sexta-feira, dezembro 30, 2005

Dança da morte, a resenha incompleta

Quão grande deve ser uma tragédia para conseguir revelar a cara mais pobre de um país como os Estados Unidos, em que quase toda a sociedade se marca pela opulência, pelo excesso?

Na vida real, a resposta veio neste ano de 2005: um furacão, fenômeno relativamente comum no país, foi forte o suficiente para arrasar uma cidade como New Orleans. Bastou isso para que se revelasse uma população absolutamente carente, para que a gente visse pessoas amontoadas em estádio, num esquema completamente sem lei – estupros, assassinatos, etc. Não é que a gente não tenha esse tipo de coisa também aqui no Brasil. Seja onde for, histórias como essa me espantam e vão (espero) me indignar sempre. Mas acho que a gente cresceu se acostumando a ver sempre a vida brilhante do lado de lá (isso é tema para outro texto).

Já na ficção, o grande drama é um pouco diferente, mas não menos devastador. Há aproximadamente 15 anos, Stephen King descreveu (no que dizem ser seu melhor livro, Dança da Morte) uma grande, enorme epidemia. Por um erro estúpido em uma base de estudos com vírus, um homem se contamina e passa a transmitir um tipo mortal de gripe a todos que passam por seu caminho. Primeiro, a esposa. Depois, a filha pequena. Os três saem como loucos dirigindo pelo país, tentando fugir do local de estudos. Quando finalmente sucumbem ao poder do vírus, quase destroem um pequeno posto de gasolina à beira da estrada.

Estamos em Arnette, Texas, uma cidadezinha que bem poderia ser retratada num desses documentários do Michael Moore. O local um dia sediou uma fábrica de calculadoras, fechada e transferida para a China. Por conta disso, boa parte de seus habitantes passou a viver de bicos e, principalmente, do seguro-desemprego do governo.

Duas dessas pessoas estão no posto arrasado pelo acidente com a família infectada. Se tamanha pobreza ainda não havia sido suficiente para atrair a atenção pública, o vírus mortal certamente será suficiente para fazê-lo (atenção: isso é uma previsão que faço baseada no que já li da história. Só percorri umas 80 páginas, das quase mil que o livro tem. O Dança da morte que leio é uma reedição acrescida de aproximadamente 400 mil palavras. Como vêem, uma obra colossal).

Para os habitantes de Arnette – cidade que imediatamente entra em quarentena –, a comida decente, as roupas limpas e a atenção médica adequada só virão porque, desgraça das desgraças, a população foi atacada por um vírus que mata em dias. E porque a praga é totalmente nova, carecendo de estudos mais detalhados, o que deveria ter sido feito pelos bem-alimentados e bem-pagos integrantes do laboratório arrasado.

A tragédia foi capaz de trazer aos pobres de Arnette condições materiais ligeiramente melhores, mas creio que muitas e muitas páginas vão se passar até que alguém lhes dê um pouco de dignidade. Leia-se: dizer a eles o que, afinal, está acontecendo; porque, afinal, eles estão sendo retirados da cidade e enclausurados, tendo o direito de ver somente os médicos que se vestem de astronauta.

Histórias de ficção sobre epidemias assustadoras , isso há aos montes. Eu mesma já vi várias, umas sobre bactérias e vírus malucos, um filme sobre o Ebola, etc. Mas essa capacidade de fazer a gente pensar no impacto social dos grandes desastres é algo que me cativou no livro de King. E é exatamente por isso que ele permanece incrivelmente atual. Não tem nada tão 2005 quanto furacões (e outros fenômenos naturais) devastadores, gripes estranhas e gente perdida sem saber porque está tão mal.

Como já havia dito, ainda estou no começo da história e muita coisa nova deve se revelar. Dança da morte é desses livros que contam a história de um personagem por capítulo. A gente sabe, portanto, que quando todos eles se juntarem, o resultado promete ser envolvente. Empolgante. É dessas histórias que a gente insiste em ler mesmo quando o sono bate e os olhos ficam mais fechados do que abertos.

3 comentários:

Felipe Campbell disse...

Eita, o último disco do Iron Maiden se chama "Dance Of Death". Tem uma música homônima, inclusive.

Adoro Stephen King, mas ele é tão descritivo que chega a cansar. Já li uma vez um livro de 800 páginas que se passava num intervalo de 24 horas. Ele gastava 100 páginas descrevendo o personagem, só para o infeliz morrer com um golpe de machadada na página seguinte.

Beijos

Françoise Terzian disse...

Mas tu tá empolgada, hein? O que uma virada de ano não faz com uma pessoa. Risos. Brincadeirinha. Curti o texto. Muito bom. Continue assim...
Feliz 2006 e que no próximo ano vc ganhe uma viagem pra Europa.
beijão,

bernie disse...

hey, guria. nesse clima, recomendo o filme "extermínio". é sombrio, violento, perturbador e poético. dirigido pelo danny boyle, aquele camarada de "trainspotting". minhas estimas.