sexta-feira, março 06, 2009

Trilhas urbanas

Os arredores de Brasília – Chapada dos Veadeiros, Pirenópolis e cia. – são famosos por suas trilhas incríveis. Quer dizer, incrível é modo de falar, já que qualquer coisa que envolva trilha, mato, barraca e mosquito é um ultraprograma de índio. Mas não é preciso sair da capital para fazer uma caminhada com emoção. Basta querer andar em qualquer lugar que não seja, sei lá, o Parque da Cidade, o Olhos d’Água, a Água Mineral ou a Península dos Ministros.

Fora desses lugares altamente recomendados por esta blogueira, você poderá encontrar de tudo. Meu empecilho favorito são as calçadas que levam do nada ao lugar nenhum, tipo essa aí embaixo. Ela começa linda, loira e japonesa, toda feita em concreto lisinho. E aí, quando acaba a quadra residencial e o campão da entrequadra surge, ela simplesmente para de existir. Dá lugar a uma grama maltratada, ora pontilhada por tufos, ora cheia de falhas que deixam ver a terra irregular, dura e argilosa do cerrado. Mil pedregulhinhos completam a paisagem. Imagine andar aí num dia de chuva.


Para mim, poucas coisas (desconsiderando as óbvias, tipo a arquitetura de Niemeyer) são tão a cara da cidade.

Essa calçada da foto aí em cima recomeça uns 500m depois, com uns bloquinhos de concreto que proporcionam uma adrenalina razoável. Experimenta andar de salto aí, bem ao jeito das brasilienses, para você entender o que estou falando.


Brasília não é só uma capital que privilegia os carros – há 1 milhão deles, pelas estatísticas mais recentes - com suas longas distâncias e pistas largas. É uma cidade que trata muito mal os pedestres. Os cadeirantes, então, nem se fala. Ela pune aqueles sem condições de comprar um meio de transporte individual ou que apenas querem uma maneira diferente de chegar a algum lugar. Os ônibus são uma droga. O metrô é bom, mas ainda não atende a todo mundo. O taxi é caro.

Ontem passei por uma quadra comercial onde o tapume de uma loja em obras invadia a calçada inteira e obrigava as pessoas a ir pelo asfalto. Detalhe: em uma quadra onde fila dupla é coisa mais do que normal. Pense na delícia de se aventurar entre os carros. À noite.

Essa é outra cena supercomum: em qualquer lugar de Brasília, a qualquer hora, sempre haverá alguém preferindo o asfalto à calçada ou à grama do canteiro de pedestres, porque ele é liso e contínuo. Pode ter certeza de que são altas as chances da pessoa – local ou turista - estar xingando a capital federal de todos os nomes.

Esta é apenas uma das sandices na cidade que insisto em gostar.

3 comentários:

Guilherme Zé Gotinha disse...

Brasília. O concreto já rachou, dizem por aí. Conheço-a pouco a pé. Talvez parte da Asa Sul, em épocas de segundo grau. Saía do Sigma, na 713 Sul, e caminhava até a 413 Sul, quase em linha reta. Atravessava os eixinhos, o eixão e alcançava a L2 num caminho seco e desgastante. Mas adolescente nem percebe a musculatura maltratada. Bons tempos? Sei, não. Sigma não me traz boas lembranças.

Mari Ceratti disse...

Caraca... na época não devia ter nem passarela de pedestre. Era rezar para Nossa Senhora do Cerrado e atravessar o Eixão do jeito que fosse possível.
Eu conheço Brasília a pé benzão, nada como ficar oito anos caminhando e pegando ônibus pra lá e pra cá. Podes crer que eu já xinguei muuuuuito...

solin disse...

gente, eu achei graça:

"Ontem passei por uma quadra comercial onde o tapume de uma loja em obras invadia a calçada inteira e obrigava as pessoas a ir pelo asfalto. Detalhe: em uma quadra onde fila dupla é coisa mais do que normal. Pense na delícia de se aventurar entre os carros. À noite."

será que os políticos aceitariam o convite?