segurar a audiência (todos querem ver Gisele). Depois, exibe-se o material, que normalmente é pífio, pois são tantos os assuntos proibidos que torna-se difícil elaborar uma lista decente de perguntas. Resultado: é muito difícil ver a modelo falar qualquer coisa que preste. Não é que ela seja burra (se fosse, não teria vencido como venceu) ou pouco eloquente (sei lá, não a conheço pessoalmente). Mas é uma entrevistada quase impossível, pelo que já vi até hoje. Ninguém é perfeito.

Tanto isso é verdade que a tal da exclusiva que a modelo deu para o GNT Fashion não era exatamente uma entrevista (infelizmente, não achei o vídeo no Youtube). Estava mais para um bate-papo como o de duas colegas que se encontram no banheiro do trabalho, sabe como é? Gisele não tem certeza de quem é Carmen Miranda, homenageada da SPFW ("É a das bananas?", perguntou) e também não sabe quem ela gostaria que desenhasse seu vestido de casamento (esse "não" eu até entendo, é para evitar especulações). Também revelou (uh! emoção) que tem dois iPods, um para música brasileira e outro para internacional. E que, no de repertório estrangeiro, o campeão de audiência tem sido John Mayer (pelo menos, tem bom gosto).

A entrevistadora ainda mencionou uma pesquisa que fez no Google e no Youtube para ver quantas menções havia para o nome "Gisele Bündchen¨. E quis saber se ela já havia feito o mesmo. A top garantiu que não. "Tem muita coisa? É coisa boa ou ruim?", respondeu. Fiquei especulando o que eu perguntaria se tivesse reportagem para fazer com a Gisele.

Minha reação suspirante à não-entrevista em questão foi procurar na internet coisas interessantes que já tenham sido veiculadas com a top falando. Descobri que ela se sai melhor em pautas (pautas?) bobinhas, que não exijam perguntas espinhosas e que, portanto, não a ponham em condição de vulnerabilidade. Achei um vídeo aqui e outro aqui. Também encontrei essa tentativa da revista GQ americana de fazer um trabalho mais sensual -- em termos de imagens e de texto também. A reportagem está em inglês e permite perceber como o repórter suou -- não só diante da visão da musa de underwear, mas também para transformar aquele fiapo de entrevista em um material digno de leitura. Recomendo.

Passar horas procurando por material sobre Gisele só para escrever no blog... taí outra coisa que só um dia de folga pode proporcionar. :-)

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Lálálá, estou apaixonada*

Update em 1º/5/2009: você quer saber se realmente está apaixonada? Então clique aqui para ler um post sobre o assunto.

Inacreditável, minha gente. Estou há três anos sem acompanhar nenhuma novela. Passei ao largo dos arranca-rabos de Flora e Donatela, da pegação entre Bebel e Olavo e outras histórias que prendem milhões de brasileiros (e de gente em outros países também!) em frente ao ecrã (adoro essa palavra). E aí, na última segunda-feira, parei 15 minutos para assistir à nova produção das oito na Globo: Caminho das Índias, de Glória Perez. O mais surreal é que tive enorme dificuldade de me segurar diante da tevê durante essa pequena quantidade de tempo. A cada vez que via algo horrível, me levantava para ir embora, mas algo mais forte me impedia (a vontade de sofrer, será? hehe). A novela é ruim, ruim demais, ruim pra cacete!!!!

Depois de criar núcleos que oscilavam entre Rio de Janeiro e Miami (em América) e Rio de Janeiro e Fez, no Marrocos (em O Clone), a autora teve a ideia de fazer uma história que viajasse entre Rio e Mumbai. Botou a Juliana Paes para ser atendente de telemarketing, o Márcio Garcia para ser um intocável que consegue se formar nos Estados Unidos (peraí, achei que os representantes dessa casta não tivessem sequer direito a documentos)... e os dois vão se amar sem beijos, tal qual num filme de Bollywood.

Caminho das Índias tenta imitar a estética dos filmes pop indianos, não consegue e ainda faz pior: tem texto e direção tão bizarros que corrói o trabalho de alguns dos nossos melhores atores. Eu não conseguia imaginar a Laura Cardoso, a Eliane Giardini, o Alexandre Borges ou o Lima Duarte atuando mal. Pois finalmente vi tudo isso.

Não consigo lembrar muito bem dos diálogos, mas sei que em algum momento a personagem da Juliana Paes diz: "Um amor que começa no Taj é um amor para sempre". Para depois repetir romanticamente, com uma dancinha, o nome do amado: "Bahuan, Bahuan...". Aaaaaaaaaaaaaargh!!! Ah, lembrei também que nesse mesmo episódio eles se encontraram umas cinco vezes. Em Mumbai (nem em Brasília isso acontece).

Pelo andar da carruagem (ou seria melhor do elefante?), creio que ainda vou ficar pelo menos mais uns 10 meses longe do folhetim das oito.


* Esse título é a tradução do que a mocinha do vídeo abaixo diz na primeira cena. O vídeo pertence a um episódio dos Simpsons em que a família hospeda o indiano do mercadinho em casa. Tanto o vídeo quanto o episódio completo são sensacionais. Recomendo muito.

terça-feira, janeiro 20, 2009

Tesouros da web 2


Outro serviço bacanésimo que encontrei esses dias é o site do Google onde é possível achar fotos da Life. Há imagens maravilhosas que vão desde 1750 até hoje. Na foto acima, uma exibição de modas da Maison Dior, em Paris, em 1962, quando os desfiles tinham outra cara...

Tesouros da web

Essa matéria sobre os quadros do Museu do Prado, em Madri (Espanha), que podem ser vistos em detalhes saiu hoje no caderno de cultura do Correio Braziliense e passo adiante porque a proposta do serviço é muito legal.

Quem já foi a esse museu, especialmente nos dias em que ele é gratuito, sabe o quanto ele lota e o quanto a busca por olhar algumas das pinturas mais importantes da história da arte pode ser meio enjoadinha. Observar detalhes desses quadros de perto, então, nem pensar, por causa daquela distância regulamentar básica que a segurança dos museus sempre impõe.

Para ver tudo, é preciso ter o software do Google Earth instalado na máquina. Eu ainda não baixei o programa, mas pretendo fazê-lo o quanto antes. :-)


Por dentro do Prado

Catorze obras-primas do Museu do Prado, em Madri, podem ser visitadas detalhadamente, graças a fotografia digital e a recursos de microscópio

Juliana Leão Coelho
Especial para o Correio

O Museu Nacional do Prado, em Madri, uma das maiores pinacotecas do mundo, tornou-se pioneiro em oferecer na internet imagens de seus melhores quadros em mega-alta definição. O projeto, recém-lançado no Google Earth, é fruto de acordo entre o buscador Google e o museu com objetivo de globalizar o acesso à arte. Para começar, foram escolhidas 14 obras-primas entre os 1.300 quadros expostos no Prado.

Usando a mesma tecnologia com que o Google Earth fotografa qualquer canto do planeta, foram tiradas 8.200 fotografias parciais, que depois foram montadas como num quebra-cabeças. O processo levou três meses para fotografar e outro tanto para mesclar com técnicas de microscópio e de atlas. O efeito de aproximação foi surpreendente, de uma nitidez 1.400 vezes maior que a de uma câmera digital de 10 megapixels.

Agora, podem-se ver detalhes que, antes, escapavam ao olho humano, o que é um presente para pesquisadores e amantes da arte em geral. Não somente são mostrados os pormenores secundários da tela, como também os traços e as pinceladas típicas de cada artista, além de pequenos truques. Por outro lado, os efeitos do tempo revelam-se no verniz esquartejado.

O Prado comemora, este ano, 190 anos de existência e entra de cheio no século 21 “com essa ferramenta deslumbrante, de um realismo prodigioso e que pretende universalizar a arte”, entusiasmou-se o diretor do museu, Miguel Zugaza. Os 14 quadros considerados imprescindíveis são de mestres europeus dos séculos 16 ao 19. Entre os espanhóis, destacam As Meninas, de Velásquez, em que ele retrata as princesinhas e a si próprio em segundo plano; o nobre Cavalheiro com a Mão no Peito, de El Greco; e o 3 de Maio, em que Goya mostra os horrores da invasão napoleônica.

Da escola italiana, estão a belíssima Anunciação, de Fra Angélico; o portrait de O Cardeal, de Rafaello; o imponente Imperador Carlos V, de Tiziano; além da delicada Imaculada Conceição, de Tiépolo. Da Alemanha, foi escolhido o autorretrato do belíssimo Albrecht Dürer. Os pintores holandeses e belgas da escola flamenga têm destaque especial. A Crucificação, de Juan de Flandes, e O Descendimento da Cruz, de Roger van der Weyden, são obras-primas da pintura religiosa. Nesse último, pode-se agora apreciar uma lágrima no olho de São João.

Também na tela As Três Graças, em que Rubens pinta as deusas da dança, do charme e da criatividade nuas, aparecem finos detalhes como uma abelha sobre uma rosa. Do gênio Rembrandt, está o quadro Artemisa, para o qual ele teria usado a própria mulher como modelo.

Criação do mundo
A obra mais esmiuçada será, sem dúvida, o tríptico O Jardim das Delícias Terrenas, pintado em 1505 por Hieronymus von Bosch (El Bosco). É uma das peças mais fascinantes da história da arte pelo simbolismo e genialidade e a que mais atrai os visitantes do Prado. Foi comprado pelo rei espanhol Felipe II, que o colocou em seu quarto, no palácio de El Escorial. Representa, nos laterais, a criação do mundo e o inferno. No centro, está o paraíso terrestre com todo tipo de prazeres carnais, desde o sexo livre à gula, descritos com símbolos vívidos e grande desinibição. Daí o enigma do quadro, pois contrapõe-se totalmente à sociedade cristã ultrabeata do século 16. Quando fechado, o tríptico mostra a Terra no terceiro dia da criação e a frase do salmo 33: “Ele o disse, e tudo foi feito. Ele mandou, e tudo foi criado”. Ao abri-lo, na Gênese à esquerda, aparece Deus com Adão e Eva.

O centro é a loucura total, a luxúria desenfreada, porém, bela e colorida. O gozo e o prazer são efêmeros e etéreos, como borbulhas, morangos e flores. As pessoas, todas nuas, não aparentam sentimento de culpa. Segundo vários autores, a Igreja só teria aceitado o quadro por ser uma utopia, pois mostra criaturas fantásticas, animais e plantas extraterrestres. Abundam o sarcasmo e o grotesco, além da crença medieval em bruxarias. O objetivo da obra seria moralizador, pois faz uma crítica ácida a essa humanidade pecadora, segundo a tradição medieval de deformar para dar lições de moral.

Para outros, Bosch (El Bosco em espanhol) era um gênio ultra-avançado para sua época, que conseguiu burlar a Igreja com sua fantasia. O quadro tem mil interpretações e é considerada a primeira grande obra surreal da história, cinco séculos antes de Breton, Dalí, Éluard, Ernst ou Tanguy.

MUSEU VIRTUAL
Para acessar as imagens no site www.google.es/prado, basta ativar a capa 3D dentro do Google Earth, clicar sobre o edifício do Prado e depois sobre cada quadro.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Selma

Eu sempre fui uma fã de livros de viagens. Devorei todos os Lonely Planet que pude, todos os Frommer’s, alguns Michelin e todos os guias com aquelas crianças remelentas na capa. E sou uma colecionadora daquelas revistinhas culturais que vêm em qualquer bom jornal do mundo. Mas, por mais que se leia tudo isso, sempre existe alguma coisa que só os moradores do local conhecem, alguma oportunidade ou roubada que só eles sabem identificar. Eu falo assim porque cheguei a Brasília ontem à tarde para uma reunião hoje na universidade e me aconteceu algo interessante na noite passada. O que eu faço? Sou professora no Rio de Janeiro. Sempre tive uma enorme curiosidade de conhecer Brasília, mas o timing nunca dava certo. Agora vou vir aqui durante um bom tempo porque estou participando de um grupo de trabalho na UnB. Daqui a pouco eu te conto mais sobre isso.


Pois bem: cheguei aqui com ótimas indicações, todas lidas na internet, a respeito de um barzinho no meio da Asa Sul. Como ninguém conhecido ia poder me acompanhar, botei minha roupa social e fui sozinha. Saí do hotel, peguei um táxi e, quando cheguei, vi que o lugar era realmente um charme. Detalhe número um: estava cedo demais. Nenhum brasiliense chega nesse bar às oito e pouco da noite. Só havia um casal de garçons e um rapaz lindíssimo, nos seus 30 anos, sentado numa banqueta, afinando um violão. Escolhi uma mesa e, em determinado momento, vi que ele estava me olhando. Achei isso muito normal. Tenho 45 anos e continuo absolutamente vistosa. Sempre fui assim: morenona, altona, com peitão e bundão. Claro que, depois de uma determinada idade, a pele e os cabelos já não são mais essas coisas, mas ainda assim sinto-me muito bem. Desde que me separei, há três anos, recebo cantadas de homens de todas as idades. Repito: todas.


Cumprimentei o músico e começamos a conversar, cada um no seu canto. Ele me explicou que tinha vindo de Goiânia e estava tocando ali havia três semanas, sempre às quartas-feiras. Deu um risinho e disse que o repertório era surpresa. Pedi uma taça de espumante, um sanduíche parecido com um croque monsieur e deixei-o falando, falando, falando. Quando vi, tinha dado a hora da apresentação começar. Mesmo assim, não havia quase ninguém no lugar. O pessoal só começou a chegar umas três músicas depois. O curioso é que ninguém se sentava no interior do bar, que, por sinal, é elegantíssimo. Iam todos para uma espécie de varanda, um puxadinho ao ar livre, sabe?


O violonista era fantástico. Além de bonito, era afinado, tinha voz de cantor da Motown. E, como todas as pessoas que entravam iam direto para o tal do puxadinho, sem dar a menor bola para a tal da música ao vivo, criou-se uma situação interessante: ele cantou para mim o show inteiro. Olhava para a partitura e olhava para mim. Senti que ele começou a mandar recados por meio das canções. Cantou várias músicas românticas do Buena Vista Social Club, de Caetano Veloso, do Marvin Gaye, do Rod Stewart. E, no intervalo, veio direto para a minha mesa. Falou várias bobagens. Muito facinho esse cantor. Só me faltava essa: vir para Brasília para uma reunião e arrumar um casinho de uma noite.


A gracinha continuou na segunda metade do show. Para cada música típica de repertório de bar, ele vinha com algo absolutamente inusitado e sensual. Eu, que já estava na terceira taça de espumante, me perguntei se a lingerie estava decente e se a depilação estava em dia. As respostas foram, respectivamente, sim (nada de calcinha bege) e sim. Ah, meu Deus, e cada olhar. Comecei a contar quanto faltaria para o fim da apresentação.


Quando ele finalmente chegou, o rapazinho começou a agradecer por todos que tinham ido lá naquela noite (a verdade era que ninguém tinha dado a mínima; descobri que o pessoal vai para a varanda para não ter de pagar couvert artístico, pode? Isso, só quem é local sabe). Avisou que aquela música era a última da noite e uma de suas preferidas. E aí me dei conta de que ele não tinha cantado nada nem de Chico nem de Vinicius. Pensei que seria um final maravilhoso para um show assim, romântico. Pois lá veio ele com Chico e Vinicius.

"Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar..."

Juro que não entendi. O homem me passa o show inteiro falando em magia, paixão e sedução e, no final, me vem com “gente humilde, que vontade de chorar”? E o que ele cantaria depois que a nossa transa acabasse? Trocando em Miúdos? Credo. Perdi a vontade na hora. No meio da música, fui ao banheiro, chamei um táxi, fechei a conta e fim. Até esperei ele terminar, mas sem ânimo algum. Inventei um mal súbito, dei-lhe um beijinho no rosto e fui embora. Ele ainda me perguntou se eu não lhe daria o meu telefone, mas desconversei. Adoro os homens, adoro namorar e não tenho nenhum preconceito contra histórias de uma noite. Sei que viver esse tipo de coisa vai ficar mais difícil daqui pra frente. Ao mesmo tempo, sei de uma coisa: o peito é meu, a bunda é minha, a pele é minha. E só dou tudo isso a quem tem um mínimo de coerência.

domingo, janeiro 18, 2009

It's raining, man




Sabor de sábado

Meu plano para este sábado incluía ter um tempinho para escrever no blog. No entanto, acabei ficando tão pouco em casa (entre o momento de acordar e agora, uma meia hora, no máximo) que só deu tempo para responder um comentário, tomar banho e sair de novo. Em compensação, vi, ouvi e experimentei várias coisas legais na rua e registrei inúmeras idéias de textos e fotos para colocar aqui. Achei que seria legal deixar uma dica ou outra para quem já está na cidade ou pretende vir a Brasília em breve.

Quem vem do Recife, de Fortaleza, Natal, Aracaju, Salvador, Teresina ou Belém pode pular essa. Quem está aqui já conhece ou precisa conhecer esse lugar. E quem ainda virá de outras cidades não pode ignorar de jeito nenhum o Boteco, na 406 Sul. Foi inaugurado no segundo semestre do ano passado e ganhou fama muito rapidamente entre os boêmios daqui por inúmeros motivos bons e dois ruins. Entre os bons, está a decoração incrível, o atendimento gentil (artigo de luxo nessa cidade) e os petiscos inacreditáveis (pense em coxinhas de camarão e caranguejo, empadinhas de queijo do reino e outras fofuras). Em compensação, o colarinho do chope ocupa meia caldereta (pelo que li, é uma espécie de regra da casa, que estava para se tornar mais flexível depois de várias reclamações feitas pelos freqüentadores).

O outro aspecto chato tem a ver com o fato de o bar ter ficado tão querido: o lugar está sempre, todos os dias, invariavelmente lotado. Ou se chega às 18h ou nunca mais se consegue mesa. Por via das dúvidas, quem vai à noite deve dar uma olhada rápida no movimento antes mesmo de estacionar o carro. Se estiver com fila, esqueça. Já dei meia-volta durante tantas noites que acabei escolhendo outro horário para matar a saudade de lá: o do almoço. Pode-se fazer isso às sextas, aos sábados e aos domingos. Na sexta, a partir das 12h. No restante do fim de semana, a partir das 11h30. De segunda a quinta, é só à noite mesmo, das 17h em diante.

Nesse horário, a freqüência não é a mesma da do período da noite. É tão tranqüilo que dá para escolher a mesa. Há muita gente com família e criança e várias mesas com uma galera nos seus 45 ou 50 anos. Como não animei de beber (medinho da lei seca), não pude comprovar se realmente tornou-se possível que o colarinho do chope venha ao gosto do freguês. O legal é que provei uma receita que estava me intrigando havia semanas: a tal da paella de cabrito. Gente, bom demais.

A preparação é como a de uma paella comum, com muito açafrão, só que sem os frutos do mar. No lugar deles, vêm vários pedaços desfiados de cabrito e de uma lingüiça ótima. Não tenho muito mais o que descrever. A paella vem fumegando numa cumbuca pequena e a porção é individual, mas bem-servida. Quem tem ou está (como eu) com estômago míni pode dividir o prato e ainda provar mais alguma coisa do cardápio. Vale a pena. E o preço, R$ 12,90, é bem acessível, outra raridade nesta capital.


BOTECO
406 Sul, Bl. D, Lj. 35; 3443-4344. De segunda a quinta, das 17h à 1h. Sexta, das 12h às 2h. Sábado, das 11h30 às 2h. Domingo, das 11h30 à 1h.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Observação entomológica número 1


Duas fotos que tirei lá em casa num dia de bobeira me fizeram pensar (num momento de mais bobeira ainda, é claro) sobre quem teria a existência mais dramática: os insetos que voam em volta das lâmpadas ou a cigarra da fábula de La Fontaine. Não sei de quem sinto mais pena.
A cigarra, como o autor faz questão de deixar claro, é uma louca irresponsável que, depois de não guardar comida para o inverno, ainda se humilha diante da formiga e definha aos poucos, até morrer. Já os bichinhos não precisam pensar em estoque. Devem se abastecer com micróbios coletados em qualquer lugar.

Os insetos da luz passam por um processo de auto-destruição que me faz lembrar de todos os casos de pessoas que já se acabaram em raves porque o ecstasy não bateu bem. Pelo menos na minha casa, eles vivem uma noite só. Chegam, voam, voam e voam desesperadamente, da mesma forma que alguém tomado pela droga dança, dança, dança e surta de calor. Na manhã seguinte, os insetos (assim como os que sucumbem aos comprimidinhos) estão estatelados no chão, murchos da silva, completamente ferrados, com as asas ressecadas pelo sol. Ao menos, morreram fazendo o que sabiam, e não pedindo clemência — é o que gosto de pensar.

Esteticamente falando, os voadores da lâmpada não só não causam nenhum asco como são muito mais legais. Eu não tinha a menor noção disso até o dia em que encontrei o espécime da foto, com umas manchas brancas incríveis na parte de baixo. Aproveitei que ele já estava morto mesmo e fiquei horas reparando nele. Só senti falta de um microscópio.

Depois dessa observação, pensei, medi, pesei. Contra si, os insetos da lâmpada apresentam apenas o fato de não terem um nome específico para eles. Naveguei no Google usando todas as palavras-chave que pude e não encontrei um link sequer capaz de me dizer que espécie é essa. Várias pessoas que conheço chamam-nas de bruxinhas, mas eu quero um nome apropriado, científico, pô. A cigarra da ficção até tem nome, mas sua feiúra e seu lento fim são incomparavelmente trágicos. Ô, vidinha mais fdp.

Frase do dia

De Glória Kalil à reportagem do Fashion Rio, no GNT. A moça perguntava que tendências de moda horrorosas -- tipo calça skinny, sandália gladiador ou calça sarouel -- teriam ainda fôlego para mais algumas temporadas:
"A calça sarouel é uma peça realmente democrática: consegue ficar horrível em todo mundo".
Fiquei ainda mais fã da Glória Kalil.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Não

Em mil ocasiões, eu li teorias (todas opinativas e nada científicas, é bom avisar) sobre a incapacidade dos brasileiros de dizer não. Segundo os tais textos, nossa reação varia entre enrolar (falar que sim, mas depois apresentar uma desculpa qualquer para desistir), dar um perdido (por exemplo, prometer que vai ligar e, depois, nunca mais fazê-lo) ou deixar a coisa no ar (“vamos ver” é uma frase ótima para isso). Até para isso nossa famosa criatividade nos ajuda: supostamente, sabemos vetar, por limites ou manifestar nosso desinteresse sem causar mágoas imediatas ou passar por malvados.

O curioso é que, recentemente, me dei conta de que tem muita gente, cada vez mais gente, aliás, dizendo “não”. Mais estranho ainda: a palavra nunca é usada no sentido para o qual ela existe. Essa é a definição do Houaiss: “Advérbio. Expressa negação como recusa absoluta a uma pergunta ou resposta; como recusa qualificada às situações anteriores; como contestação seguida de nova versão à pergunta ou resposta”. Não para por aí. Recomendo que deem uma olhada no dicionário para ver o texto completo, com exemplos e tal.

O “não” tal qual eu tenho ouvido por aí virou uma bizarra muleta de linguagem. Uma introdução a qualquer frase. Para usar uma definição nerd, se incorporou à função fática da comunicação (vejam aqui um texto simplinho sobre o assunto). Passou a ser usado mais ou menos da forma como os americanos usam o “It’s like”, e os franceses, o “Pffffffff” (pense num francês mal-humorado bufando). Não sei se é um comportamento brasileiro ou puramente brasiliense. Quem é de outras cidades pode dar uma opinião lá nos comentários. Observem e me digam.

No último sábado, quando já estava com vontade de escrever sobre isso, achei o exemplo ideal – até para mostrar que esse uso torto do “não” pode causar sobrancelhas levantadas, mal-entendidos, etc. Estava numa sorveteria perto de casa com uma galera. Como ainda ia chegar mais uma pessoa e ela não teria onde se sentar, minha amiga pediu uma à moça da mesa ao lado. A resposta:

- Não... Pode sim, claro!

Em um milésimo de segundo, minha companheira de mesa abriu um olhão como quem estivesse tentando entender se ia ou não conseguir a tal cadeira.

Senão vejamos: a jovem do nosso lado era uma louca, esquizofrênica e contraditória? Quereria ela sacanear gratuitamente a minha amiga? A entonação da primeira palavra era completamente diferente do resto da frase para tentar comprovar alguma das questões anteriores? Negativo para as três perguntas. O “não” estava mesmo deslocado do resto da fala. A maior prova disso é que a moça nos cedeu rapidinho a cadeira.

Tenho vários outros exemplos que vou ouvindo no trabalho e em conversas outras, mas vou usar só esse mesmo para o texto não ficar muito grande (são quase 2 da madrugada e amanhã preciso acordar cedo). Acho que me fiz entender.

Seria esse um vício de linguagem dos novos tempos? Um substituto light à feiura do gerundismo (“Não vai estar dando para estar rolando”, etc.) que se infiltrou na língua nacional por meio dos manuais de telemarketing? Um novo motivo para os nossos estudiosos escreverem textos e mais textos? Por enquanto, fico com uma resposta supostamente à brasileira: veremos. Agora, preciso dormir.