segunda-feira, março 23, 2009

Vieram para confundir



De todas as imagens que dão sobrevida ao visual do concreto aparente de Brasília, esta (na 107 Norte) é uma das mais intrigantes. Não sei se é falta de referência da minha parte ou se a pintura é feita para confundir mesmo, mas não consigo dizer com clareza quem é quem. Pela posição e pelas cores, a personagem da esquerda pode ser budista ou hindu. O da direita me fez lembrar de João Cabral de Melo Neto e de João Guimarães Rosa. Me lembrei que o segundo aparece em mil fotos (tipo essa) de terno e chapeuzinho. Mas ele não é exatamente igual ao usado pelo indivíduo da direita.

Supondo que o cidadão seja de fato o Rosa, podemos passar para a segunda parte do mistério: o que os dois estão fazendo lado a lado?

Pensar que trata-se do autor de Grande Sertão: Veredas é melhor para mim, porque me permite especular com um pouco mais de propriedade (haha). O encontro de dois personagens tão diferentes levitando tão perto um do outro faz pensar em transcendência. Em misticismo, coisa que o velho Rosa levava a sério. E na frase "As pessoas não morrem, ficam encantadas", que o escritor tornou célebre ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras, em 1967. Encantamento é uma boa definição para o que se passa entre a figura de amarelo e o homem de terno. Dá para pensar que cada um deles vive a experiência a seu modo. Como, no mais, todos nós fazemos.

Se tivesse que optar por só um modo de transcender, ficaria mil vezes ao lado do Rosa e das letras. Descobri cedo que meditação e yoga -- seja lá o que a personagem de amarelo está fazendo -- não são e nunca serão algo para mim. Não me peça para visualizar um feixe de luz azul voando sabe-se lá por onde, ou para executar qualquer sequência além da saudação ao sol. Tentei muito, tentei até demais, e me dei conta de que quanto mais meu espírito busca a luz, mais me agarro às coisas terrenas. Ao dever de casa que preciso terminar. À informação que preciso checar para uma matéria. À droga que é não conseguir jogar o ar lá para o diafragma enquanto o corpo faz 78 coisas ao mesmo tempo e treme para se segurar na posição.

Agora, sentir as portas da mente se abrirem diante de um texto fantástico é outra experiência. Troco mil aulas de yoga por um livro de Rubem Braga ou qualquer outro escritor bom. Quem faz negócio comigo?

Quero saber quem mais arrisca uma interpretação. Consigo pensar em mais uma, mas o tempo está curto para desenvolvê-la. Vou tentar mais tarde. Enquanto isso, aguardo (sentada, haha) os comentários.

domingo, março 22, 2009

Listinha dominical

Essa é curiosa. Dia desses, estava navegando à toa na vida quando descobri que fui convidada pelo Daniel Becher a responder uma lista (também conhecido como meme) sobre cinco coisas que me irritam. Detalhe: o tal convite foi feito há uns dois anos, quando achei que a minha vida blogueira já tinha acabado. E só recentemente soube que ele existia. Seguem as respostas. E, caro colega da blogosfera, perdoe o atraso.

* * * * * Cinco bobagens que irritam esta blogueira * * * * *

1. Pisar de meia no chão molhado

Isso costuma acontecer com quem considera chinelo um item secundário. E é um saco! Principalmente quando você acabou de vestir a meia.

2. Restaurantes self-service que salpicam cebolinha e coentro em ingredientes nada a ver

Você está lá no restaurante, feliz e contente, montando uma saladinha para o almoço. Quando vai pegar, por exemplo, a beterraba ralada, vê que há um quilo de cebolinha a título de decoração. P****, cebolinha é feia e embrulha o estômago. Cebolinha não é decoração, cebolinha não deveria ser sequer recomendada para o consumo humano! Já deixei de botar algumas coisas no prato em várias ocasiões porque achei que o esforço para catar esses temperinhos (sim, porque eu cato todos eles) ia acabar com o meu prazer de comer.

3. Calçadas que levam do nada ao lugar algum

Fiz um post sobre isso recentemente. É uma das coisas mais brasilienses que existem, e quase ninguém toca no assunto.

4. Ar-condicionado sem medida

Funciona assim: ou ele está desligado ou ele dá temperatura polar ao ambiente. Como numa vez em que viajei à Bahia de ônibus, estava um calor do inferno e o motorista disse que o ar-condicionado só funcionaria mais tarde, quando a noite ficasse mais fria. É mole? Pois foi exatamente o que aconteceu. Na madrugada, esfriou. E o ar ajudou a dar mais uma geladinha na galera. Brrrrrrrrrrr.

5. Barulho de secador de cabelo

Essa é auto-explicativa. É inacreditável que, com tanta tecnologia nesse mundo, ninguém ainda tenha feito nada para resolver o problema. Imagine quem trabalha como cabeleireiro e tem de ouvir esse barulho todo dia, toda hora? Infernal.

Bom, é isso. Espero que as respostas não estejam muito bizarras.

Normalmente, esse tipo de lista vem acompanhado por um convite para cinco pessoas responderem. Vou burlar a norma (oh!!!) e não chamar ninguém especificamente porque nunca sei quem está com tempo ou paciência para essas coisas. Quem quiser responder responde -- seja nos comentários, seja nos próprios blogs. E se quiser botar o link para o MCDQEPD no blog, vou achar lindo. Bom domingo a todos.

sábado, março 21, 2009

Circo agridoce

Galera, conforme prometi ontem, encerro hoje a minha saga cearense com as fotos de um circo que andava bombando em Canoa Quebrada na semana da viagem.

Infelizmente, me esqueci do nome. Se me lembrar em algum momento, atualizo o post. Que, por sinal, vai ser comprido. Preparem-se.

A faixa acima foi o motivo principal pelo qual resolvi adquirir um ingresso já meio suado, com jeito de que tinha sido reutilizado muitas vezes. Precisava saber que jeito tinha um fight de anões.

Os pequenos artistas comandam o circo, a começar pela bilheteria. Dizem-se uma família formada por sete pessoas, tal qual na história da Branca de Neve. Mas há circenses de outros tamanhos também.

Do lado de fora da lona, a gente vê várias pessoas que entrarão em cena mais tarde. Primeiro, elas vendem maçã do amor, espetinhos, bebidas, etc. Depois, vão ao picadeiro ajudar no número dos palhaços, engolir fogo, fazer acrobacias e por aí vai. Todo mundo faz tudo junto. O espírito do circo é isso aí.

O palhaço abaixo é um dos mais frenéticos que já vi. Chega dançando o funk The Book is On The Table. A molecada pira.

Depois, ele pega o microfone e sai fazendo perguntas engraçadinhas para a plateia. Nessa hora, dá para ver que muita gente está ali pela segunda ou terceira vez, porque ele reconhece algumas pessoas e tal. Gostaria muito de ter feito uma foto desse cara no estilo Diane Arbus... Fica para outra vida. Pretensão demais da minha parte! hehe.
As crianças não desgrudam o olho.
Tudo ia muito bem até o momento em que o palhaço começou a fazer esquetes com outros circenses. Pô, falar palavrão num espetáculo para criança é dose, né? E eles falavam vários. E faziam referências aos orifícios e às genitálias uns dos outros. É um tipo de humor apelativo, que não me agrada. Honestamente, não sei se a molecada entendia tudo aquilo ou não.

Gostei mais de ver os outros números. De verde, na foto abaixo, o acrobata Allison Vilar. Apesar de novinho, já é um showman. Tanto que ainda consigo me lembrar do nome dele.

Esse quadro de tecido também foi bacana. São dois irmãos. O de branco era o mais gracioso.

Primeiro, ele sobe na corda. Depois, faz de tudo um pouco lá em cima.

Abaixo, o irmão dele. Eu realmente preciso de um tripé.

Ao final de cada quadro, os artistas iam para a plateia para assistir aos outros. Gostei disso também. Mas acabei indo embora quando o engolidor de fogo saiu de cena para dar lugar a um novo esquete de palhaços. Não dei conta das piadas... e precisava voltar andando sozinha numa pista de areia até a pousada antes que ficasse muito tarde.
E o fight de anões? Vai ficar para outra vida, já que essa era uma atração prevista para as semanas seguintes. A não ser que o circo vire algo permanente e eu volte para lá. Pelo menos fiz umas fotos legais.

sexta-feira, março 20, 2009

Broadway, etc.

Gente, essa é a última leva de fotos da Broadway, a rua mais bombada de Canoa Quebrada.

Amanhã, eu mostro um circo aonde fui e aí paro de falar da viagem, porque do contrário vou querer ir para lá de vez. Oh, inconformidade por Brasília não ter praia. :-)


Duas divas: Betty Boop e Marilyn Monroe. A primeira delas, numa versão bem inocente. A segunda, por sua vez, decidiu que agora só vai para o baile funk... daquele jeito.

São José (cujo dia foi comemorado ontem) batiza um mercadinho. Adorei a pintura.

Canoa não é só a Broadway. Há uma série de ruazinhas paralelas que contam até com praça de alimentação. Se o meu mapa não está errado, ela fica na Rua Francisco Carço.

Olha ela aí!

.... Não é pastel, mas parece. Nunca vou saber do que se trata de verdade porque a tal pracinha só abre à noite. E eu só a descobri no último dia... *suspiro*

quinta-feira, março 19, 2009

Oh, crianças - 2

MENINA - Mãe, você não respondeu à pergunta que eu fiz na mensagem que mandei.
MÃE - Qual?
MENINA - Que eu mandei agora há pouco, por telefone.
MÃE (pega o celular e lê a mensagem) - "Mãe, aonde vamos almoçar hoje?" É essa?
MENINA - Essa mesma.
MÃE - Ah, a gente pode ir no...
MENINA (interrompe com irritação) - Não me responde assim, mãe! Responde por mensagem!
MÃE (balançando a cabeça) - Não estou acreditando...
MENINA - Por favor...
MÃE - Aaaaafff, tá bom (e volta-se para o teclado para responder).

Ouvido por um colega do maridón num supermercado de Brasília.

quarta-feira, março 18, 2009

Senhoras e senhores... a Broadway!

Eu não sei quem teve a ideia de chamar a rua central de Canoa Quebrada de Broadway. Mas a irreverência do negócio é louvável. Hoje, ela tem pouco mais de 1km de comprimento e está toda fofa, calçada com pedras portuguesas e tal. Nem sempre foi assim. Algumas pessoas para quem mostrei as fotos e contei as histórias relataram o salto de evolução na paisagem local.
Com vocês, ladies and gentlemen, a Broadway, vista desde a Praça Dragão do Mar.

Quem olha a foto nem imagina o sol que rachava os cocorutos de homens, mulheres, crianças, cachorros e gatos àquela hora da manhã.

Perto da Broadway, no caminho para a vila de pescadores, há uma igrejinha.


Um quilômetro e pouco pode não parecer nada, mas em se tratando de Broadway é coisa à beça. Lojinhas de roupa, de artesanatos bacanas, de souvenirs bobos (tem quem goste), imobiliárias, lan houses, salões de beleza, bares e restaurantes de todos os tipos ocupam cada milímetro da rua. Tenho ojeriza à expressão "para todos os gostos e bolsos", mas no fundo ela se aplica bem ao lugar.

A via principal de Canoa tem uns detalhes curiosos, tipo o nome da escola abaixo. Depois, descobri que Zé Melancia é o nome de um pescador e poeta que, de tão respeitado, batiza até uma rua paralela à Broadway. Aqui e aqui, você lê um pouco mais sobre ele.

Essa lan house também é incrível. Ora, se os canoenses têm até a Broadway, por que não poderiam fazer sua própria Beverly Hills?

O nome desse forró também chama a atenção. Me dá a ideia de uma bagunça organizada. :-)


Para o post não ficar muito comprido, faço uma segunda parte da Broadway qualquer hora dessas...

terça-feira, março 17, 2009

A lua lá longe


Acreditem: a foto acima é de uma lua no momento em que nasce atrás das dunas e tem sua imagem refletida nas águas de um pequeno oásis. O cenário é Canoa Quebrada, Ceará. Foi uma visão tão inacreditável que não consegui pensar nem em técnicas de fotografia, em regulagem de máquina nem em nada mais. Deu no que deu: uma foto conceitual, para não dizer horrenda. Depois, fiquei pensando sobre a falta que faz um tripé.

Depois do primeiro clique, voltei ao normal e consegui fazer esses registros.

A lua arrasou naquele dia. Valeu a pena ser picada por uns 17 mosquitos ao mesmo tempo só para conseguir fotografá-la. Calombos? Imagiiiiiiiiina. Quase nada.

Terminei a sessão dando vivas e mais vivas ao zoom ótico (10x) da máquina. Zoom ótico é tudo, minha gente. Amanhã eu mostro a Broadway de Canoa pra vocês. Beijos!

segunda-feira, março 16, 2009

Depois da onda pesada, a onda zen


Será que é preciso contar a história? Bom, vamos lá. :-) Canoa Quebrada, Ceará, começou a virar destino de viagem lá pela década de 1970, quando uns hippies atravessaram a pé umas dunas enormes e se deram conta de que, aê, o visual de lá dava um transe místico.


Antes disso, o lugar era um vilarejo de pescadores sem luz elétrica nem nada. Aos poucos, ganhou uma infra bacana (pousadas, restaurantes, comércio, passeios organizados) e uma estrada em estado razoável que a conecta com o resto do estado.


A vila de pescadores continua lá. Foi até filmada para uns episódios de Malhação. A novelinha da Globo, aliás, deu uma euforia em várias pessoas locais. Agora que Canoa Quebrada foi exibida na tevê, pode-se ver na cidadezinha a jangada que apareceu na Malhação, a barraca de praia da Malhação, o parapente da Malhação, etc., etc., etc. Dá para se divertir observando isso.


A lua e a estrela, símbolos de Canoa (que tiveram origem no desenho que um paquistanês fez durante os anos 70), também foram devidamente registrados para a tevê. Este, da foto, é o original. Ao longo da praia, dá para ver umas duas ou três reproduções nas pedras das falésias.


O canto onde fica essa escultura é supervisitado por bugueiros e turistas. Mas, tirando a obra de arte, esse pedaço de praia nem é tão espetacular. Achei com cara de malcuidado. Melhor andar em direção às barracas Lazy Days (a da Malhação, hehe) e do Casqueiro (também conhecida como Barraca do Símbolo). Perto dali, uns recifes de corais deixam a água com ondas bem calmas. Uma delícia para nadar.




Esse pedaço de mar (foto acima) fica perto da vila dos pescadores. Outro lugar bom para ir é depois do restaurante Bom Motivo. Dali em diante, a praia é praticamente sua. São quilômetros e quilômetros de areia branquinha e quase ninguém por perto. Sensacional. Vale avisar que, por lá, o mar é mais agitado e tem correnteza forte. Melhor ir de manhã cedo, na maré baixa.

Essa duna onde a galera faz aerobunda e esquibunda fica fora da cidade. É preciso descolar um passeio de buggy, o que é facílimo: basta procurar alguém da associação de motoristas. Eles ficam no centro da cidade (a Broadway) com suas camisetinhas brancas de manga azul.


Me amarro muito nessa foto aí de cima, tirada durante o passeio nas dunas. Acho que foi a mais legal que fiz na viagem.

Essa foi feita no mesmo passeio. Nada como ter máquina com um superzoom ótico. Esse cara estava longe à beça, caminhando sozinho, sabe-se lá para onde.

Tenho fotos de lua nascendo nas dunas e fotos da Broadway. O que coloco no ar amanhã? Mande um comentário e ajude-me a decidir. Bjo! :-)
Esqueci de dizer: o título deste post vem de uma música de Seu Jorge (do ótimo disco América Brasil, de 2007) mais do que adequada para lembrar de um lugar legal assim.

Prêmio Dardos - 2

Yeah! o/ O MCDQEPD recebeu novamente o Prêmio Dardos. Desta vez, veio pelas mãos do Diadema de Angola. À MJ, editora do blog: gratíssima!

"Com o Prêmio Dardos, reconhecem-se os valores que cada blogger emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc., que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os bloggers, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à web. Este prêmio obedece a algumas regras:

1) Exibir a imagem do selo;
2) Linkar o blog pelo qual se recebeu a indicação;
3) Escolher outros blogs a quem entregar o Prêmio Dardos".

Os dardos agora voam em direção ao blog 2009, do Ugo Braga.

domingo, março 15, 2009

Oh, crianças - 1

MENINA - Pai, o que é esse sorvete de menta egípcia?
PAI - É tipo aquele de chocomenta, só que sem o choco. Só tem a menta.
MENINA - Ah, bom.

Ouvido em uma sorveteria em Brasília.

Blog, o retorno

Muita, muita saudade do blog depois de uma semana em Canoa Quebrada, Ceará. Uma semana sem pensar em trabalho, internet e blazer preto para aguentar o ar-condicionado.

Uma semana pegando sol de dia e assistindo a bizarrices na tevê à noite (tipo Caminho das Índias e a cobertura que o Pânico na TV fez do mardi gras), depois do jantar na Broadway.

Foi sensacional. Entre outras coisas, nunca vou me esquecer do dia em que tomei Chicabon no café-da-manhã. De todas as fotos que tirei -- em especial as da lua cheia nascendo entre as dunas. De todas as músicas engraçadas que ouvi. É muita coisa para lembrar.

Quem não foi a Canoa precisa conhecer já: o lugar é fantástico! Durante a semana, vou colocar umas fotos e umas histórias aqui. Se alguém quiser saber de dicas, posso passar umas.

Também deixei um post programado para hoje, mais tarde -- que é para eu passar o resto do dia paparicando a família e sentindo saudade do maridón. ;-)

sábado, março 07, 2009

Uma folga pequenina

Pessoal, vou dar uma folga de uma semana para o MCDQEPD. Espero que, no próximo domingo, quando estiver de volta, eu seja uma blogueira menos cansada, estressada, preocupada e... BRANCA! Com sorte, voltarei ligeiramente bege, hehe.

Conto tudo quando chegar. Enquanto isso, comportem-se, hein? ;-)
Vou sentir saudades. Beijo.

sexta-feira, março 06, 2009

Trilhas urbanas

Os arredores de Brasília – Chapada dos Veadeiros, Pirenópolis e cia. – são famosos por suas trilhas incríveis. Quer dizer, incrível é modo de falar, já que qualquer coisa que envolva trilha, mato, barraca e mosquito é um ultraprograma de índio. Mas não é preciso sair da capital para fazer uma caminhada com emoção. Basta querer andar em qualquer lugar que não seja, sei lá, o Parque da Cidade, o Olhos d’Água, a Água Mineral ou a Península dos Ministros.

Fora desses lugares altamente recomendados por esta blogueira, você poderá encontrar de tudo. Meu empecilho favorito são as calçadas que levam do nada ao lugar nenhum, tipo essa aí embaixo. Ela começa linda, loira e japonesa, toda feita em concreto lisinho. E aí, quando acaba a quadra residencial e o campão da entrequadra surge, ela simplesmente para de existir. Dá lugar a uma grama maltratada, ora pontilhada por tufos, ora cheia de falhas que deixam ver a terra irregular, dura e argilosa do cerrado. Mil pedregulhinhos completam a paisagem. Imagine andar aí num dia de chuva.


Para mim, poucas coisas (desconsiderando as óbvias, tipo a arquitetura de Niemeyer) são tão a cara da cidade.

Essa calçada da foto aí em cima recomeça uns 500m depois, com uns bloquinhos de concreto que proporcionam uma adrenalina razoável. Experimenta andar de salto aí, bem ao jeito das brasilienses, para você entender o que estou falando.


Brasília não é só uma capital que privilegia os carros – há 1 milhão deles, pelas estatísticas mais recentes - com suas longas distâncias e pistas largas. É uma cidade que trata muito mal os pedestres. Os cadeirantes, então, nem se fala. Ela pune aqueles sem condições de comprar um meio de transporte individual ou que apenas querem uma maneira diferente de chegar a algum lugar. Os ônibus são uma droga. O metrô é bom, mas ainda não atende a todo mundo. O taxi é caro.

Ontem passei por uma quadra comercial onde o tapume de uma loja em obras invadia a calçada inteira e obrigava as pessoas a ir pelo asfalto. Detalhe: em uma quadra onde fila dupla é coisa mais do que normal. Pense na delícia de se aventurar entre os carros. À noite.

Essa é outra cena supercomum: em qualquer lugar de Brasília, a qualquer hora, sempre haverá alguém preferindo o asfalto à calçada ou à grama do canteiro de pedestres, porque ele é liso e contínuo. Pode ter certeza de que são altas as chances da pessoa – local ou turista - estar xingando a capital federal de todos os nomes.

Esta é apenas uma das sandices na cidade que insisto em gostar.

quinta-feira, março 05, 2009

Hey Ya



A turma do Snoopy dança Hey Ya, sucesso do grupo Outkast. Vídeo em homenagem ao níver do melhor irmão do meio já nascido neste mundo.

Ao leitor

Que me perguntou onde achar mostarda em grão em Brasília: respondi à questão no post Momento Ofélia 2.
Quem diria que eu um dia ia dar dicas sobre essas coisas... ;-)

quarta-feira, março 04, 2009

Luxo antropofágico

Em volta das obras de uma filial da Curves, avistei uma série de curvas absolutamente imperdíveis. Um belo dia, alguém foi lá e aproveitou aquele muro todo branquinho de madeirite para fazer uma homenagem à pintora modernista Tarsila do Amaral.



Pensando bem, ninguém melhor que o Abaporu (1928) para fazer as honras de uma casa que diz valorizar as formas arredondadas.


Minha recriação preferida, no entanto, é a de Operários (1933). Clique na pintura da homenagem para vê-la maior e repare nas figuras de olhinhos puxados, nos loiros e nos ETs. Antropofagia pura!


Essa última eu não reconheci (admito) até que uma colega viu a foto e apontou: é A Negra (1923).
Daria uma super-reportagem, um perfil incrível de quem fez tudo isso. Cheguei a pensar que fosse alguém da própria construção o autor das releituras. Mas... na obra, ninguém sabe, ninguém se lembra quem foi! A responsável se recorda de ter autorizado um professor e seus alunos a fazer as pinturas, mas não faz a menor ideia dos nomes das pessoas nem de que escola se tratava. A galera chegou lá, fez os trabalhos e ficou totalmente anônima. É algo ao mesmo tempo interessante e frustrante.
Onde ver: quadra comercial da 105 Sul, em Brasília. Vá rápido, porque a pintura já não está essas coisas... e qualquer dia desses, a academia abre.

terça-feira, março 03, 2009

Girassóis do cerrado

O que eu vou dizer parece com aqueles apelos feitos nas correntes de e-mail, mas é a mais pura verdade: se você tem algo a fotografar, faça isso logo. O dia de amanhã pode não chegar, você pode não estar vivo (toc-toc-toc) ou o objeto da sua foto pode simplesmente não existir mais.

No começo de janeiro, vi uma plantação enorme de girassóis (todos gigantescos) próxima ao Parque Olhos d'Água, em Brasília. Como passei por lá sem câmera e com pressa, não rolou foto. Semanas depois, quando voltei lá, eles já tinham morrido. Acho que foi culpa da chuva. Fiquei chateada, é claro.

Este fim de semana, no entanto, fui lá de novo e vi que novas gerações de flores estavam já curtindo o veranico brasiliense. Ainda bem que fui com a máquina.

Fiz a foto meio torta de propósito. Lá atrás, um legítimo representante da nossa arquitetura mezzo comunista, mezzo desenho dos Jetsons.

Mais uns girassóis adolescentes. Já já eles ficam grandes como os outros.

Aproveitei para testar a função macro da máquina e superar meu medinho de abelhas, hahaha.

Onde vê-los? Na entrequadra 214/215 Norte, perto do Parque Olhos d'Água. A grama da entrequadra é meio feiosa, mas a visão do jardim compensa a visita.

segunda-feira, março 02, 2009

O Fotógrafo

Obs.: se der tempo, eu coloco fotos relacionadas a este post mais tarde.

Usar fotogramas para ilustrar qualquer coisa relacionada ao mundo da fotografia é um tremendo dum clichê. Mas, em O Fotógrafo, livro-reportagem em quadrinhos assinado por Didier Lefèvre (cliques), Emmanuel Guibert (texto e desenhos) e Frédéric Lemercier (diagramação e cores), trata-se de um clichê totalmente perdoável. Eles emolduram uma série de imagens que, combinadas com as ilustrações de Guibert, ajudam a relatar a jornada única – de descoberta, paixão, dor e transcendência – de um profissional que topa acompanhar uma equipe do Médicos Sem Fronteiras (MSF) do Paquistão ao Afeganistão, em 1986.

A história começa com a chegada de Lefèvre (1957-2007) a Karachi e é marcada por um recurso intrigante: na quarta página do relato, entre ilustrações e fotos, três quadrinhos apresentam o título da obra e os nomes dos autores, como se aquilo fosse um filme, e não um livro. Se O Fotógrafo será realmente transposto para as telas, não dá para saber ainda, mas fica claro que existe essa intenção. Se quadrinhos tivessem som, daria até para ouvir a trilha sonora composta para tocar enquanto carroças e muita gente circulam pelas ruas da capital paquistanesa enquanto rolam os créditos.

Durante aquele ano em que a ocupação afegã por parte da URSS ainda vigorava (durou de 1979 a 1989), atravessar a fronteira para levar cuidados médicos aos camponeses não era bolinho. Liderada por uma mulher, Juliette, e escoltada por um tradutor, por inúmeros mudjahedin (combatentes islâmicos que lutaram contra os soviéticos), por 100 burros e 20 cavalos, a equipe caminha durante um mês. Enfrenta o frio glacial e a altitude em desfiladeiros perigosos, onde o risco de queda (ou, no mínimo, de torção do tornozelo) existe a todo instante. Abre mão de luxos como refeições completas, banho e papel higiênico – esse último, interpretado pelas tropas russas como um sinal de presença ocidental no lugar. E, finalmente, chega à aldeia de Zaragandara, a um hospital de guerra que o fotógrafo custa a reconhecer como tal, tamanha a simplicidade do lugar.

Somente no segundo volume da obra a adrenalina da longa caminhada é substituída pela do atendimento aos pacientes. Doenças e acidentes domésticos comuns são intercalados com o sofrimento do guerreiro que perde um dos olhos num incidente algo patético e da moça que fica paraplégica quando um estilhaço de bomba se aloja na coluna, entre outras histórias. Lefèvre e Guibert acertam no tom de sobriedade e em deixar que os casos falem por si. Há pouquíssimo choro, discretos aplausos do fotógrafo ao trabalho corajoso dos colegas (um deles chega a revelar verdadeira paixão por cirurgias feitas em condições sanitárias mínimas) e, o mais importante: imagens que preservam a dignidade dos atendidos e não causam asco em quem as vê.

A saga de Lefèvre e dos bravos doutores em Zaragandara, Afeganistão, parece terminar no segundo tomo – mas, no final deste, ainda descobre-se que há um pouquinho mais de história para acontecer. Ela fica para o terceiro livro, que ainda não foi lançado pela Conrad no Brasil. A quem leu os dois volumes em duas sentadas (leia-se: esta blogueira) só resta esperar que ele venha rápido. Muito rápido!

O FOTÓGRAFO – Volumes 1 e 2
Por Didier Lefèvre, Emmanuel Guibert e Frédéric Lemercier. De R$ 92 por R$ 59,80 na loja virtual da Editora Conrad.

Ah! Clicando aqui você lê outro texto, feito em fevereiro de 2008, sobre a história em quadrinhos (acesso exclusivo aos assinantes do Correio Braziliense).

domingo, março 01, 2009

Dois moços


Primeiro, separados. Agora, juntinhos.
Os dois ficam na comercial da 109 Sul, na passagem entre os blocos A (do bar Beirute) e B.

E, aqui, textinho e fotos sobre uma homenagem à pintora modernista Tarsila do Amaral feita num tapume de obras também na Asa Sul, em Brasília.