quarta-feira, julho 22, 2009

Cocho

Na escola, em frente à cantina, havia uma pia coletiva apelidada de cocho por causa de seu formato. Ela era igualzinha a um desses comedouros usados para animais. Das torneiras, jorrava uma água permanentemente fria, qualquer que fosse a época do ano.

Paulo sabia exatamente o que o líquido naquela temperatura provocava no corpo. Desde que havia mudado de escola, não tinha passado um 5 de outubro sequer sem receber o que os colegas chamavam de "homenagem". Primeiro, uma sessão de ovada com tinta e farinha. Depois, mergulho no cocho. Coisa de menino de quinta série.

Houve, porém, um dia em que o garoto tomou banho sem que fosse seu aniversário. Foi no dia em que escreveu na mão esquerda tudo o que queria dizer para Sofia. Ela estudava três salas à direita da dele e andava com as nerds de vez em quando, mas era até bem bonitinha.

A cagada de Paulo foi não ter ido direto falar com Sofia assim que o sinal do recreio tocou. Ao invés disso, ele foi à cantina comprar chicletes, tic-tacs ou qualquer outra coisa que lhe garantisse o hálito de hortelã na hora de conversar com a menina. No meio da muvuca no balcão, não notou que os colegas maiores armavam emboscadas para os magrinhos como ele.

Para Paulo, reservaram um gesto simples: alguém foi lá e abaixou o elástico da bermuda até os joelhos. Quando olhou para trás e viu quem fez isso, virou bicho. Esqueceu Sofia e os tic-tacs. Logo percebeu que ia ter de brigar sozinho com mais de um garoto. E não quis nem saber: lembrou-se dos filmes de luta que o irmão mais velho via e tentou aplicar uns golpes.

Mas sua valentia não durou muito. Na verdade, foi só um minuto e meio, tempo suficiente para um dos grandões ver o texto escrito em caneta azul entre as linhas da mão esquerda.

- Sofia, eu preciso dizer que você é muito linda. Quero ficar com você desde o dia em que você entrou na escola - leu o brutamontes em voz alta.
- Aaaaaaaaah, que meigo. Diz aí quem é a Sofia, que a gente te leva até ela - respondeu outro.
- Leva ele pro cocho, pô - retrucou o primeiro.

Paulo chutou, berrou e se debateu, mas teve de experimentar de novo o arrepio nos pelos e a dor nas pedrinhas do peito. Maldita água gelada. O bedel só chegou depois que o garoto já estava todo encharcado, com a mão borrada de promessas de amor.

Para os grandões, suspensão de três dias (e eles acharam ótimo).
Paulo, por sua vez, se prometeu duas coisas: 1) Conquistar Sofia bem longe dali (por sorte, a menina tinha faltado à aula naquele dia); 2) Dar o troco.

O tempo passou.
Primeiro, o garoto se matriculou no kickboxing.
Meses depois, encontrou a musa num show de axé e criou coragem para dar-lhe uns beijos ali mesmo.
Não demorou muito, começaram a namorar. Só não contou a história do cocho porque era muito humilhante.

Agora que tem Sofia nos braços, Paulo considera seriamente a hipótese de deixar a vingança de lado.

2 comentários:

Erasmo disse...

Essa é uma daquelas, como diz o Gustavo: "É tudo verdade, até o que é mentira"?

Mari Ceratti disse...

O cocho é de verdade. :o)