terça-feira, janeiro 06, 2009

Sleepless in Lisbon


- Mari, você não vai acreditar. Um cara acabou de me oferecer haxixe – meu amor veio depressa me contar, os olhos verdes arregalados, emoldurados por lindas olheiras de quem passou a noite em claro.
- O quê? Como assim, haxixe? – respondi.
- Ele chegou do meu lado e disse: “Olá, quer haxixe?”. Eu respondi: “Não, obrigado”. E agora estou aqui para te contar.
- Caraca, isso é absolutamente surreal. É domingo, são nove da manhã, está chovendo e frio pra cacete. Tem quantas pessoas nessa praça? Umas 10?

Putz, o cara é um obstinado. Deve ter lido aquele livro O Gerente de Vendas Pit-bull -- ou qualquer um desses que ensinam que toda hora é hora, todo lugar é lugar para quem quer vender seu produto. Só assim para achar que um sorridente turista na Praça do Comércio, em Lisboa, é um consumidor em potencial do seu inocente fuminho. E que aquele turista é mala o suficiente para comprar um podruto (sic) nas barbas da polícia enquanto a namorada admira o elefante que adorna a estátua de D. José I.

Devo confessar que nosso primeiro contato com a população local foi engraçado, mas não da maneira que eu esperava. A gente acha que vai chegar do outro lado do Atlântico e se divertir imediatamente com o que eu chamo de a literalidade dos portugueses (que os brasileiros traduzem em incontáveis anedotas). O que me divertiu nessa cidade foram outras coisas. Pequenas coisas. O vocabulário. O visual de certas placas. A começar por uma que eu vi na própria Praça do Comércio. Entendi que é um lugar para comer, mas não tive coragem de ir lá perguntar o que afinal são “farturas e porras” porque imaginei que todos os brasileiros que vão ao Terreiro do Paço (outra denominação para a Praça do Comércio) devem fazer isso. O dono deve odiar.



A Praça do Comércio recebe, até março de 2009, uma feirinha livre sobre a qual eu já tinha lido na Time Out – e que, para ser honesta, me pareceu bem fraquinha (teria sido a manhã de domingo com chuva?). Também abriga um dos restaurantes mais antigos da cidade, o Martinho da Arcada (não fui, não sei se é bom). E ainda é o ponto de partida de um bondinho vermelho fake que leva os turistas a um monte de lugares.

O pior é que eu e meu amor não queríamos ir a lugar nenhum.

Tinha viajado a noite inteira de Brasília a Lisboa. Saí daqui umas 17h30 e cheguei por volta das 6h30 – o que, para o nosso corpitcho de brasileiro, deve ser interpretado como 1h30. Vi um filme, vi dois filmes, li e, dormir que é bom, nada. No máximo, uma horinha e meia. E olha que eu durmo em avião que é uma beleza. Deve ter sido a empolgação de ir tão longe.

Chegamos, passamos pela imigração (fila quilométrica e sem alternativa), compramos Lisboa Card (vale a pena), pegamos o busão e fomos pro hotel. A idéia era tomar um banho e fechar o olho só um pouquinho antes de tomar um café e ir bater perna na rua. Mas o quarto só ia ficar pronto lá pelas 14h. Fer-rou. Fomos tomar um espresso na rua. Na dúvida entre o café muvucado e o calminho, ficamos com o segundo, que é bem OK. O primeiro deles oferecia biscoitinhos incríveis chamados de língua de veado feitos na hora, mas... era muvucado. E quem tem sono tem pressa. Quer cafeína logo, sem ter de enfrentar uma horda de compradores de coisas de padaria.

No mais, o primeiro dia em terras lusas foi... normal. Ofereceram haxixe na Praça do Comércio, um pouco depois a gente vazou dali, andou até o Cais do Sodré, pegou o bonde para a Torre de Belém e fez tudo aquilo que a turistada faz num domingo. Vai à Torre, olha o Mosteiro dos Jerônimos (a visitação dos dois é grátis aos domingos), dá risada com a fila dos Pastéis de Belém, come bacalhau, essas coisas.

Desnecessário dizer que fiquei muito feliz quando vi que, depois de fazer todas essas coisas, o tempo passou rápido e dava para tentar voltar ao hotel. Já passava das 14h.

Pegamos um quarto de fundo, excelente, sem barulho nenhum da rua ou de qualquer outro lugar.

Não lembro qual foi o meu último pensamento entre o momento de tirar a lente de contato e desmaiar.

3 comentários:

milenebernardes disse...

Amo vir aqui, ler o que porduzes! Amo vc, flor linda! Te admiro! Beijos, Mila e Duda.

Guilherme Zé Gotinha disse...

Quanto estava o haxi? Em Barcelona deve ser mais barato, heheheh.

bceratti disse...

churros e porras!
kakakakakakakakakakakak!
to rindo até agora!