sexta-feira, abril 21, 2006

46

É legal andar pelas ruas de Brasília, ver aqueles prédios todos e pensar que eles representam o futuro visto a partir do passado. Andar em Brasília é quase como estar num filme dos Jetsons, que também mostra uma visão do futuro feita por gente que já se foi. A diferença entre nós e os Jetsons é que nós não temos carrinhos voadores, nem empregadas robôs.

Oscar Niemeyer, Lucio Costa e companhia deviam achar as nossas construções superfuturistas quando as projetaram. De fato, a são. Mas, dialeticamente (claro, eles todos eram marxistas), elas também carregam um adorável ar retrô se a gente for parar para vê-las. Andar nessa cidade deve ser como andar por qualquer uma dessas cidades do leste europeu nos tempos do comunismo – nunca estive em nenhuma delas, mas imagino que elas sejam assim. Tudo meio cinza, quadradinho e igual. Pelo menos aqui o nosso frio não é de matar e a gente tem os ipês amarelos e as árvores do cerrado para dar uma colorida no ambiente.

Por trás das linhas retas, dos desenhos ao mesmo tempo leves e sólidos, algo apodrece. Não estou nem falando do que acontece de ruim nos prédios públicos, não é de corrupção que se trata. Prédios de 30, 35, 40, quarenta e poucos anos são, pelo que li recentemente, o equivalente arquitetônico dos bebês. E no entanto eles, nos 46 anos de Brasília, se desmancham por pura falta de cuidado de quem deveria mantê-los. É um descuido que vejo, de forma geral, na cidade que meus pais escolheram para viver e criar seus filhos.

Nos últimos dois anos, a gente viu várias coisas acontecerem por aqui: o prédio do TJ, onde a galera do jornal almoçava direto, foi interditado por tempo ilimitado. Os vidros da catedral estão a ponto de despencar. O prédio do INSS pegou fogo não faz nem seis meses. O palácio da Alvorada passou por uma reforma longuíssima porque até dia desses ele estava um horror.

Uma pessoa de 46 anos, hoje, não é sinônimo de pessoa caída.
Uma cidade de 46 precisa ser assim?

(OBS.: estava há um tempão para escrever esse texto, mas ele tomou um rumo totalmente diferente do que eu tinha imaginado. Depois faço outros abordando tópicos que não apareceram aqui. Ah, sim, eu gosto muito de viver nessa cidade).

2 comentários:

Roberto disse...

Também, quer o q? Prédios públicos não são sequer obrigados a seguir norma de incendio, CIPA, brigadistas, nada disso existe pro governo. Um prédio público é como uma senhora de 46 anos que adotou a filosofia de "o que nascer em mim eu deixo crescer". Válido pra fungos, eczemas e doenças várias...

Ricardo Goothuzem disse...

E triste é ler que a reforma do Palácio da Alvorada foi custeada por "empresas", leia-se empreiteiras.
A respeito da visão socialista do mundo, ela não faliu à toa: era mecanicista demais, século 19 demais pra sobreviver...