segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Melissa

O despertador tocou: 5h. Naquele dia, Melissa acordou uma hora mais cedo para lavar o cabelo e fazer escova. Tomou café, se arrumou e, precisamente às 6h37, saiu fazendo toc-toc-toc-toc com os saltos altos de advogada no piso de madeira da casa onde ainda morava com os pais pertinho da Esplanada dos Ministérios.

Antes de continuar, seria bom explicar que lugar é esse onde Melissa mora. A Vila Planalto nasceu a partir dos vários acampamentos das empreiteiras que construíram Brasília. Recebeu inúmeros pioneiros, pessoas que vieram de fora e permaneceram na cidade mesmo depois do fim da obra. Hoje, seus moradores vivem em casas, e não em prédios como os do Plano Piloto. O comércio local é pequeno, mas se destaca no setor de gastronomia. Fica lá, por exemplo, o Rosenthal, restaurante que o ex-cozinheiro de Juscelino Kubitschek comandou até a morte, em 2005. A Vila é como se fosse uma cidadezinha do interior incrustada em plena capital do país.

Pegou a bolsa e a chave do Celta azul-marinho. Apertou o botão do alarme, mas ele não funcionou: o carro estava aberto. Mas a casa era gradeada e o auto ficava do lado de dentro. A vizinhança era tão tranquila que não era um grande problema esquecer de trancar uma vez ou outra.

Antes mesmo de abrir a porta do carro, reparou num barulhinho.
Um miado tímido. Dois miados.
- Não pode ser - pensou.


Abriu a porta, vasculhou os bancos, o porta-luvas, o porta-malas. Nada de gato.
Deixou a bolsa de lado, foi até a varanda da casa, olhou o jardinzinho que a mãe cultivava, remexeu os móveis da área da churrasqueira. Nada de gato.

Os miados cresciam em volume e duração.

Melissa voltou ao carro e se aproximou do único lugar que tinha esquecido de verificar. Abriu o capô. E viu dois pares de orelhinhas se mexendo. Era um mistério como tinham parado justamente ali, perto do motor.

A Vila Planalto fica perto do Lago Paranoá e de extensas áreas de grama e de cerrado. Lá, corujas voam e montam ninhos sem serem incomodadas. Cachorros circulam à vontade. E gatos vadios eventualmente atravessam as grades das casas para visitar os moradores.

- Graças a Deus, não liguei o motor. Deus me livre e guarde - disse, com o coração aos pulos.
Agachou-se e começou a chamar a dupla de gatos.
- Pssss, psss, psss, psss. Vem aqui, vem, gatinho. Pssss, psss, psss, psss. Ei, chaninho, vem com a mamãe, vem.
Depois de 15 minutos de pss para cá, chaninho para lá e nada, e já preocupada por conta do atraso (precisava bater cartão no tribunal às 7h em ponto), Melissa foi à cozinha e colocou leite num pires para ver se os gatos se animavam a sair dali.
E os gatos? Ainda no motor, miando.

Melissa podia deixá-los em paz e ir para o trabalho de busão, não fosse um detalhezinho de nada: ali, os ônibus demoravam a passar e eram péssimos. Seriam necessários uns dois deles e mais incontáveis minutos a pé em ruas cheias de barro duro e com poucas calçadas. Táxi também não dava. A moça não tinha um real na carteira, só cartões de crédito.

Usar o Gol dos pais, então, nem pensar: para tirá-lo da garagem, primeiro teria de afastar o próprio carro, o que significaria ligar o motor e matar os gatinhos imediatamente. Resolveu chamar o pai, aposentado, que ainda dormia feito um anjo. A mãe acabou abrindo os olhos também.
- Pai, acorda. Me ajuda a tirar um gato do motor do carro?
- Como é? - seu Domingos perguntou, entre sonolento e incrédulo.
A mãe achou que estava sonhando. Virou para o outro lado e continuou dormindo.
- Mas como é que o gato foi parar lá? – quis saber o pai.
- Na verdade, são dois, pai. Dois gatos. Não tenho a menor ideia de como isso aconteceu. O pior é que eu já tinha que estar no trabalho e não consigo fazer nenhum deles sair dali.
- Já chamou os dois, ofereceu comida, essas coisas?
- Já. Vou ligar para o trabalho e avisar que vou chegar mais tarde.

O pai achou uma antena antiga de tevê no quarto que servia de depósito. Aproximou-se do motor do carro e cutucou os bichos com cuidado. Três minutos depois, o primeiro deles saiu dali, atravessou o portão da casa e correu rápido, muito rápido. Era grande e rajado de cinza. O outro, um preto com manchas brancas que davam a impressão de haver meias nas patas, precisou de um pouco mais de tempo, uns 10 minutos, mais ou menos. Esse era mais folgado: ainda rondou o pires e tomou leite. Saiu miando calmamente em direção à rua.

- Obrigada, pai – retribuiu Melissa.
- Não foi nada, minha filha. Agora, vá, ou você se atrasa muito. Me liga quando chegar lá – pediu o homem.

Melissa chegou ao tribunal, estacionou, vestiu o crachá e subiu até a sala de trabalho. Já sentada à mesa, ligou para os pais e contou para os colegas, aos risos, o inacreditável motivo que a havia deixado um pouco atrasada naquela manhã de quarta.
Pouco antes das 9h, pegou uma pasta e uma caneta. Tinha de descer até o térreo e entrar numa reunião no prédio anexo. Entrou no elevador.

Quando a viagem terminou, a porta se abriu e Melissa quase desmaiou.
Dois gatos – um cinza gordo e um preto de patinhas brancas – esperavam-na pacientemente, em frente à porta do elevador, no hall de entrada do prédio. Não havia mais ninguém ali.

5 comentários:

Lorena disse...

Do jeito que os gatos andam de lá pra cá, de cá pra lá, Mari, tem certeza que ao invés de pedigree, eles não têm RG, CPF, telefone, e-mail...?

Cristina Rafaela disse...

E aí? Vc nem quis ficar com algum? (risos)

Mari Ceratti disse...

Lorena: os gatos de Melissa são felinos reais. E, ao que parece, psicopatas... que meda (hehehehe).

Cristina: Melissa até gosta de gatos, embora prefira cachorros. Só que, depois de um pedido tão contundente, ela teve de adotá-los de vez. E foram felizes para sempre.

Beeeijos!

Lorena disse...

Pois é Mari, preferi achar que não se tratavam de felinos, justamente para não sentir "meda"!!!

bceratti disse...

b.i.zarro! hehehe