terça-feira, janeiro 20, 2009

Tesouros da web

Essa matéria sobre os quadros do Museu do Prado, em Madri (Espanha), que podem ser vistos em detalhes saiu hoje no caderno de cultura do Correio Braziliense e passo adiante porque a proposta do serviço é muito legal.

Quem já foi a esse museu, especialmente nos dias em que ele é gratuito, sabe o quanto ele lota e o quanto a busca por olhar algumas das pinturas mais importantes da história da arte pode ser meio enjoadinha. Observar detalhes desses quadros de perto, então, nem pensar, por causa daquela distância regulamentar básica que a segurança dos museus sempre impõe.

Para ver tudo, é preciso ter o software do Google Earth instalado na máquina. Eu ainda não baixei o programa, mas pretendo fazê-lo o quanto antes. :-)


Por dentro do Prado

Catorze obras-primas do Museu do Prado, em Madri, podem ser visitadas detalhadamente, graças a fotografia digital e a recursos de microscópio

Juliana Leão Coelho
Especial para o Correio

O Museu Nacional do Prado, em Madri, uma das maiores pinacotecas do mundo, tornou-se pioneiro em oferecer na internet imagens de seus melhores quadros em mega-alta definição. O projeto, recém-lançado no Google Earth, é fruto de acordo entre o buscador Google e o museu com objetivo de globalizar o acesso à arte. Para começar, foram escolhidas 14 obras-primas entre os 1.300 quadros expostos no Prado.

Usando a mesma tecnologia com que o Google Earth fotografa qualquer canto do planeta, foram tiradas 8.200 fotografias parciais, que depois foram montadas como num quebra-cabeças. O processo levou três meses para fotografar e outro tanto para mesclar com técnicas de microscópio e de atlas. O efeito de aproximação foi surpreendente, de uma nitidez 1.400 vezes maior que a de uma câmera digital de 10 megapixels.

Agora, podem-se ver detalhes que, antes, escapavam ao olho humano, o que é um presente para pesquisadores e amantes da arte em geral. Não somente são mostrados os pormenores secundários da tela, como também os traços e as pinceladas típicas de cada artista, além de pequenos truques. Por outro lado, os efeitos do tempo revelam-se no verniz esquartejado.

O Prado comemora, este ano, 190 anos de existência e entra de cheio no século 21 “com essa ferramenta deslumbrante, de um realismo prodigioso e que pretende universalizar a arte”, entusiasmou-se o diretor do museu, Miguel Zugaza. Os 14 quadros considerados imprescindíveis são de mestres europeus dos séculos 16 ao 19. Entre os espanhóis, destacam As Meninas, de Velásquez, em que ele retrata as princesinhas e a si próprio em segundo plano; o nobre Cavalheiro com a Mão no Peito, de El Greco; e o 3 de Maio, em que Goya mostra os horrores da invasão napoleônica.

Da escola italiana, estão a belíssima Anunciação, de Fra Angélico; o portrait de O Cardeal, de Rafaello; o imponente Imperador Carlos V, de Tiziano; além da delicada Imaculada Conceição, de Tiépolo. Da Alemanha, foi escolhido o autorretrato do belíssimo Albrecht Dürer. Os pintores holandeses e belgas da escola flamenga têm destaque especial. A Crucificação, de Juan de Flandes, e O Descendimento da Cruz, de Roger van der Weyden, são obras-primas da pintura religiosa. Nesse último, pode-se agora apreciar uma lágrima no olho de São João.

Também na tela As Três Graças, em que Rubens pinta as deusas da dança, do charme e da criatividade nuas, aparecem finos detalhes como uma abelha sobre uma rosa. Do gênio Rembrandt, está o quadro Artemisa, para o qual ele teria usado a própria mulher como modelo.

Criação do mundo
A obra mais esmiuçada será, sem dúvida, o tríptico O Jardim das Delícias Terrenas, pintado em 1505 por Hieronymus von Bosch (El Bosco). É uma das peças mais fascinantes da história da arte pelo simbolismo e genialidade e a que mais atrai os visitantes do Prado. Foi comprado pelo rei espanhol Felipe II, que o colocou em seu quarto, no palácio de El Escorial. Representa, nos laterais, a criação do mundo e o inferno. No centro, está o paraíso terrestre com todo tipo de prazeres carnais, desde o sexo livre à gula, descritos com símbolos vívidos e grande desinibição. Daí o enigma do quadro, pois contrapõe-se totalmente à sociedade cristã ultrabeata do século 16. Quando fechado, o tríptico mostra a Terra no terceiro dia da criação e a frase do salmo 33: “Ele o disse, e tudo foi feito. Ele mandou, e tudo foi criado”. Ao abri-lo, na Gênese à esquerda, aparece Deus com Adão e Eva.

O centro é a loucura total, a luxúria desenfreada, porém, bela e colorida. O gozo e o prazer são efêmeros e etéreos, como borbulhas, morangos e flores. As pessoas, todas nuas, não aparentam sentimento de culpa. Segundo vários autores, a Igreja só teria aceitado o quadro por ser uma utopia, pois mostra criaturas fantásticas, animais e plantas extraterrestres. Abundam o sarcasmo e o grotesco, além da crença medieval em bruxarias. O objetivo da obra seria moralizador, pois faz uma crítica ácida a essa humanidade pecadora, segundo a tradição medieval de deformar para dar lições de moral.

Para outros, Bosch (El Bosco em espanhol) era um gênio ultra-avançado para sua época, que conseguiu burlar a Igreja com sua fantasia. O quadro tem mil interpretações e é considerada a primeira grande obra surreal da história, cinco séculos antes de Breton, Dalí, Éluard, Ernst ou Tanguy.

MUSEU VIRTUAL
Para acessar as imagens no site www.google.es/prado, basta ativar a capa 3D dentro do Google Earth, clicar sobre o edifício do Prado e depois sobre cada quadro.

Um comentário:

Lorena disse...

Muito boa a idéia e a iniciativa. Vale muito apreciar essas obras, com riquezas de detalhes então, nem se fala...