sexta-feira, janeiro 02, 2009

Kaput

Dora, minha faxineira, é uma moça morena, baixa e magrinha. E de modos algo reservados. Por esse motivo, soube que algo estava estranho quando, nas primeiras semanas de casa nova, abri a porta e ela me recebeu com um sorrisão:
- Que bom que você chegou!

Eu sorri de volta, mas a vontade era mesmo de levantar uma sobrancelha (ah, se eu conseguisse...).
- Está tudo bem? – perguntei.
- Na verdade, mais ou menos. Tem um morcego no seu escritório – ela devolveu.

Ai, meu Deus. Horror. Pânico. Desmaiar ali não era uma alternativa válida. Comecei a me perguntar: que tamanho teria o bicho? Ele estaria pendurado em uma das lâmpadas, como um vampiro de filme?

E levantei o principal questionamento de todos: por que esse tipo de coisa só acontece quando o homem da casa está a quilômetros de distância? Preciso dizer que, nesse dia e em vários outros, só recebi a visita de besouros cascudos, cigarras geneticamente modificadas e de uma única barata voadora quando meu amor estava longe (acabei com quase todos eles). Deve ser uma pegadinha do mundo animal.

Respirei fundo uma vez. Duas. Três. Decidi que ainda não estava preparada para fazer a caçadora de vampiros. Não dizem que os homens têm quatro milhões de neurônios, ou 30% de conexões a mais? É para isso que elas servem, pois: caçar baratas, besouros, cigarras e morcegos. Corri para o interfone. Preciso. De. Um. Homem. Agora.
- Oi, bom dia. É o seguinte: um morcego entrou aqui em casa e sujou o escritório inteiro. Você pode mandar alguém aqui para me ajudar a tirá-lo? – pedi ao porteiro. E, juro, a parte do cocô era de verdade. Não satisfeito em entrar, o bicho fez caquinha no chão do escritório.
- Claro. Já mando um funcionário aí – respondeu o moço da guarita.

Ele chegou dois minutos depois. Um pouco maior do que eu, forte, de poucas palavras e com jeito de quem acha esse negócio de animais nojentos e voadores uma pouca bobagem. Droga, não me lembro do nome do cara.
- Onde ele está?
- No escritório.

Abri a porta e varri o ambiente com os olhos para saber onde o bicho teria se escondido. Não estava pendurado em lugar nenhum. Finalmente achei:
- Ele está deitado no meio da fiação do computador – revelei. Fui depressa buscar luvas e um saco de lixo para o funcionário do bloco recolher o bat-mala.

O homem se agachou. Afastou a fiação com uma mão e, com a outra, agarrou o morcego. Nesse momento, quase pensei em desistir de tudo. Quase ignorei a caquinha espalhada pelo chão de cerâmica branca e deixei-o completar seu sono.
O bicho esticou o pescoço e contraiu os músculos da face para fazer uma cara de sofrimento praticamente humana. Ele entreabriu os olhos e, com dificuldade, murmurou algo em alemão. Não entendi nada. Mein deutsch ist kaput.
- Ponho ele de volta? – quis saber o funcionário, diante da bizarra tentativa de comunicação.
- Não, pode levar embora – sentenciei.

Agradeci ao moço e corri à comercial. Precisava providenciar trajes espaciais, revestidos com chumbo, para que Dora pudesse limpar aquela caca toda sem nenhum risco de contaminação.

Será sempre um mistério o que aquele morcego tentou me dizer naquela manhã luminosa de abril.

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Não sei se o blog vai voltar. Não sei se terei inspiração para tocar um blog como fazia antes. O que importa é que acordei hoje com a veia e resolvi escrever. Fica o registro. Beijos.

2 comentários:

bceratti disse...

aaaaaaaaai, um bicho!

Lorena disse...

Já aconteceu na minha casa. Pior que ninguém sabia dizer que caca era aquela que aparecia do nada, e tampouco a autoria. Um dia um funcionário da minha mãe esteve aqui, por acaso, e perguntou surpreso: Por acaso aqui nessa casa, cria-se morcegos? Acabava aí o mistério e começava o meu terror. Detesto certos bichos (adoro outros). A solução foi colocar redes de proteção, tal o meu pânico. Hoje ate´gosto do barulhinho que fazem lá fora de madrugada, mas gosto mais ainda por saber que não adianta pedir, a entrada definitivamente não está liberada. Hehehe