sexta-feira, abril 10, 2009

A música do arquipélago



Até alguns anos atrás, a informação de que a maior parte dos cabo-verdianos vive fora do país de origem) estava registrada nos meus arquivos mentais como "cultura inútil" (se houver alguém nascido por lá lendo este blog... foi mal). Esse dado foi promovido à categoria de "coisa bem interessante" recentemente. A culpa :-) é de umas descobertas que fiz sobre a música do arquipélago.

Por lá, enfrentar o mar, migrar, ir embora parece ser uma coisa tão comum que não haveria como não entrar no repertório poético local. Vou dar exemplos de três artistas de Cabo Verde aqui, mas é bem capaz que haja muitos outros de gente que nem conheço ainda.

Tudo começou com a Cesária Évora, cantora de umas tantas músicas legais que tocam de vez em quando num programa da Rádio Câmara. Entre elas, Sodade. Quem clicar no link vai ver, além do vídeo, a letra ao lado, que é supercompreensível (nos comentários, há também uma tradução em inglês). Daí que ela fala... do sentimento de deixar a terra natal. "Se você me escrever, eu vou escrever; se me esquecer, vou te esquecer até o dia em que eu voltar", entoa a diva. Mas a gente sabe, quando ouve a canção, que esse retorno provavelmente nunca acontecerá.

Tempos depois, ouvi pela primeira vez o Simentera num post do Diário da África. Achei Raiz uma música tão visceral e incrível (reparem nos momentos finais) que comecei a buscar outras canções do grupo. Há algumas na Last.fm (ouça mediante um cadastro chatíssimo, pelo menos para mim) e outras no Youtube. Das que estão no portal de vídeos, a melhor é Febri Funana. O nome me faz lembrar dos tempos em que eu jogava Carmen San Diego no DOS, e a letra, mais uma vez, toca no tema da saudade da terra. Mas de uma forma bem-humorada, como comprova o seguinte trecho (traduzido, claro):

"A burguesia foi para a Holanda
Quem tem algum dinheiro foi para Lisboa
Quem não está tão mal assim foi para Angola"

(A frase seguinte eu não sei traduzir, hehehe).

A descoberta mais recente foi a Mayra Andrade, de Tunuka, cujo videoclipe abre este post. Soube dessa cabo-verdiana por meio da brasileira Mariana Aydar, que cantou a música em dois shows (um no Teatro da Caixa, há uns dois anos, e outro no último sábado). E, recentemente, incluiu-a no repertório de seu mais novo disco, Peixes pássaros pessoas.

Um colega do trabalho fez uma cópia do álbum de estreia da Mayra Andrade, Navega, e pronto: me apaixonei pelo trabalho dela.

Update: leia aqui a letra de Tunuka, que, para variar, fala de emigração. Gosto demais dos versos "Nu uni korasom, nasionalidádi dja-nu tem dja" e "É nós ki mbárka pa Sam Tomé". São fortes e nem precisam de tradução.

Ouçam e comentem: digam aí se não é bem legal.

2 comentários:

Diário da África disse...

Mari,

Os caboverdianos são reconhecidos em toda a África como excelentes músicos. Aqui em Luanda há um bar conhecido com o Bar dos Cabo Verdianos. Nunca estive lá (tenho cada vez menos vontade de sair de casa), mas quem já foi faz muitos elogios.

Comprei um disco do Simentera. Chama-se Raíz, mesmo nome da música q vc adora. Aos poucos começarei a incluir no diário. Ainda preciso terminar com a seman a Afroman.

bjs

Mefisto disse...

Também adoro Cesaria Evora!


... não é caboverdiana, mas em se tratando de boa música de países que não fazem parte do mainstream, recomendo Chavela Vargas (mexicana) e Chabuca Granda (peruana). Conhece?

Tem também a genial mas bem mais atual Ute Lemper.

Beijos!