quinta-feira, maio 07, 2009

Contos domésticos e escatológicos - 2

"Despeje a mistura em um resipiente grande, cubra com um pano e deixe descançar por algumas horas para que as bactérias hajam. E... pronto! Seu iogurte fikou pronto! Vc vai ver: estará delicioso kkkkkkkkkkkk".

Saulo cumpriu as últimas etapas da receita que a vizinha de cima ("gente boa, mas meio mobral", pensou) mandara por e-mail semanas antes e resolveu fazer como o iogurte: cobrir-se com o pano branco do lençol e descansar um pouco. "Só meia horinha", decidiu internamente.

A meia hora virou 45 minutos, que viraram duas horas, três horas, quatro horas.

Quando a noite de sábado despontou na janela, ele acordou com o barulho dos grossos pingos de chuva que caíam na rua. Ainda meio grogue, levantou-se para tirar água do joelho e sentiu os pés mergulharem em algo viscoso.

Pensou que fosse um sonho desses cheios de sensações e deitou-se de novo. Quando voltou a acordar, oito minutos depois, sentiu o lençol melecado e a viscosidade alcançar o outro pé.

"Merda", disse baixinho.

Ainda no escuro, foi andando devagar até alcançar o interruptor do quarto. Quando acendeu a luz, viu: a casa estava tomada pela mistura branca que vazava do recipiente (com c) lá na cozinha da quitinete. Por algum motivo misterioso, a receita havia saído do controle. Teriam sido as horas a mais de sono? Nunca saberemos.

"Putaqueopareooooooooooo", continuou.

A visão que tinha era muito diferente da dos comerciais a que assistia na infância. Neles, com poucas variações, a câmera sempre enquadrava uma deliciosa onda de iogurte cor-de-rosa que invadia a tela e depois preenchia um milhão de potinhos. Potes esses que eram devorados em sequência por Saulo e o irmão mais novo, Vítor, nas tardes calorentas das férias.

"Imagina mergulhar num monte de iogurte assim? Uau", dizia Vítor quando uma dessas propagandas surgia nos intervalos dos filmes.
"Você é uma menina, mesmo", respondia o primogênito enquanto dava soquinhos nos braços do irmão e pensava o quanto ia ser LEGAL se isso acontecesse.

Agora, Saulo se via de camiseta velha e short de grife (isso é estilo hi-low, saca?), ilhado num mar branco e azedo, que nem fazia redemoinhos como os dos vídeos.

Dando passos arrastados, foi até a fonte da bagunça. Primeiro, para ver que o paninho que antes cobria a tigela agora boiava no leite fermentado. Depois, para tentar interfonar para a vizinha e descobrir o que, afinal, ele tinha feito de errado.

O interfone tocou várias vezes. Nada da mulher atender. Saulo resolveu ligar para o porteiro.
"Dona Marcela? Dona Marcela foi embora daqui há uns três dias", disse seu Zeca.
"Ela não deixou endereço, telefone, nada?"
"Deixou não, senhor".
"Ok, obrigado".

"Além de mobral, ruim de cozinha e mal-educada. Tá mal essa garota", ruminou.
Bufou ("Homem não suspira, bufa", ensinou o pai) e pensou no que iria fazer.
Decidiu ficar só de cueca e realizar de maneira torta o sonho de criança.

"Na minha cabeça, eu ia entrar em um daqueles comerciais e mergulhar, nadar crawl, costas e peito enquanto tomava aquele iogurte de morango todo. Mas nada é perfeito, né?", pensou.

Primeiro, sentou-se no chão. Depois, deitou-se. Mexeu braços e pernas como se estivesse na neve e quisesse desenhar as vestes e as asas de um anjo. Esfregou braços, pernas e rosto com o líquido. Só não quis bebê-lo. A quiti estava meio mais ou menos e a faxineira só viria na quarta-feira seguinte.

Quando tudo acabou, encheu baldes e sacos de lixo com o iogurte malsucedido. Também jogou fora a cueca e tomou banho. Xingou Marcela mentalmente de vaca pela última vez e pediu desculpas (mentalmente também) a quem quer que fosse limpar aquela nojeira toda no lixo coletivo do andar.

O pior foi, depois que tudo acabou, ter de faxinar a casa.

Horas mais tarde, quase madrugada, decidiu que não ia atender o celular do amigo que o convidava para a balada. Ia dormir de novo. Estava exausto do episódio, da limpeza e de mais um monte de coisas.

Quando acordou na manhã seguinte, pisou no chão limpo e foi dar uma mijadinha.
Ao lavar o rosto para tirar as remelas, sentiu algo diferente. Passou a toalha e tirou a conclusão:
"Pelo menos minha pele ficou linda!"

Saulo passou o resto do dia flutuando.

7 comentários:

Nat Valarini disse...

Olá!

O melhor de tudo foi o desfecho.
Um homem que não se dá ao luxo de suspirar concluir que fixou com uma pele linda foi sublime!

rs...

Kiso

Paula Menna Barreto Hall disse...

kkkkkkk, muito bom!!!!

Edelson disse...

Muito bom este post!

Adoro esses textos!


Bjus!

Dual disse...

nem vou mentir..vou procurar outro texto aki..esse ta muito grande..ngm le..é um saco ler isso tudo..

vo ler um menor..mas ta registrado a visita!

Mari Ceratti disse...

Ninguém lê? Conta os comentários acima de vc, meu bem. rsrsrsrs

Silvia disse...

Fiquei imaginando a cena, rs. No final ele acabou gostando, limpando só de cueca, deitado com braços abertos, realizou o sonho de criança e ainda acordou no outro dia com uma pele ótima!!! É quase igual a sexo, rsrs.

Anônimo disse...

Hilário, mas... por que jogou fora a cueca? Poderia ter molhado no café.