segunda-feira, março 02, 2009

O Fotógrafo

Obs.: se der tempo, eu coloco fotos relacionadas a este post mais tarde.

Usar fotogramas para ilustrar qualquer coisa relacionada ao mundo da fotografia é um tremendo dum clichê. Mas, em O Fotógrafo, livro-reportagem em quadrinhos assinado por Didier Lefèvre (cliques), Emmanuel Guibert (texto e desenhos) e Frédéric Lemercier (diagramação e cores), trata-se de um clichê totalmente perdoável. Eles emolduram uma série de imagens que, combinadas com as ilustrações de Guibert, ajudam a relatar a jornada única – de descoberta, paixão, dor e transcendência – de um profissional que topa acompanhar uma equipe do Médicos Sem Fronteiras (MSF) do Paquistão ao Afeganistão, em 1986.

A história começa com a chegada de Lefèvre (1957-2007) a Karachi e é marcada por um recurso intrigante: na quarta página do relato, entre ilustrações e fotos, três quadrinhos apresentam o título da obra e os nomes dos autores, como se aquilo fosse um filme, e não um livro. Se O Fotógrafo será realmente transposto para as telas, não dá para saber ainda, mas fica claro que existe essa intenção. Se quadrinhos tivessem som, daria até para ouvir a trilha sonora composta para tocar enquanto carroças e muita gente circulam pelas ruas da capital paquistanesa enquanto rolam os créditos.

Durante aquele ano em que a ocupação afegã por parte da URSS ainda vigorava (durou de 1979 a 1989), atravessar a fronteira para levar cuidados médicos aos camponeses não era bolinho. Liderada por uma mulher, Juliette, e escoltada por um tradutor, por inúmeros mudjahedin (combatentes islâmicos que lutaram contra os soviéticos), por 100 burros e 20 cavalos, a equipe caminha durante um mês. Enfrenta o frio glacial e a altitude em desfiladeiros perigosos, onde o risco de queda (ou, no mínimo, de torção do tornozelo) existe a todo instante. Abre mão de luxos como refeições completas, banho e papel higiênico – esse último, interpretado pelas tropas russas como um sinal de presença ocidental no lugar. E, finalmente, chega à aldeia de Zaragandara, a um hospital de guerra que o fotógrafo custa a reconhecer como tal, tamanha a simplicidade do lugar.

Somente no segundo volume da obra a adrenalina da longa caminhada é substituída pela do atendimento aos pacientes. Doenças e acidentes domésticos comuns são intercalados com o sofrimento do guerreiro que perde um dos olhos num incidente algo patético e da moça que fica paraplégica quando um estilhaço de bomba se aloja na coluna, entre outras histórias. Lefèvre e Guibert acertam no tom de sobriedade e em deixar que os casos falem por si. Há pouquíssimo choro, discretos aplausos do fotógrafo ao trabalho corajoso dos colegas (um deles chega a revelar verdadeira paixão por cirurgias feitas em condições sanitárias mínimas) e, o mais importante: imagens que preservam a dignidade dos atendidos e não causam asco em quem as vê.

A saga de Lefèvre e dos bravos doutores em Zaragandara, Afeganistão, parece terminar no segundo tomo – mas, no final deste, ainda descobre-se que há um pouquinho mais de história para acontecer. Ela fica para o terceiro livro, que ainda não foi lançado pela Conrad no Brasil. A quem leu os dois volumes em duas sentadas (leia-se: esta blogueira) só resta esperar que ele venha rápido. Muito rápido!

O FOTÓGRAFO – Volumes 1 e 2
Por Didier Lefèvre, Emmanuel Guibert e Frédéric Lemercier. De R$ 92 por R$ 59,80 na loja virtual da Editora Conrad.

Ah! Clicando aqui você lê outro texto, feito em fevereiro de 2008, sobre a história em quadrinhos (acesso exclusivo aos assinantes do Correio Braziliense).

2 comentários:

Diário da África disse...

Eu li os dois.
Sensacionais.
Estou aguardando o terceiro.

Mari Ceratti disse...

Quem vir o livro primeiro avisa o outro!